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      Exclusivo
Os nazistas brasileiros
Um duplo homicídio revela a existência de novos seguidores de Hitler no
País, com plano político, armas e conexões no Exterior

Por Suzane G. Frutuoso, de Curitiba, e João Loes

   HOMENAGEM Uma festa em comemoração aos 120 anos de Hitler. Acima, Barollo
preso

Neuland é uma "nova terra", onde não falta emprego aos cidadãos e o salário
mínimo é de 840 euros (R$ 2,4 mil). Nesta República Federativa, o hino
nacional é o último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven e a capital foi
batizada de Magno - para afirmar sua grandiosidade. Há três prédios
interligados, com 200 mil metros quadrados e 160 andares cada um. Neuland
poderia ser o país fictício de uma narrativa fantasiosa. Mas a mente de quem
criou esta nação-babel, com 20 idiomas oficiais, é a mesma que está sendo
acusada de planejar a morte de um rival, motivada por uma ideologia que já
foi usada para justificar o assassinato de milhões de pessoas no século
passado e se mostra viva no Brasil de 2009: o nazismo.

O paulista Ricardo Barollo, 34 anos, coordenador de projetos especiais da
empreiteira Camargo Corrêa, foi apontado como mandante do crime que tirou a
vida do estudante de arquitetura mineiro Bernardo Dayrell, 24, e sua
namorada, a estudante Renata Waechter, 21, na madrugada de 21 de abril em
Campina Grande do Sul, no Paraná, devido a uma disputa de poder. O crime
descortinou uma rede organizada de nazistas no País, com ramificações em
vários Estados e conexões com outros países.

Barollo e Dayrell eram líderes dos dois maiores movimentos nacionais.
Defendiam que a raça branca estava em extinção e, por isso, a miscigenação
deveria ter fim. A Neuland seria o país de extrema direita pautado na mesma
ideologia que o ditador Adolf Hitler implantou na Alemanha a partir de 1934.
Primeiro, o grupo tomaria São Paulo e os Estados do sul do País. Depois,
conquistaria o território de 22 países da Europa.

Essa história veio à tona em 1º de maio, quando Barollo foi preso no bairro
de Moema, em São Paulo, no apartamento de alto luxo em que morava com os
pais - outros cinco acusados de participar do crime também foram detidos no
Paraná. A partir daí, a polícia começou a ter acesso ao universo neonazista
do qual faz parte o grupo. A rede com ramificações no Sudeste, Sul e
Centro-Oeste do País é formada, em sua maioria, por jovens de classe média
ou alta, com boa formação intelectual. A exigência é tão grande que, para
ser admitido na facção, o candidato precisa passar por uma rigorosa prova.

A avaliação é realizada pelo computador, em um documento enviado por e-mail
com uma senha de acesso e 30 perguntas dissertativas como "Os fins
justificam os meios?", "Quem era Adolf Hitler?" e "Quais e como eram os
principais governos da Europa na década de 40?". Quem responde de acordo com
o que os fatos históricos comprovam é reprovado. Passa aquele cujas
respostas são inspiradas no revisionismo, teoria que, entre outras coisas,
nega o Holocausto. Os aprovados são "batizados" num lugar confirmado poucas
horas antes do evento - apenas a cidade onde acontece a reunião é divulgada
com antecedência. Segurando tochas de fogo, prometem honrar a imagem do
Führer e o nacional socialismo.

Tamanha devoção é contida em ações discretas, como uma sociedade secreta. O
movimento não tem sede, página na internet, nem nada que o identifique
perante a sociedade. Os integrantes preferem se comunicar por e-mail ou
mensagens instantâneas. Telefonemas, só em casos excepcionais. Encontros,
quando inevitáveis, acontecem sempre em lugares diferentes, para não
levantar suspeitas. Não há amadorismo. Os grupos são divididos em células.
   DIVULGAÇÃO Capa de uma revista online mensal criada por Dayrell que prega
o nazismo

A da propaganda serve para divulgar a ideologia por meio de revistas e
cartazes. Na política, o foco é a formação de futuros partidos e a conquista
de novos membros. Já a paramilitar é o setor armado, que dizem ser para
defesa (não há indícios de que participem de algum tipo de treinamento).
Mulheres não podem participar.

Mas é permitido que elas frequentem as festas, onde a bebida é controlada e
as drogas são proibidas. Negros também podem ingressar no movimento, mas
precisam ser "puros", sem mistura de raças. E jamais chegariam a líderes.

O detalhado plano da Neuland foi apresentado por Barollo aos seus seguidores
em setembro de 2008. Primeiro, o grupo elegeria vereadores e o prefeito no
Balneário Piçarras, em Santa Catarina. Em alguns anos, fortalecido, tomaria
os Estados do Sul e São Paulo, num movimento separatista que criaria o novo
país.

As fronteiras, porém, seriam fechadas a imigrantes. Barollo confirmou essas
informações à polícia no dia da prisão, quando vestia uma camisa da seleção
de futebol alemã. O que não contou é que o objetivo do grupo era bem mais
ousado. Neuland, uma "terra prometida" fundamentada em "união, justiça e
liberdade", ocuparia países que fazem parte da União Europeia, como
Alemanha, Dinamarca, Espanha, Itália, Polônia, Suécia, entre outros.

Está tudo documentado como um plano de governo em pastas às quais ISTOÉ teve
acesso. Barollo seria o presidente, com um salário de 10.560 euros (R$ 30
mil). Superior aos R$ 8.348,95 que ele recebia na Camargo Corrêa. Seu
aniversário, 18 de julho, constaria como feriado nacional. Bandeiras,
ministérios, empresas, cargos e leis também já estavam definidos.
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