ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
 
Dois artigos publicados nesta semana:
A importância da Teoria – revisitando Raúl Cariboni – 3
As Olimpíadas no país sem direito ao esporte
 
 As Olimpíadas no país sem direito ao esporte
07 de outubro de 2009, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha 

Na sexta-feira dia 02 de outubro, o país dos extremos viveu mais um contra 
senso. O governo de Lula, o mesmo que cortou em 85,69% o orçamento do 
Ministério do Esporte (ME) para 2009, comemora a realização de uma Olimpíada no 
Brasil. Entramos em júbilo quando o Rio de Janeiro foi eleito como cidade sede 
das Olimpíadas de 2016. O presidente fez-se acompanhar por um verdadeiro 
séquito de atletas, ex-atletas, dirigentes esportivos, personalidades, 
ministros e políticos no exercício do mandato. Autoridades choraram 
copiosamente e cantaram com desenvoltura. Tudo estaria perfeito, caso não 
faltasse o principal elemento. Na festa olímpica brasileira, faltou o direito 
ao esporte.
Logo após o anúncio acompanhei toda a mídia possível, com especial atenção aos 
críticos da realização dos Jogos. A preocupação majoritária, muito justa por 
sinal, era a de superfaturamento das obras no Rio, a julgar pela balbúrdia no 
Panamericano de 2007. Infelizmente, nenhuma palavra foi dita a respeito do 
Ministério do Esporte, seu orçamento ínfimo e da ausência do esporte olímpico 
como base da educação física brasileira. Trata-se de um problema de fundo 
estrutural e não vejo autoridade neste governo de turno ou nos anteriores com 
disposição para aí intervir. 

O Estado brasileiro faz tudo ao contrário. A educação para o desporto não 
deveria ser uma atividade vinculada somente à Secretaria Nacional de Esporte 
Educacional (SNEED), órgão da pasta comandada pelo ex-presidente da UNE, 
Orlando Silva Jr, mas sim como parte do orçamento do Ministério da Educação. 
Subordinadas ao ME, as práticas desportivas ficam restritas a ações de tipo 
terceiro setor e repartindo as migalhas de um orçamento que, segundo o 
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), em março deste ano 
foi reduzido de quase nada a nada, passando de R$ 1,37 bilhão para míseros R$ 
196,8 milhões. Dentro deste parco recurso está a SNEED com os programas Segundo 
Tempo (com extensão para o Recreio nas Férias) e Programas Esportivos Sociais 
(PES projetos especiais para criança e adolescente). Ambos têm como base 
parcerias de entidades privadas, sendo que o PES é essencialmente financiado 
pela isenção fiscal. Ou
 seja, se não há universalização, não há política pública. 

Estas atividades não deveriam passar pela via crucis de editais e entidades 
proponentes, mas sim existirem como disciplinas de contra turno da rede pública 
de ensino fundamental e médio. Se a prática de modalidades olímpicas é um 
direito, a juventude brasileira não poderia jamais ser vista como “público 
alvo” de projetos terceirizados. Ou a nação assegura esse direito através da 
motivação pelo empreendimento olímpico, ou não resolveremos este problema 
jamais. É a partir de agora ou nunca.
A importância da Teoria – revisitando Raúl Cariboni – 3
08 de outubro de 2009, por Bruno Lima Rocha 

Neste último artigo da série, concluímos a releitura crítica da obra coletiva 
coordenada pelo professor de história, militante sindical e libertário 
uruguaio, Raúl Cariboni. Relembro que a obra ganhou o correto nome de Huerta 
Grande (horta grande em português, cuja versão neste idioma se encontra aqui 
neste hiperlink) e condensa em menos de seis laudas datilografadas, um resumo 
conceitual na forma de manual de aplicação para os operadores da política não 
institucional.
A ênfase de seu trabalho está em precisar conceitos que diferenciem de forma 
categórica a ideologia da teoria, ou seja, do campo das aspirações, 
representações, idéias difusas, símbolos e identidades, do campo da articulação 
conceitual coerente, que é inspirada na ideologia, mas desenvolvida de modo 
científico e não somente com os engajamentos individuais e coletivos. Para 
dirimir a confusão e apontar de algumas diferenças entre teoria com ideologia é 
abordada na seqüência esta fração de texto. 

A análise profunda e rigorosa de uma situação concreta, em seus termos reais, 
rigorosos, objetivos, será assim uma análise teórica de caráter o mais 
científico possível. A expressão de motivações, a proposta de objetivos, de 
aspirações, de metas ideais, isso pertence ao campo da ideologia. A teoria 
torna precisa, circunstancializa as condicionantes da ação política: a 
ideologia motiva-a e a impulsiona, configurando-a em suas metas "ideais" e seu 
estilo. Entre teoria e ideologia existe uma vinculação estreita, já que as 
propostas destas se confundem e se apóiam nas conclusões da análise teórica. 
Uma ideologia será tanto mais eficaz como motor da ação política, quanto mais 
firmemente se apóie nas aquisições da teoria. 

Esta definição acima é uma necessidade que entendo ser atual. Isto porque a 
confusão entre teoria e ideologia é presente e permanente tanto no campo da 
prática política como na perspectiva do trabalhador intelectual com vocação 
científica e acadêmica. No rigor da proposta, Cariboni diferencia a dimensão 
ideológica, que eu denomino ideológica-doutrinária, e dialoga com a proposta 
onde modestamente tenho adesão, caracterizando a dimensão ontológica como sendo 
de natureza não-científica (portanto equivalente à dimensão ideológica). Já a 
teoria, pela interpretação que faço de Cariboni, equivale às dimensões 
intrínsecas e extrínsecas do esqueleto-teoria; e o seu produto tangível, quando 
aplicado na incidência, tem seu equivalente na prática política. 

A meta de desenvolvimento da teoria é equivalente ao grau de especificidade 
necessário para a mesma. Manter a capacidade totalizante sem frear os avanços é 
uma equação delicada e que cabe à Organização Política definir. Entendo que não 
há limites para o desenvolvimento intelectual, mas há limites para o trabalho 
teórico. A massa de dados, de informações brutas, que passem pelo ciclo de 
inteligência, será tão operacional quanto à capacidade de gerar um bem tangível 
com este ordenamento. Uma massa de dados brutos e bem analisados pode 
fundamentar um discurso acachapante. Este mesmo discurso será tão ou mais 
contundente à medida que as categorias centrais estejam definidas e postas em 
conflito com as categorias usadas pelo adversário. O parágrafo abaixo aborda de 
forma contundente as limitações do trabalho de uma frente teórica vinculada a 
uma organização política. Esta analogia pode ser feita também com o conhecimento
 produzido em nossas sociedades e que se localizam no campo das ciências 
humanas e sociais aplicadas. 

Fica dito com isso que o processo de conhecimento da realidade social, como o 
de toda realidade objeto de estudo, é suscetível de um aprofundamento teórico 
infinito. Assim como a física, a química e outras ciências podem aprofundar 
infinitamente o conhecimento das realidades que constituem seus respectivos 
objetos de estudo, a ciência social pode aprofundar indefinidamente o 
conhecimento da realidade social. Por isso é inadequado esperar um conhecimento 
"acabado" da realidade social para começar a atuar sobre ela tratando de 
transformá-la. Não menos inadequado é tentar transformá-la sem conhecê-la a 
fundo. 

Sendo o conhecimento “suscetível de um aprofundamento teórico infinito”, 
Cariboni afirma ser esta capacidade interminável, inesgotável. Portanto, o grau 
de medição da profundidade necessária para influir e incidir sobre e desde uma 
determinada sociedade tem de ser algo definido. O debate típico entre 
comparatistas e especialistas não cabe em uma frente teórica de uma Organização 
Política. Se por definição ideológica o modelo aqui advogado não entende como 
legítima a limitação do desenvolvimento intelectual, este mesmo modelo se pauta 
por uma operacionalidade. Assim como entendo ser a normatividade interessante 
para a ciência política, desde que a mesma paute e fomente a tangilibilidade 
dos conhecimentos, não cabendo neste propósito, portanto, a teoria normativa 
pura. Por vezes, o excesso de dados complexifica de tal forma a análise que 
torna a mesma inoperante. O mesmo vale para modelos abstratos e cujas variáveis 
são tão
 grandes que só podem se dar sobre uma linguagem de equação matemática e cuja 
modulação só é viável através de um programa de computação altamente 
desenvolvido. 

Tal como afirma Cariboni no parágrafo acima, a medida da profundidade deve ser 
determinada de acordo com o desenvolvimento teórico, a massa crítica e a 
capacitação dos analistas. O preciosismo das pequenas variações semânticas, 
marcados pela “guerra de posições” entre intelectuais especializados, em geral 
com carência de definição substantiva dos próprios conceitos – ou dos fenômenos 
conceituados e caracterizados – são tão inúteis para análise política como a 
simplificação absurda e o temor a complexidade societária que vivemos. Para o 
Jogo Real da Política, não cabem nem preciosismos alimentados na vaidade 
intelectual e menos ainda os esquemas importados de outras sociedades. A 
validade se dá na articulação coerente de um sistema de conceitos que gera um 
grau de certeza suficiente e que não se confunde com a cegueira teórica e a 
distorção simbólica - fruto da análise pobre e da pouca crítica interna. 

A crítica a esta confusão entre discurso ideológico e pobreza teórica é 
caracterizada por Cariboni. Impressiona a validade de seu discurso. 

Em uma realidade como a nossa, com a formação social de nosso país, o 
desenvolvimento teórico tem que partir, como em todas as partes, de um conjunto 
de conceitos teóricos eficazes, operando sobre uma massa o mais ampla possível 
de dados, que se constitua a matéria prima da prática teórica. Os dados por si 
só, tomados isoladamente, sem um tratamento conceitual adequado, não dão noção 
da realidade. Simplesmente adornam e dissimulam as ideologias a cujo serviço se 
funcionalizam aqueles dados. Os conceitos abstratos, em si mesmos, sem se 
encaixar em uma base informativa adequada, não aportam tampouco ao conhecimento 
das realidades. O trabalho no campo teórico que se desenvolve em nosso país, 
flutua habitualmente entre ambos extremos errôneos. 

No trecho acima, Cariboni traça a diferença entre conceito operacional e 
conceito abstrato. Como já dissemos antes, a abstração faz parte das 
idéias-guia, dos conceitos doutrinários, não cabendo a função de conceitos 
essencialmente abstratos para a prática teórica aqui apresentada. O tema da 
“dissimulação da ideologia” a vejo não como a caracterização da ideologia como 
falsidade, mas sim com o mascaramento das opções doutrinárias como sendo de 
“ordem técnica”. Por estar em contra esta postura, posição esta que faço 
acordo, o autor uruguaio faz a crítica simultânea tanto do empirismo como da 
teoria normativa pura. 

No caso da empiria pura e bruta, afirma que quando a massa de dados não tem 
ordenamento lógico e nem atende a uma dimensão ideológica previamente definida, 
a mesma está ordenada por um discurso síntese fruto de uma ideologia que não se 
apresenta de forma explícita. Esta dissimulação a faz naturalizar-se, sacando 
assim a capacidade de criticá-la tendo como exemplo e raciocínio justamente a 
ordenação de dados na forma de um discurso coerente. Já a crítica dos conceitos 
abstratos, se os mesmos não aportam ao conhecimento da realidade, estes são 
falsificadores da percepção do real. Afastando a teorização sobre a sociedade 
da dimensão societária para e desde onde se quer produzir teoria, este corpo 
conceitual também se confunde com a dimensão ontológica (ideológica), quando 
muito aporta algo de doutrina, mas não de incidência e muito menos de predição 
e antecipação de cenários. 

Concluindo 

Apresentei neste sub-tópico os recortes e fragmentos do texto original de 
Cariboni (2006), e julguei por bem não comentá-lo todo, apenas as partes mais 
relevantes para estes três artigos que se articulam entre si. Infelizmente, as 
linhas e palavras acima, longe de serem de uso comum dos operadores de prática 
política e dos trabalhadores intelectuais das variações e sub-campos da análise 
política, estão sendo abandonadas e perdidas ao léu da ignorância e da falta de 
base de raciocínio analítico. 

Digo isso não com júbilo ou com pretensões de arrogância intelectual, mas como 
uma triste constatação de abandono da teoria como interpretação de um modo onde 
se deve incidir para transformar. Dessa forma, a própria teoria se assemelha a 
fantasia de meta linguagens auto-referenciadas, onde se dialoga quase sempre 
apenas entre supostos “sábios” contaminados por seus próprios egos 
auto-inflados. Como já afirmei em outras ocasiões, a crise de uma esquerda sem 
rumo deve ser superada pela determinação da certeza ideológica e do ajuste da 
ferramenta teórica. Neste sentido, o aporte coletivo do qual Cariboni foi 
coordenador eleito é uma grande contribuição para as mulheres e homens que 
voluntariamente se posicionam dessa forma perante as sociedades concretas da 
América Latina. 
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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.
 
Expediente
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