não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer.*

"O FILÓSOFO LUDWIG WITTGENSTEIN ENSINAVA que nossa comunicação não passa de um grande jogo de palavras. Não há relação direta entre palavras e coisas. Palavras são inventadas ar­bitrariamente. Seu sentido é fruto de uma convenção e tudo depende do uso que fazemos delas.

Estabelecem-se, pois, convenções, a partir de algo arbitrá rio. Há anos, numa aula de filosofia em Munique, Alemanha, escutei a seguinte história que faz pensar. Havia um pro­fessor que após a aposentadoria se entediava muito porque tudo lhe parecia chato e sem graça. A mesa era sempre mesa, as cadeiras, cadeiras, a cama, cama, o quadro, quadro. Por que não poderia ser diferente? Os brasileiros chamam a casa de casa, os franceses de maison, os alemães de haus e os ingleses de home. E resolveu dar outros nomes às coisas. porque tudo nessa área é mesmo arbitrário.

Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, o despertador de álbum de fotografias, o armário de jornal, o tapete de armário, o quadro de mesa e o álbum de fotografias de espelho.

O homem achava tudo aquilo muito engraçado. As coisas começaram de fato a mudar. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. E continuou a dar significações diferentes às palavras:,,,,,,,,,,

Ria muito quando ouvia as pessoas falarem: "Hoje vou assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo de futebol" ou "Como faz frio hoje". Ria porque não entendia mais nada. Mas o triste da história é que ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém.

Por esta razão decidiu não dizer mais nada. Retirou-se para casa, só falava consigo mesmo e se entendia. Perguntas: dá para viver juntos e nos comunicarmos sem criar convenções? Até que ponto podemos inventar sentidos a nosso bel prazer? "

* [Fonte: fragmentos do artigo de Leonardo Boff, no Jornal do Brasil de 09/06/2006, 1º caderno, seção Opinião da edição im´ressa.]

Nossa nota ou pergunta:

Até que ponto poderemos continuar, na área de ciência da informação, sem um arcabouço teórico convencionado.

O objeto de estudo da ciência da informação tem sido um constante construir de práticas relacionados com a criação , armazenamento e distribuição da informação. A explicação teórica para estas prática vem correndo atrás ( quando vem) mas sem um consenso ou entrosamento em um corpo já aceito.

Em cada pesquisa na área , incluindo os estudos de doutorado , vemos a articulação de uma base teorica privada para aquele caso específico; como uma condição provisória estas colocações teóricas não se a juntam a uma base conceitual conveniada.

Muitas destas explicações teóricas vão buscar em outras áreas, de modo livre e desordenado, os conceitos, instrumentos e métodos para refletir e ordenar a sua pesquisa. Tudo em nome de uma solitária interdisciplinaridade.
Uma bagunçada mistura sem coerência.

Já corremos o perigo, como na história acima, de ficarmos sem interlocutor ou de decidirmos não falar mais nada, ou o que é pior, as outras áreas, não entenderem mais nada do que falarmos.

Realmente não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer.
(AAB)








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            Prof. Dr. Aldo de Albuquerque Barreto,   Ph.D.
# Pesquisador Titular do Ministério da Ciência e Tecnologia (IBICT)
#   Professor do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação - Ibict-Uff
                        Rio de Janeiro






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