Sites de busca emburrecem os estudantes?
Muitos estudantes parecem não ter habilidade para estruturar suas buscas
Edward Tenner é autor de 'Our Own Devices: How Technology Remakes Humanity'.
Artigo publicado no "Estado de SP", 2/4/2006:
Conversas sobre declínio eram coisa antiga na academia já em 1898, quando
tradicionalistas fustigavam Harvard por ter eliminado a exigência do idioma
grego para o ingresso na universidade.
Mas hoje há um viés novo: os sites de busca estarão emburrecendo os
estudantes?
Em dezembro, o Centro Nacional para Estatísticas da Educação, dos EUA,
publicou um relatório sobre a capacidade de ler e escrever. Revelou que a
proporção de universitários capazes de interpretar textos complexos havia
caído de 40% para 31% desde 1992.
Como diz Mark S. Schneider, comissário de estatísticas da educação do
centro, "o inquietante é que a avaliação não pretendia testar a compreensão
de Proust, mas a habilidade de ler rótulos". Uma pesquisa britânica teve
resultados semelhantes.
A grande mudança foi a internet. A partir do início da década de 1990,
escolas, bibliotecas e governos adotaram a internet como o portal para o
acesso universal à informação.
E no âmago de suas esperanças estavam mecanismos de busca, como o Google e
seus rivais, Yahoo e MSN. Os novos sites não só encontram mais, eles
geralmente apresentam informação utilizável na primeira tela.
O Google modestamente declara que sua missão é "organizar a informação do
mundo e torná-la universalmente acessível e útil". Mas a conveniência pode
ser problema.
Nos primórdios da internet, o mecanismo de busca mais sério era o Alta
Vista. Para usá-lo bem, o pesquisador precisava aprender a construir um
enunciado como "Engelbert Humperdinck e não Las Vegas" - para o compositor
de ópera, não o cantor contemporâneo.
Agora, graças a uma programação brilhante, uma simples consulta produz uma
primeira página pelo menos adequada.
A eficiência decorre de sua capacidade de analisar conexões entre sites. O
Google classifica páginas pela freqüência com que são conectados a outros
sites altamente classificados. Conseguiu isso usando uma variação de um
conceito familiar em ciência natural, a análise de citações.
Em vez de procurar quais estudos são mais citados nas publicações
influentes, ele afere com que freqüência as páginas são conectadas a sites
altamente classificados - classificados por conexões com eles mesmos.
A análise de citações tem sido atacada em círculos bibliotecários por inflar
as classificações (e indiretamente os preços) de algumas publicações.
Os mecanismos de busca têm o problema oposto: a dispersão em vez da
concentração de interesse. Apesar do ajuste fino, suas fórmulas exibem sites
medíocres no mesmo pé que os especializados.
Curioso sobre o campo acadêmico de história do mundo? Consulte "história do
mundo" no Google.
Quando tentei, o único artigo sobre o movimento de história do mundo, da
Wikipedia, só aparece na quinta tela e era breve e concêntrico. Só na sétima
tela descobri o site World History Network, nada bom para iniciantes.
Muitos estudantes parecem não ter habilidade para estruturar suas buscas.
Em 2002, pediram a estudantes de graduação da Universidade de Tel-Aviv que
encontrassem na internet, sem limite de tempo, uma imagem da Monalisa, o
texto completo de Robinson Crusoe ou David Copperfield e uma receita de
torta de maçã com fotografia. Só 15% executaram as três tarefas.
Hoje, o Google acelerou essas tarefas, mas o problema persiste.
Bibliotecária da Associação Histórica Americana, Pamela Martin observou que
"a simplicidade e a impressionante proeza de busca do Google engana os
estudantes, fazendo-os crer que são bons pesquisadores em geral".
A educação superior está contra-atacando. Bibliotecários estão ensinando
"capacitação para obter informação".
Alunos de pós estão começando a discutir a adesão à Wikipedia em vez de
combatê-la, como muitos ainda fazem quixotescamente.
Uma melhor informação numa sala de aula poderá produzir a sociedade que a
internet um dia prometeu? Há duas maneiras de avançar.
Mais proprietários de conteúdo gratuito de qualidade deveriam aprender as
manhas para incrementar seus sites de forma a melhorar sua classificação nos
mecanismos de busca.
E o Google pode fazer mais para educar os usuários sobre o poder - e
freqüente conveniência - de suas opções de busca avançada.
Seria uma vergonha se uma tecnologia brilhante acabasse ameaçando o
intelecto que a produziu.
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