A escrita, o autor e a ética
Tem circulado nas redes da
Internet comentários sobre o artigo "Entre
fetichismo e sobrevivência: o artigo científico é
uma mercadoria acadêmica?" publicado pelos
Cadernos de Saúde Pública.23 n.12 Rio de Janeiro dez. 2007. (Resumo abaixo)
Não concordo com colocações do artigo. Só não
publica quem não pesquisa e o docente e
pesquisador atuante em uma universidade ou outra
instituição de pesquisa se não esta pesquisando
não esta cumprimdo corretamente sua função e está
comprometendo a visibilidade social de sua função.
O que valoriza um artigo, enquanto possibilidade
de ser mercadoria, é o valor de uso. Tal valor
so' pode ser atribuído pela demanda dos usuários
para sua leitura. Nada tem a ver com condições
de fomento ou outras variáveis aleatórias. Se o
fomento é enganado pela mídia e pelos estudos
bibliográficos feitos em base de dados incerta
isso nada tem a ver com a obrigação ética do
pesquisador de relatar a sua pesquisa.
Um segundo problema apontado no artigo é a
qualidade da publicação. Revistas científicas
apoiadas por fomento do Estado e classificadas na
Capes devem ter pelo menos 80 % de seu conteúdo
como fruto de pesquisa inédita na área. A única
forma de validar uma pesquisa realizada é pela
aprovação de seus pares. Esta aprovação so' se dá
pelos meios formais de comunicação cientifica o
que implica na divulgação formal pela produção de um artigo.
O que vemos hoje são revistas ditas científicas
publicando simples trabalhos de final de curso de
graduação ou pós-graduação muitas
vezes endossadas por co-autoria docente. Não
discutimos a qualidade destes artigos mas sua
colocação e autoria em um periódico científico
Em terceiro lugar não se pode confundir a
publicação de um trabalho de pesquisa, de um
professo que recebeu fomento do Estado e deve
prestar contas a sociedade do trabalho que
realizou com CITAÇÕES que sua publicação
obteve somadas através de controles bibliométricos.
As bases de dados dos estudos bibliotecários
produzidas, principalmente, por firma privada no
exterior, não são confiáveis e seus dados
questionáveis. A principal delas define como base
para esta contagem um núcleo de periódicos que
estabelece como "quentes". Tal núcleo
obedece mais a interesses editoriais que a
verdade das citações. Este núcleo de contagem
esconde, ainda, a co-cotação e a auto-citação.
Mas este é um problema da base de dados, de seus
produtores e da ingenuidade de quem as utiliza
como arcabouço para conclusões de estudos bibliométricos.
Em quarto lugar tem a questão da
múltipla autoria. Entendo que a geração de
idéias nas ciências humanas e sociais possui um
discurso de criação personalizado. Isto que
torna muito difícil indicar na estrutura do
artigo qual foi a participação de cada um dos
autores. Diferente das áreas de exatas onde na
bancada do laboratório pode-se qualificar a
participação de cada um no processo que resultou
a escrita. Nestas áreas aceita-se como autor até o gerador de dados.
A autoria de que falo destaca-se do "Painel" de
pesquisa em rede onde a própria autoria
individual desaparece e o "Painel" passa a ter o
mérito da autoria, como foi o caso recente do
Prêmio Nobel da Paz e o Painel de Aquecimento Global.
O que faz de um indivíduo único um autor é o fato
de, através de seu nome delimitarmos e
caracterizarmos os textos que lhes são
atribuídos. Uma área de conhecimento, quer por
interesses operacionais da academia ou de seu
hábitos, não pede infllar o número de autores em
um artigo . Isto compromete a própria qualidade
do artigo. O discurso de um campo do conhecimento
e de seus enunciadores definem a qualidade da
área e a vulgarização da autoria a enfraquece.
Caso haja uma rede de autores, a individualidade
do autor é perdida e é concedida ao nome do grupo
que gerou a escrita participativa.
Mas o problema da autoria é definido pelo
publicador e pela normas de um periódico ou
revista, pela ética de um grupo. Nada tem a ver
com a responsabilidade social do pesquisador em prestar contas de seu trabalho.
Resumo, abaixo, realizado por Rogério
Mugnaini e publicado na Lista da Ancib:
Os autores analisam o rumo tomado na avaliação da
produção científica, que valoriza a produtividade
de cientistas e grupos de pesquisa, podendo-se
classificar tal fenômeno como "publicacionismo",
ao qual associa-se o "citacionismo". Estes
fenômenos, claramente identificados na urgência
que permeia o fazer científico, mais
especificamente na publicação do artigo
científico, segundo os autores, "pode assumir
determinados traços como se fossem mercadorias
que estarão disponibilizadas em revistas
científicas". Tais mercadorias servem para
negociação na busca de financiamento, que segundo
um estudo citado pelos autores, vem apresentando
maior participação do setor privado.
Neste contexto os autores questionam a
"fertilidade" da avaliação, tendo em vista o
processo de construção do conhecimento em saúde
pública, que parece não produzir melhorias de
mesma proporção nos quadros sanitários. Ao
primar-se pela quantidade, desconfia-se de uma
diminuição de qualidade, notada num conjunto de
artigos com conteúdo semelhante, e
adicionalmente, num crescente aumento do número de autores por artigo.
Concluem alertando sobre o perigo de se depender
de parâmetros excessivamente simplificados, como
os rankings baseados em indicadores
bibliométricos, e sugerem a consideração de
outras características associadas ao processo de
produção do artigo, "além de seu conteúdo
acadêmico explícito", como "por exemplo, estudos
etnográficos das negociações que ocorrem no
processo editorial de uma revista desde a chegada
de um artigo até o destino final, seja de recusa, seja de publicação".
Artigo completo em http://tinyurl.com/yrj8f5
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