Entre Nós
DANÇA/TEATRO
 

Direção: Diana Fontes
Texto: Cláudia Magalhães
Data: 17 e18 de outubro na Casa da Ribeira - 20h
Aproveito para enviar mais um conto do espetáculo. Para ler mais, é só acessar: 
www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Boa leitura!
 

A Noiva

 
Cláudia Magalhães



      Saltou da cama, temendo chegar atrasada. Era o dia do seu casamento! Ah, 
esse dia jamais será esquecido! A felicidade, assim como a tristeza, tem cheiro 
de fruta doce, pensou inspirando o suave odor do ar. Correu até o velho baú e 
retirou, com cuidado, seu velho vestido de noiva. Vestiu-se com dificuldade. O 
seu corpo agitava-se num vai e vem frenético. Estava, sempre, num balanço, 
tentando entrar em harmonia com o tempo. E nesse balanço, atingia vôos cada vez 
mais distantes. A porta do quarto foi aberta por um rapaz de rosto duro e frio, 
como todos naquele lugar. Não se importaria com ele, estava feliz demais para 
isso. Poderia, finalmente, reencontrar seu grande amor!
      Em busca do seu coração, seguiu em direção ao pátio. Por que quanto mais 
queremos chegar a um determinado lugar, mais ele se torna longe?, pensou ao 
atravessar o longo e frio corredor. As pessoas, que por lá circulavam, não 
notaram sua chegada. Nenhuma alma. Nem grande, nem pequena. De nada adiantava 
expirar, com seu deslumbrante vestido branco, tanta felicidade. As pessoas não 
gostam do sucesso alheio. A felicidade, sempre, incomoda, pensou sentindo toda 
sua alegria pesar o ar.
      Correu em direção ao que chamava de “pequeno jardim”. Nesse lugar, todos 
os dias, na mesma hora, o esperava sentada num banco, branco, de ferro, que 
ficava sob uma enorme mangueira. A vida é uma enorme repetição, pensou 
observando uma manga rosa, tão doce quanto seu coração, pendurada na frondosa 
árvore. Era a fruta mais bela que já vira. Precisava pegá-la, ela seria seu 
buquê e quando terminasse a cerimônia, a ofertaria ao homem amado. Ela 
representaria seu amor! Teria presente mais doce? Não, definitivamente, não! 
Ah, como o amava! Esse amor tomou conta do seu corpo e tornou-se seu universo. 
Não entendia o real motivo de ter sido abandonada por ele naquele lugar frio e 
autoritário, dependendo da bondade, indiferente, daquelas pessoas que 
entendiam, somente, de bulas de remédio. É certo que estivera completamente no 
escuro por algum tempo e que andara com as mãos no lugar dos pés, mas, agora, 
estava “recuperada”. Lutaria pelo homem amado. Subiria na árvore, mesmo que se 
machucasse. Seus arranhões seriam como uma carta de amor. Era necessário 
mutilar-se com algumas farpas para provar a grandeza do seu sentimento. Toda 
carta de amor deveria ser escrita na carne, com sangue, dessa forma, todas as 
promessas de amor virariam cicatrizes, acompanhariam todos nossos passos e 
jamais seriam esquecidas com o tempo, pensou ao subir na árvore. Alcançou a 
manga e colocou-a, com cuidado, no banco. Limpou o vestido. Arrumou os cabelos, 
jogando-os para o alto e, dando-lhes um nó, improvisou um rabo de cavalo. 
Estaria impecável quando ele chegasse. Depois de alguns segundos de silêncio, 
retomaria o fôlego e lhe daria um longo e caloroso beijo. Diria que o amava com 
loucura e sairiam, de mãos dadas, daquele inferno. Escreveriam uma linda 
história de amor no tempo e mostrariam as pessoas que o amor necessita de 
perdão. Pensou em como seria bom tê-lo de volta. Preparar com carinho suas 
comidinhas preferidas, fazer amor e adormecer em seus braços com a certeza da 
existência de coisas que nunca se acabam e que nos voltam mais fortes quando a 
esperamos com paciência e determinação. Limpou, novamente, o vestido. 
Desmanchou o rabo de cavalo e o refez com agilidade. Nunca estava bom o 
suficiente. O amor, também, é assim. Nunca é bom o suficiente. Por essa razão 
fora abandonada. Essa sua mania imbecil de querer tudo no seu devido lugar, de 
arrumar, incansavelmente, a louça, a casa, era uma prova do seu amor. Ao ter a 
certeza disso, ele a abandonou. Ele passou a odiá-la pelo simples fato dela o 
amar. Pegou a manga e observou-a com atenção. Nunca vira uma manga tão bela! 
Cheirou-a e, novamente, colocou-a sobre o banco. Tinha absoluta certeza de que, 
em algum momento, ela a faria sofrer. Todas as coisas boas nos fazem sofrer. 
Elas moram na esquina do amor com o ódio, concluiu com tristeza. Limpou o 
vestido, refez o rabo de cavalo, pegou a manga, cheirou-a e pensou com uma 
estranha surpresa: Nunca vi uma manga tão bela! Por duas horas, repetiu esse 
ritual, incansavelmente. Quando ele chegar, direi que o amo com loucura até a 
exaustão. Repetirei inúmeras vezes. A vida é uma grande repetição e usarei isso 
a meu favor, repetindo, somente, as coisas boas, concluiu com satisfação 
refazendo o penteado.
      Faltavam poucos minutos para o pôr-do-sol, quando escutou o som de passos 
firmes. Eram eles. Malditos! Sanguessugas do inferno!, pensou sentindo um medo 
quase insuportável. Nesse instante, o céu fechou as pernas arrastando nuvens 
pesadas e cinzentas, e escondeu o seu azul mais profundo. Tudo ficou plano, 
reto, uniforme. Não havia estrelas, nem firmamento. Sumiram as cores e do 
arco-íris, somente o nada. Estava tudo acabado. Fechou os olhos e deixou-se 
molhar pela água que derramava em seu peito. Sem o seu amor, tudo seria somente 
chuva. Uma chuva que traria seu passado em relâmpagos, queimaria suas 
lembranças, reduziria tudo a cinzas, fazendo seu futuro fugir pela boca feito 
fumaça. Cantou em silêncio, vendo-o morrer arrastado pelo tempo. Olhou a manga 
e constatou que, em breve, ela seria apenas uma fruta podre ou, então, seria 
devorada por algum estranho. Soltou um terrível grito de dor. Não! Não deixaria 
ninguém meter as mãos no que tinha de mais doce. Aquela fruta era seu amor. Se 
alguém tinha que provar sua doçura, esse alguém seria ela! Devorou a manga e 
sentiu sua felicidade escorrer pelos dedos. Os dois homens observaram com uma 
estúpida frieza, por alguns segundos, aquela mulher de rosto inquieto, dando as 
costas à razão em nome do amor. Não entendiam que não existe nenhuma arma 
contra ele, somente uma defesa: a loucura. Essa fuga dos perigos da vida. É 
nesse repouso dentro de nós, que ela nos desmonta e nos torna vítima e algoz.
      Deixou-se agarrar por eles. Não se moveu, nem falou nada. Tudo poderia 
ser usado contra ela. Atravessaram o longo e frio corredor. Deitaram-na na 
cama, deram-lhe alguns comprimidos e saíram. Nenhum sorriso, nenhum carinho. 
Não chorou, já estava acostumada com a frieza dos homens sem coração. 
Enfrentaria a insignificância dos momentos em que teria que viver como se nunca 
tivesse experimentado um grande amor. Não tinha escolha. Tomaria todos os 
remédios, faria todas as refeições, como um animal domesticado. No início, 
quando chegou naquele maldito lugar, tentou se rebelar, mas, tal qual um amor 
contrariado, todas as suas tentativas de se fazer ouvir foram usadas contra 
ela. Esperaria a próxima oportunidade e fugiria dali. As pessoas enlouqueceram. 
Elas não sabem mais amar, constatou com a loucura dos que amam demais.
      Ele não apareceu. Teria mais uma chance? Não sabia. Restava-lhe sonhar. 
Talvez, a forma mais humana, mais justa, de viver. Nos sonhos, encontraria o 
poder da loucura, do seu lirismo, indispensável para alcançar o amor. Somente 
os loucos amam. Em algum deles, o reencontraria num lugar chamado poesia. E, 
com uma flor na boca, ele lhe diria, somente, palavras de amor. Ela escutou o 
barulho de risadas debochadas, dos enfermeiros, vindas do corredor. O mundo 
ignorava sua tristeza. Adormeceu chorando baixinho, sentindo o gosto, agora, 
amargo, do que já lhe fora doce, extremamente doce.

                                          
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