Fonte:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=381AZL004

DIREITO À LEITURA
Livro acessível antecipa indústria do futuro

Por Gisele Pecchio Dias em 16/5/2006

Este artigo compõe eixo temático do caderno de textos
da 1ª Conferência Nacional dos direitos da pessoa com
deficiência.  

O livro acompanha a evolução da humanidade desde o
alvorecer da história. Há quatro séculos inspirou a
produção industrial em série, antecipando-se à
indústria moderna. No limiar do século 21, novamente o
livro se adianta à história da indústria do futuro
para universalizar o acesso à informação e ao
conhecimento nele encerrados. 

Milhões de brasileiros estão excluídos do direito
legítimo à informação, sem a qual não se dá o
conhecimento e não se educa um povo para ser livre e
empreendedor. Também não há sociedade democrática sem
o livre acesso à informação, que não deve ser
prerrogativa da minoria. Da mesma forma, não deve ter
a minoria o poder decisório sobre o que milhões irão
ler, ouvir, assistir e consumir. 

Como pode o livro custar mais caro para o leitor
brasileiro do que custa para o leitor norte-americano?
Como explicar o preço tão alto no Brasil com todos os
incentivos fiscais concedidos pelo governo? Como
explicar a falta de acesso ao livro na Idade da
Multimídia? Como não oferecer o formato acessível por
supostos problemas com direito autoral? Os
profissionais da informática já deram soluções para
derrubar esse preconceito. Da parte dos autores, tudo
o que desejamos é ver as nossas obras nas mãos dos
leitores, seja em que formato for. Pirataria? Não há
softwares mais violados no mundo do que os produzidos
pela empresa de Bill Gates. Isso não impediu que ele
fosse o homem mais rico do planeta.

A multimídia tem potencial para ser a mais poderosa
das formas de comunicação de idéias que qualquer outro
meio inventado porque é a junção de todos eles e ainda
adiciona a interatividade com o usuário (no caso do
livro, o leitor). Ainda é um recurso de alto custo,
desafio que pode ser derrubado. Afinal, não foi
olhando para os custos que o ser humano desafiou e
venceu a gravidade na conquista do espaço. 

A questão do livre acesso ao conhecimento, à
informação e à educação por meio desta tradicional
mídia, o livro, não se concentra apenas no aspecto
relacionado ao preço. A população reclama igualdade de
oportunidade no acesso ao livro. Encontrar o livro na
livraria e não poder comprá-lo porque é caro é tão
ruim como ter o dinheiro para comprar e não
encontrá-lo em formato acessível. Há que se encontrar
um padrão que atenda às necessidades dos leitores
cegos ou com baixa visão e que haja entendimento sobre
a necessidade de se banir a vergonhosa dívida social
da exclusão ao livre acesso à leitura.

Direito legítimo

A população reclama por mais espaços públicos de
acesso ao livro, por acervos mais completos e
atualizados e por um formato de livre acessibilidade à
leitura. Esse clamor pela inclusão encontra
ressonância entre os escritores que não encontram
espaços nem iniciativas por parte dos gestores que
facilitem o encontro entre autores livres e o público.
As bibliotecas, seus acervos, seus recursos de
multimídia (quando existem computadores e recursos de
interatividade) e horários de funcionamento ainda são
insuficientes para atender aos seus habituais
freqüentadores e para atender a um aumento na demanda.


Faltam bibliotecas nas microrregiões, onde se
concentram os pobres excluídos do consumo. O livro e
os autores que assim o desejarem precisam estar onde o
povo está. E o governo precisa ser o facilitador desse
encontro, patrocinando os meios necessários para que
ele se dê em igualdade de oportunidade para aqueles
que não podem pagar pelo livro, qualquer que seja o
formato que ficar acordado entre as partes.

Eram cegos muitos dos sábios e pensadores da
antiguidade e são cegos muitos dos sábios e pensadores
da atualidade, nas mais diversas áreas do conhecimento
e das manifestações artístico-culturais. São os cegos,
os cegos-surdos e as pessoas com baixa-visão a razão
maior para nos anteciparmos ao futuro, pagando a
enorme dívida social contraída com os brasileiros
privados do direito legítimo de ler por falta de
acesso em todo o território nacional. Parte deles
representada na 1ª Conferência Nacional dos Direitos
da Pessoa com Deficiência (Brasília, 12 a 15/5/06),
sob o tema "Acessibilidade: você também tem
compromisso".

Nova mentalidade

Muito antes da criação do alfabeto o ser humano
recorria a primitivas formas de registros para se
comunicar. O livro já foi produzido com os elementos
mineral, vegetal e animal; fez perpetuar o "verbo" em
papiro, pergaminho, papel, gravura, manuscrito e
iluminura. Nos mais variados modos registrou o
pensamento e a evolução humana. De geração para
geração, desde os rolos de papiro do antigo Egito e
das telas de seda da China, o livro eternizou
civilizações nas mais diversas formas para atender à
necessidade de comunicação e expressão. E sempre houve
quem cuidasse de sua perpetuação como o mais
importante ativo da riqueza acumulada pela humanidade
nas suas lutas através dos tempos. São os anônimos
bibliotecários, desde os tempos de Alexandria, que
zelam pelo conteúdo encerrado nos livros. 

Em tempo algum a vida foi fácil para o leitor de
livros e jamais deverá ser porque em cada fase da
nossa evolução aparecerão desafios. Assim será numa
perspectiva evolucionista. Ao leitor do futuro todas
essas discussões serão superadas, da mesma forma como
nossos antepassados superaram a censura ao livro feita
pela Coroa Portuguesa, no início da colonização. De
igual maneira como a nossa geração enfrenta com
disposição tantas formas de censura e arbítrio que se
interpõem no caminho do entendimento e da conquista de
uma nova consciência que nos permita cumprir a
principal missão na Terra que nos foi dada habitar: a
união pacífica entre todos povos e o seu progresso
material e espiritual. 

Nesse sentido, o livro, mais uma vez, e os seus
leitores excluídos são os protagonistas de uma nova
mentalidade que culminará na indústria com o
desenvolvimento de uma série de produtos de leitura
acessível. O futuro começa aqui. Soyuz, que em russo
quer dizer "união". 



                
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