Vã rebeldia

Freqüentadores de biblioteca pública costumam depredar obras sem pensar no 
coletivo

Na penumbra dos corredores ou na efervescência das mesas de estudo da 
Biblioteca Púbica Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, os vândalos da 
literatura agem sem dó nem piedade. Armados até os dentes, munidos de suas 
canetas multicoloridas, aterrorizam as indefesas páginas dos livros de 
consulta. Uns assassinam palavras, outros ferem frases e alguns exterminam 
histórias ou seqüestram as obras. Os mais audaciosos mutilam com voracidade as 
folhas de papel, interrompendo, muitas vezes, a história de amor da meiga 
princesinha ou as bravuras do herói em combate com dragões. A ação é rápida, 
como num piscar de olhos. Sem deixar rastros ou sequer uma pista, somem entre 
as prateleiras empoeiradas dos clássicos universais. Solitários e abandonados a 
única alternativa que resta aos livros pichados é padecer na incerteza, à 
espera de uma possível reforma ou restauração. "Isso prova que o homem é o 
maior inimigo dos livros. É uma ação terrível, essas pessoas quebram todo um 
processo de aprendizado. Cortam pela metade as informações", lamenta a 
bibliotecária Suze Elias.

Um típico exemplo é Jeferson. Jovem, moreno, estatura média, jaqueta invocada e 
um boné da moda que, na maioria das vezes, serve para esconder o rosto. Apesar 
do sorriso maroto cravado, as mãos agem rapidamente deixando marcas para os 
futuros leitores. "Tipo assim, não tem nada para fazer. Daí, a gente rabisca. O 
sinistro é deixar a nossa marca para ficar famoso", esclarece, com um lápis nas 
mãos prestes a pichar. Ali mesmo, no pequeno espaço branco das páginas, as 
palavras se unem na tentativa de expulsar o invasor, mas são todas em vão. 
Declarações de amor à namorada ou frases do tipo: "Vascão timão campeão" 
perturbam definitivamente o território do aprendizado. "Ficava na sala zoando, 
escrevia nas folhas o nome da galera ou das meninas. Pichava caretas e outras 
coisas. Tá ligado?", revela Marcos Vinícius, que se intitula um ex-pichador. 
"Hoje em dia não faço isso mais. Todo ser humano passa por essas fases de 
rebeldia".

Mensagens de cunho racista, nomes obscenos e desenhos eróticos são os mais 
encontrados entre o rol das atrocidades literárias. "É muito comum depararmos 
com bobagens, chifres e dentes desenhados em políticos, comentários maldosos e 
palavrões absurdos", conta João Henrique Cuelbas, bibliotecário responsável 
pela Biblioteca Municipal. Porém as depredações não restringem só às 
baderneiras pichações. Folhas arrancadas, páginas cortadas e rapto de livros 
são uma pulga atrás da orelha dos bibliotecários. "As pessoas recortam ou 
rasgam aquilo que estão pesquisando. Bem que poderiam copiar, mas preferem agir 
de má fé". Amontoadas desordenadamente, as fichas de livros retirados e não 
devolvidos ganham aos montes as gavetas enferrujadas dos arquivos da 
biblioteca. "De janeiro para cá, cerca de 190 títulos foram perdidos. As 
pessoas retiram e não entregam. É uma dó, até porque são livros muito 
procurados pelas pessoas".


Fonte: http://www.gazetadocambui.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1440971


-- 
Leonardo Melo

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"Não há limites para se fazer livros e o muito estudar é enfado da carne."
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