Mario Ivo, em http://embrulhandopeixe.blogspot.com/

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009  Um dia de
fúria<http://embrulhandopeixe.blogspot.com/2009/06/um-dia-de-furia.html>
Nelson
Rodrigues dizia que no Maracanã se vaiava até mulher nua.
Na verdade, já começava propositalmente exagerando ao citar o minuto de
silêncio como objeto das vaias, pra depois exagerar ainda mais pegando
carona na nudez das damas.
A frase completa saiu num artigo no Globo em 28 de janeiro de 1970:
“No Estádio Mário Filho, ex-Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio, e,
como dizia o outro, vaia-se até mulher nua.”
Por aqui, digo eu, se aplaude tudo.
Especialmente quando existe certa dificuldade em se criticar o trabalho dos
amigos e conhecidos.
Foi o que pensei ao término da exibição de “Sangue de barro”, documentário
dos diretores Mary Land Brito e Fábio DeSilva.
O público que superlotou uma das salas do Cinemark, Midway Mall, ovacionou o
filme – que fique bem claro.
Eu não.
Em primeiro lugar porque como documentário deixa muito a desejar, apesar do
tema – por que não dizer? – atraente: a história do homem que, literalmente
da noite pro dia, assassina 14 pessoas, aparentemente sem grandes
motivações, é caçado por milhares de policiais e termina morto ou
“suicidado”, tinha tudo para render um bom documentário.
Mas, “Sangue de barro” resultou num produto confuso que a muito custo e só
ao final consegue contar a história que se pretendeu contar, mesmo assim sem
esclarecer muita coisa.
Os diretores parecem querer provar que Genildo Ferreira de França não era o
monstro que a mídia descreveu no calor da hora e da cobertura. Conseguem
apenas mostrar que o cara era realmente – e aparentemente – normal antes do
dia dos crimes. Mas não explicam nem tentam explicar (nenhum psicólogo ou
psiquiatra é entrevistado) por que cometeu a barbárie. Como também não
lançam novas luzes sobre o aparente e banal motivo até agora apresentado
para o dia de fúria de Genildo – circulava um boato que era homossexual.
É possível que um sujeito normal possa matar 14 pessoas apenas porque sua
masculinidade foi posta em dúvida? E, se fosse, não era o caso de tentar
explicar melhor o preconceito?
Vez ou outra o filme também parece acusar a mídia pela exploração do caso,
mas os melhores momentos do documentário são justamente as gravações, ao
vivo, da caça ao criminoso, independente da abordagem sensacionalista.
No final, só temos que dar razão a um dos repórteres entrevistados, que
lembra que em qualquer lugar do mundo um caso desses, alguém que mata uma
dezena de pessoas numa pequena cidade, merecia uma grande e vasta cobertura
– se foi equivocada é porque os formatos dos programas estilo “Aqui Agora”
assim quase exigiam.
“Sangue de barro” perdeu a oportunidade de desfazer o que a mídia fez na
época, e terminou, tão somente, sem querer, eternizando o ritmo envolvente e
o tom preconceituoso do telejornalismo policial – justamente os pilares de
sua grande aceitação popular.
*
DOC
Depois da avant-premiére (terça, Midway), “Sangue de bairro” entra em cena,
hoje, em duas sessões, 19h e 20h30, no Teatro Municipal de São Gonçalo do
Amarante.

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