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A Queda dos anjos
Cláudia Magalhães
Morrerei, pontualmente, às dezoito horas. Hora da queda dos anjos
quebrando suas máscaras, fazendo uivarem os lobos da terra. A minha alma
branca, mistura das cores e manchas do meu passado, partirá vendo o Sol, com
seu hálito quente, levantar a saia da Lua e entregar-lhe os desejos da saliva
do dia, fazendo-a parir estrelas.
Não! Não faço uso do deboche, nem perdi o juízo, aceito minha loucura e
por isso considero-me são. Vivo de saudade e de milagres e afirmo que,
pontualmente, às dezoito horas, soltarei a vida e descobrirei caminhos ocultos.
Na companhia de uma bebida qualquer, papel e caneta, escreverei a última
palavra do meu último verso, e nesse instante, Ela chegará com o seu amor
hipnótico, me beijará apaixonadamente até que eu perca os sentidos. O meu corpo
em riso libertará minha alma com tamanho desprendimento que faria chorar a mais
terrível das criaturas. Em seguida, a seguirei devagar, sem nenhum alarde, pois
assim fazem os que sabem morrer.
Ah, Morte amiga! Amiga eterna! Razão da nossa infância, mocidade e
velhice. Testemunha única e silenciosa de todos os nossos atos, sem perdão ou
punição. O que eu era antes da tua existência? Loucura minha... Tudo nasce e
morre, menos você, única certeza, presente ou ausente. Desde que você levou o
meu amor, há seis meses, aguardo a sua chegada feito um morto-vivo. Quantas
milhares de alegrias eu tinha e em todas ela estava presente! Vem, afasta-me
dos cansaços da vida e deixa-me beijar aquela que amo e que, agora, veste-se de
asas e desejos que fogem da terra. Leva-me docemente ao seu encontro, deixa-me
dançar em seus braços e, juntos, amar a tua simplicidade sobre uma estrela
qualquer. Faremos amor sem os limites da carne, somente o comando das nossas
vontades em febre sob o teu perfume de flores. Se bater em nossos corações
alguma tristeza, não há de ser nada, é a dor da ausência indo embora. Deixa-nos
chorar por alguns instantes, vista-nos de sonhos e depois por ser você a
solidão, essa enorme vontade de ir, nos esqueça. Seremos, então, inspiração
para os poetas, bêbados e loucos, únicos que sabem amar com dignidade. Ah,
espera! Doce e amarga espera! Adeus!
Ele abandona a caneta sobre o papel, transpira muito. Com o coração
explodindo na garganta observa, finalmente, o relógio da parede marcar,
pontualmente, dezoito horas. A ansiedade em sua alma é tão grande que lhe causa
dor física. Abre a gaveta do velho birô de madeira e, segundos depois, ouve-se
o barulho do tiro.
O fim tão desejado não veio de lugar algum. A queda violenta fez nuvens
pesadas e cinzentas esconderem as estrelas, trazendo a chuva que, nesse
momento, para muitos, não é bem-vinda. Estava derrotado por completo. Nenhum
canto de amor, nenhuma posse ou território marcado, somente uma eterna agonia
solta pelo espaço e que, a todo instante, pousa na terra que apaga as pegadas e
guarda a verdade da carne, o pó, e a verdade dos homens, o tudo e o nada,
provando que mesmo sem a sua existência ela continua a girar.
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