ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Brasil: as olimpíadas no picadeiro
11 de outubro de 2009, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha 

Na sexta-feira dia 02 de outubro, o país dos extremos viveu mais um contra 
senso. Diante de um mundo atônito, a capital da Dinamarca fora palco do reinado 
brasileiro na diplomacia de tipo corações e mentes globalizadas. Detalhe, lá os 
chefes de Estado não estavam a passear em Cristiânia, terra encantada erguida 
por hippies e derivados em homenagem ao escritor Hans Christian Andersen 
(1805-1875). Era para valer mesmo. A ex-colônia de Portugal derrotara na 
disputa para cidade-sede das Olimpíadas de 2016 a Espanha com a capital 
castelhana de Madrid, ao Japão e sua imperial Tóquio e até a cidade de Chicago, 
berço adotivo do presidente do Império. Ainda assim, o Rio de Janeiro dos mais 
de 2 milhões de favelados vivendo sob a disputa do Estado, do Estado paralelo 
sob a alcunha de milícia (para desgraça da esquerda que cunhara esse conceito 
contra o militarismo) do semi-Estado das redes de quadrilhas que a mídia de 
sempre insiste em chamar de
 crime “organizado”. Pois é, a antiga capital do Reino Unido de Brasil, 
Portugal e Algarve quem vai sediar a festa dos deuses do Olimpo recriada para o 
mundo industrial do século XIX. 
Recados midiáticos das mega-construtoras 

Logo nas horas posteriores à vitória no Comitê Olímpico Internacional (COI), a 
mesma mídia de sempre começara, através de seus telejornais semelhantes, a 
bater na tecla da flexibilização de leis e proteções do meio ambiente. É óbvio. 
Se a realização dos Jogos implica em celeridade, por tanto, “a lei, ora a lei”. 
Diante da barbárie orçamentária de lesa humanidade dos Jogos Panamericanos na 
mesma cidade, estamos diante de uma situação onde tudo pode vir a ocorrer. O 
orçamento do Pan já foi algo de absurdo, quando estourou todos os limites de 
previsibilidade elevando gastos acima do que fora previsto. Porque será que nas 
Olimpíadas será distinto? Por passe de mágica? Sob comentários de especialistas 
em economia que fingem nada saber do país de Celso Furtado, chamam a atenção do 
“custo Brasil” e dos entraves da legislação dos “eco chatos”. Se um leitor mais 
atento supuser de que se trata de um conjunto de chavões
 assimiláveis, acerta no alvo. Quem imagina que os conceitos na forma de tele 
mensagem facilmente reproduzível, também acerta! Assim, através do absurdo de 
propor a ilegalidade em prol da acumulação de capital particular financiado de 
forma escancarada pelo Estado, recebemos a primeira mensagem dos agentes 
econômico-midiáticos e das cabras balindo a reprodução ideológica do sistema de 
dominação. “Ô abre alas porque as incorporadas e empreiteiras querem passar a 
patrola!” E querem mesmo. 

E a “ordem urbana” do Rio, como será garantida? 

No esforço do Pan, o governador tucano convertido ao PMDB chaguista para se 
aproximar de Lula, Sérgio Cabral Filho (ex-senador pelo PSDB eleito em 2002, 
antes fora deputado estadual de plumagem tucana por três mandatos), aumentou a 
escalada da repressão social em nome da higiene da cidade. Na ocasião, entre 
fevereiro e junho de 2007 (um mês antes do Pan) as forças da “ordem” promoveram 
a morte de 1238 pessoas e 788 feridos. Na maioria dos casos, não houve sequer 
inquérito e menos ainda cobertura jornalística. Através de enunciado simples: 
“a polícia matou não sei quanto traficantes ontem no Morro tal...” e já está 
resolvido o problema de investigar os crimes de Estado. Agora, que o Brasil 
está por cima da carne seca dos bens simbólicos mundiais, o que virá por 
diante? 

O pior do Brasil transmitido para o mundo 

O governo de Lula, o mesmo que cortou em 85,69% o orçamento do Ministério do 
Esporte (ME) para 2009, comemora a realização de uma Olimpíada no Brasil. 
Entramos em júbilo quando o Rio de Janeiro foi eleito como cidade sede das 
Olimpíadas de 2016. O presidente fez-se acompanhar por um verdadeiro séquito de 
atletas, ex-atletas, dirigentes esportivos, personalidades, ministros e 
políticos no exercício do mandato. Como já disse acima, era o pior do Brasil 
reunido. Políticos de duvidosa trajetória disputavam pixel a pixel a pose de 
papagaio de pirata do ex-metalúrgico quem encarna o sonho americano. A euforia 
emplacou sob a batuta de Lula e Carlos Arthur Nuzman, com a áurea de Pelé 
vestido como Édson Arantes (o mesmo da verba da UNESCO que sumira); contando a 
legião de presentes com direito ao “bispo” e senador neopentecostal Marcelo 
Crivella (PRB do RJ), do ex-homem de confiança de Orestes Quércia, o presidente 
da Câmara Michel Temer
 (PMDB-SP) e do Udenista travestido (um migrante de legendas assim como seu 
ex-mentor César Maia) chamado Eduardo Paes (agora no PMDB chaguista), prefeito 
do Rio. Para apimentar o baile, levaram a Mr. Meirelles, o encarregado do 
sistema financeiro para pregar a ordem a partir do Governo do Copom que o tem 
como Executivo-Chefe do Brasil S.A. Este declarara como fonte fidedigna às 
estimativas do Banco Mundial (sim, este mesmo) prevendo o Brasil projetado como 
a 5ª economia do mundo em 10 anos. Com tamanha equipe, a trupe se sentia em 
casa. A glória atingiu a todas e todos. Autoridades choraram copiosamente e 
cantaram com desenvoltura. A empolgação de muitos é a acumulação de poder e 
recursos de alguns. 

Apontando conclusões iniciais 

O país não tem esporte de base e nem acesso como política pública ao esporte 
educacional. É obvio que se o COI fosse sério como movimento olímpico deveria 
exigir medidas de universalização do esporte na infância e na juventude. Além 
deste problema estrutural, a realização das Olimpíadas no Rio vai implicar uma 
tentativa de re ordenamento urbano (para as áreas mais carentes em rota de 
colisão com os Jogos) e ao mesmo tempo uma investida já iniciada de desordenar 
todo o possível para atender a especulação imobiliária. 

Já como projeção política, vê-se o lobby das empreiteiras e de especuladores já 
jogando pesado, tendo como interlocutor a quase totalidade da mídia corporativa 
de circulação nacional. Daí virão “futuras sobras de campanha” regadas a balde 
cheio. Não podemos nos esquecer que 2016 é ano eleitoral, implicando na 
sucessão da sucessora ou opositor de Lula. Que me desculpem os artistas de 
circo pela comparação injusta, mas o picadeiro está montado sob uma lona de ver 
estrelas pelos seus buracos. 
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