O Estado de São Paulo
Quarta-feira 27 de setembro 2006
Professores da PUC são acusados de fraudar currículos
Informações no Currículo Lattes não têm comprovação e foram alteradas
após sindicância
Simone Iwasso
Dois professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP) são acusados pela própria direção da instituição de terem
fraudado dados de seus currículos profissionais na Plataforma Lattes -
sistema que agrupa informações acadêmicas e de experiência de trabalho
de professores e pesquisadores do País, mantido pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os problemas incluem
falta de comprovação de graduação, de mestrado, de pós-doutorado, de
bolsas de estudo, de número de orientandos, de publicações em livros e
revistas e de horas contratuais prestadas à universidade.
O caso veio à tona a partir de uma denúncia recebida pela direção do
campus Marquês de Paranaguá (na região central de São Paulo), que abriga
os cursos das áreas de exatas e tecnologia. A direção da unidade
procurou as instituições de ensino onde os professores diziam ter
estudado, consultou as publicações citadas e redigiu, em um relatório,
todas as falhas encontradas. O documento foi entregue no início do mês à
reitoria e à Fundação São Paulo, mantenedora da universidade.
A reitora da PUC-SP, Maura Bicudo Véras, informou, por meio da
Assessoria de Imprensa, que abriu uma sindicância e nomeou três
professores para cuidarem do caso. Eles terão 30 dias para chegar a uma
definição, a partir dos documentos reunidos pela direção do campus
Marquês de Paranaguá. Neste tempo, os professores, cujos nomes não foram
divulgados, podem também apresentar provas que mostrem que não houve
erros nas informações apresentadas em seus currículos e encerrar o caso.
Segundo o relatório, um dos professores dizia ter três cursos de
graduação - apenas dois foram comprovados. Tinha também um pós-doutorado
no exterior, o que também não havia documentação para prová-lo. Essas
informações estavam no Currículo Lattes do professor até maio. No dia 9
deste mês, um dia antes da abertura da sindicância, ele retirou os dados
do documento. O relatório apresenta quatro versões diferentes do
currículo do professor, cada uma suprimindo partes presentes nas anteriores.
Isso pode acontecer porque o que está escrito na Plataforma Lattes é de
responsabilidade do professor. Ao inserir seus dados, ele concorda com
um termo no qual fica claro que todas as informações são verdadeiras e
de sua responsabilidade. Em caso de denúncias, uma comissão de
investigação checa o currículo, inclusive se a pessoa recebeu algum
benefício, como bolsa de pesquisa, por itens não comprovados.
'A plataforma é um grande avanço, melhorou e evitou muita burocracia. No
entanto, a idoneidade das pessoas é diferente, e sabemos que há fraudes.
Há uma estimativa de que de 10% a 20% dos currículos de lá tenham
problema. E todas as universidades e agências de fomento o usam como
referência', afirma Robson Mendes Matos, professor da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) e secretário da Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciência (SBPC).
Ele conta que foi vítima de uma fraude. 'Descobri que um professor, para
concorrer a uma bolsa, tinha colocado no currículo dele um trabalho de
pesquisa que tinha sido orientado por mim. Fui atrás e hoje ele foi
banido da plataforma.'
O CNPq informou que há outros casos do tipo sendo investigados, mas não
informa quantos são. O órgão, no entanto, criou em julho um processo de
cruzamento de informações com outras bases de dados, como da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de
universidades, para refinar as informações.
Sistema tem 77 mil pesquisadores
Criada em 1999, a Plataforma Lattes é um grande banco de dados com o
registro das atividades passadas e atuais de pesquisadores e professores
de todas as áreas do conhecimento do País, organizados de acordo com um
padrão definido. Atualmente, ter o currículo registrado na plataforma é
um dos requisitos obrigatórios para candidatos a vagas de professores em
grande parte das universidades e para pesquisadores concorrerem a bolsas
de estudo, por exemplo.
O sistema já recebeu cerca de 700 mil currículos e tem atualmente
cadastrados cerca de 77 mil pesquisadores, 60% deles doutores, de 334
instituições. Além disso, pela plataforma, podem-se encontrar os grupos
e as linhas de pesquisa desenvolvidas em cada região, além de seus
possíveis usos e aplicações. São os próprios pesquisadores que incluem
seus dados, que se tornam públicos e podem ser acessados por qualquer
pessoa pelo site lattes.cnpq.br.
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