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A Primeira Mulher de Deus 
Cláudia Magalhães





      Nas primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira, depois de desejar 
fortemente fugir daquele maldito lugar, a primeira mulher de Deus sentiu nascer 
do centro das suas costas, um enorme par de asas negras. Descobriu, então, que 
a liberdade nasce no centro escuro de todas as coisas, onde moram os desejos 
mais secretos, nas tocas, nos cárceres, nos lugares fechados, onde a saída não 
é visível ao olhar humano.
      Amava Deus com todas as suas forças. Ele, na sua infinita bondade, 
dera-lhe a vida, e sentia-lhe uma enorme gratidão por isso. Ensinara-lhe tudo. 
Falou-lhe da existência do diabo, seu maior inimigo, e do seu enorme poder de 
sedução. Disse-lhe que ele habitava nas terras além do abismo e, que deixar-se 
seduzir por ele, só lhe traria grande dor, grande tormento. Inexplicavelmente, 
a partir desse momento, desejou fortemente conhecê-lo. Condenada a viver 
isolada naquele lugar chamado Paraíso, pensava, dia e noite, numa maneira de 
atravessar o abismo e fugir da solidão.
      Certa noite, deixou-se cair sobre a terra úmida e ficou contemplando o 
céu vestido de estrelas. Leve-me com você!, Pensou ao observar uma delas cair. 
Nesse momento, sentiu o seu corpo elevar-se do chão. Um enorme par de asas 
negras, úmidas de sangue, nascia em suas costas. Sem raciocinar sobre o 
ocorrido, sentiu-se carregada para o invisível e, com o coração em febre, alçou 
vôo pela noite fria, deixando para trás uma chuva rala de sangue. Era a 
liberdade que se levantava ao vento, que se movia no compasso do seu ventre. 
Agora, sou eu quem me persigo, pensou, sonhando com um mundo novo, cheio de 
novas possibilidades. Perdeu-se no deserto. Exausta e com olhar cheio de 
espanto, viu uma nuvem de poeira tomar a forma de um belo homem. Era ele, o 
diabo. Ele a olhava de uma maneira que lhe fez gelar os ossos. Estou perdida, 
pensou desejando fugir dali. Tenho sede, ele falou docemente. Ofereço-te as 
minhas águas, não para matar a tua sede, mas para roubar a tua calmaria. E, por 
livre escolha, prendo-me em tuas pernas de fogo, rodeada de respostas. Esta 
noite, te amarei... Na tua sombra, esconderei os meus medos, aliviarei o meu 
pranto. Quando a luz nascer, gritarei ao mundo que ressuscitei no gosto das 
maçãs, respondeu, tentando fugir da solidão. Uniram os seus destinos. Sob o céu 
aberto, com gosto de vinho, as suas línguas, demoniacamente puras, uniram-se, 
acendendo fogueiras, penetrando mundos invisíveis, anulando o bem e o mal. Em 
busca do amor, ela ofereceu-lhe o que tinha de mais sagrado, a sua cruz: a sua 
boca, o seu sexo e os seus seios. E, nessa cruz, morreu por amor...
      Depois de algumas horas, ela acordou. Procurou o seu amor e não o 
encontrou. As horas de loucuras impensadas deixavam, agora, uma enorme 
tristeza, um grande vazio no seu coração. Precisava fazer o céu voltar e com 
ele o seu amor. Procuro aquele que perdi, mas aquele que perdi não me procura, 
pensou sem desistir da sua busca. Passaram-se meses. Grávida, prestes a dar a 
luz, ela ainda o procurava. Arrancou-me o coração, os olhos, o sexo! Ávido de 
sangue, possuiu as minhas carnes e todas as noites, me persegue. Em fuga, o 
experimentei, e ele nunca mais sairá de mim, porque ferida de amor eu estou!, 
Pensou mergulhando na loucura.
      Nesse imenso vazio, ela trouxe ao mundo o seu filho, o fruto do seu 
pecado. Em seguida, sentiu-se arrastar, por forças desconhecidas, invisíveis, 
até uma grande cruz . Nela, com o corpo em chamas, gritou em desespero: Deus, 
por que faz isso comigo? O amor e o pecado habitam em mim. É esse o meu 
castigo? O primeiro não me trouxe nada de bom. O segundo, intitulado Satanás, 
nada mais é que o meu instinto de viver. Por que me criastes imperfeita e com 
sabedoria? Porque me criastes das fezes, do excremento ao invés do pó puro? Não 
me livrei da luz, foi ela quem fugiu de mim... Sou feroz no amor como também no 
ódio. Quando entro numa rixa, não admito insultos. Maldita armadilha! Mesmo 
que, em minhas sucessivas vidas, queimem a minha anca viva, seguirei em busca 
do amor... Não tenho saída... Sabes que toda a alma almeja a companhia de outra 
que lhe complete... Maldito! Trouxestes o amor para o meu espírito feminino e, 
a partir desse momento, não haverá paz, nem para mim, nem para os homens!...
      Nesse momento, o Diabo, observando-a ser consumida pelas chamas, flutuava 
sobre as águas, refletindo, nelas, a sua outra face, a sua porção divina, a sua 
imagem de Deus, que satisfeito com a sua criação, sorria, tremendo de 
felicidade.
                                          
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