sábado, 16 de maio de 2009, 20:18 | Online

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 Thomas Mann: Áudio e a transcrição do discurso de 1941

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 SÃO PAULO - *Entre outubro de 1940 e novembro de 1945, o escritor alemão
Thomas Mann participou da luta contra o nazismo por meio de boletins
transmitidos pela rádio inglesa BBC a todo o território europeu.*

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*Veja Também:*

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* Ouça o 
discurso*<http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowAudios.action?destaque.idGuidSelect=B0E41C4F11AD48B081EF04F94D68E1A1>





*Leia a transcrição do discurso de 1941:*

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*Thomas Mann*

*Discurso de novembro de 1941 *

*Ouvintes alemães!*

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*Quem hoje novamente fala a vocês teve o privilégio de fazer alguma coisa
pelo prestígio intelectual da Alemanha no decorrer de sua agora longa vida.
Fico agradecido por isso, mas não tenho nenhum direito de me vangloriar,
pois foi coisa da providência, e não minha intenção. Nenhum artista constrói
sua obra para engrandecer a fama de seu país e de seu povo. A fonte da
produtividade é a consciência individual, e mesmo que a simpatia que ela
desperta venha beneficiar a nação em cuja língua e tradição se baseia, há
acaso demais em jogo para que uma pretensão de reconhecimento se justifique.
Vocês, alemães, não deveriam, ainda que quisessem, agradecer-me hoje por
minha obra! Ela não foi feita por causa de vocês, e sim por uma necessidade
pessoal imperiosa. *

**

*Mas há algo que verdadeiramente aconteceu por causa de vocês, por causa de
minha consciência social e não privada, e diariamente cresce minha convicção
de que virá o tempo, e ele está cada vez mais próximo, em que vocês vão me
agradecer e me ter em mais alta consideração que meus livros de histórias: é
o fato de eu ter alertado vocês, enquanto ainda não era muito tarde, contra
os poderes abjetos sob cujo jugo vocês estão hoje atrelados sem amparo e que
os estão conduzindo a uma ruína inimaginável através de milhares de crimes.
Conheci esses poderes, e soube que nada além de catástrofe e miséria para a
Alemanha e a Europa podia crescer de sua natureza indescritivelmente infame,
enquanto a maioria de vocês, num deslumbramento hoje já certamente
inexplicável para vocês mesmos, julgava que eles trariam ordem, beleza e
dignidade nacional. Será que não devemos pensar nas palavras de Goethe sobre
a "devota nação alemã que só se sente sublime quando toda sua dignidade foi
jogada fora"? Eu também os conhecia, meus bons alemães, e o quanto eram
falíveis para compreender qual seria a verdadeira honra e a verdadeira
dignidade de vocês; e que, em outubro de 1930, contra a minha natureza, eu
tenha subido na arena política e, na Sala Beethoven, em Berlim, sob as
interrupções dos gritos nazistas, tenha feito um discurso de que, talvez, um
ou outro de vocês ainda lembre, que chamei de "Apelo à Razão", embora na
verdade fosse um apelo a uma Alemanha melhor - isso serve hoje, mesmo que
tenha sido inútil, para acalmar minha consciência muito mais do que tudo que
alcancei e realizei como artista. *

**

*Eu procurava, com minha débeis forças, prevenir o que viria e já estava ali
há anos: a guerra - pela qual o mentiroso líder de vocês culpa os judeus, os
ingleses, os maçons e sabe Deus quem mais, embora, para qualquer um que
quisesse ver, ela fosse certa desde o momento em que eles chegaram ao poder
e começaram a construir a máquina com a qual tencionavam destruir a
liberdade e a justiça. E que guerra essa em cujos grilhões vocês se
contorcem! Uma aventura imprevisível, devastadora e sem esperança, um
atoleiro de sangue e crime no qual a Alemanha ameaça naufragar. Como estão
as coisas na Alemanha? Vocês acham que nós, aqui de fora, não sabemos tão
bem quanto vocês? Embrutecimento e miséria se espalham em torno de vocês.
Inescrupulosamente, jovens de 18, 16 anos são oferecidos aos milhares, aos
milhões ao Moloch da guerra - não há uma casa na Alemanha que não se lamente
por um marido, um filho ou um irmão. O declínio começa. *

**

*Na Rússia, faltam médicos, enfermeiros, remédios. Nos hospitais civis e
militares alemães, os feridos graves são colocados ao lado de velhos,
enfermos e doentes mentais para morrer com gás - de dois a três mil, assim
como contou um médico alemão, em uma única instituição. Assim faz o regime
que vocifera quando Roosevelt o acusa de querer aniquilar o cristianismo e
toda religião e que afirma conduzir uma cruzada da civilização cristã contra
o bolchevismo - o bolchevismo do qual ele próprio é apenas uma variação
incomparavelmente mais vulgar.A contrapartida cristã dessas execuções em
massa por gás são os "dias de acasalamento", em que soldados de licença são
conduzidos a encontros animalescos com jovens da BDM (Associação das
Mulheres Alemãs) para produzir bastardos do Estado que possam servir na
próxima guerra. Pode um povo, uma juventude decair mais? Horror e injúria da
humanidade, por toda parte. Outrora um Herder recolhia, cheio, de amor, as
canções populares das nações. Assim era a Alemanha em sua bondade e
grandeza. Hoje, só quer saber de assassinar outros povos e raças, de
extermínio estúpido. *

**

*Trezentos mil sérvios foram mortos não na guerra, mas depois da guerra com
a Sérvia por ordem dessa escória infame que governa vocês. Vocês sabem das
coisas indizíveis que aconteceram e acontecem na Rússia, na Polônia e contra
os judeus, mas preferem não saber pelo justificado horror diante do ódio
igualmente indizível que atinge proporções gigantescas e que um dia, quando
seus homens e máquinas perderem as forças, cairá sobre sua cabeças. Sim, o
horror diante desse dia é oportuno, e seus líderes tiram proveito disso.*

**

*Eles, que seduziram vocês a cometer todos esses atos vergonhosos, dizem:
agora que vocês os cometeram, estão inextricavelmente amarrados anós; agora
vocês devem resistir até o último homem, ou o inferno cairá sobre vocês. O
inferno, alemães, veio para vocês quando esses líderes vieram. Ao inferno
com eles e todos os seus cúmplices. Então ainda poderão ter salvação, paz e
liberdade.*

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