O Estadão.com.br
http://www.estadao.com.br/tecnologia/not_tec123934,0.htm
Estudo sugere que 'um laptop por aluno' prejudica aprendizado.
Políticas de inclusão digital estão erradas, diz pesquisa da Unicamp;
alunos incluídos tiveram pior rendimento.
SÃO PAULO - As políticas de inclusão digital, que estimulam o uso de
computadores nas escolas, podem estar gravemente equivocadas, de acordo
com um estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), divulgado nesta quarta-feira, 13, pela Agência Fapesp. A
pesquisa mostra que o uso de computadores para fazer tarefas escolares
está relacionado ao pior desempenho dos alunos - principalmente entre os
mais pobres e mais jovens.
O trabalho, publicado na revista Educação e Sociedade, foi coordenado
por Jacques Wainer, do Instituto de Computação, e por Tom Dwyer, do
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A equipe utilizou dados do
Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2004.
“Existe hoje uma posição dominante favorável ao uso do computador nas
escolas, como se ele estivesse associado a uma melhoria uniforme no
desempenho do aluno. Mas constatamos que ocorre o contrário: entre
alunos da mesma classe social os que sempre usam têm pior desempenho”,
disse Wainer à Fapesp.
Do ponto de vista de políticas públicas, o estudo aponta que é preciso
entender melhor o fenômeno do impacto dos computadores nas notas dos
alunos antes de defender a inclusão digital baseada na distribuição de
tais equipamentos.
“Idéias como a de dar um laptop para cada criança parecem péssima opção,
principalmente considerando que ele piora o desempenho escolar entre as
crianças mais pobres. Corremos o risco de transformar a inclusão digital
em uma exclusão educacional”, afirmou Wainer.
Segundo ele, a pesquisa foi derivada do Mapa da Exclusão Digital,
publicado pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro em 2003. O
documento apontava um melhor desempenho no Saeb entre os estudantes que
tinham computador em casa.
“O documento dava um argumento favorável às políticas de inclusão
digital. Mas havia problemas metodológicos: em geral quem tem computador
em casa são os alunos mais ricos, que normalmente têm melhor desempenho.
Para eliminar esse viés resolvemos considerar a classe social e focar no
uso para tarefas escolares”, explicou.
O Saeb de 2004, segundo Wainer, prestava-se ao propósito, uma vez que
incluía uma pergunta sobre a freqüência com que os alunos utilizavam o
computador para tarefas escolares: nunca, raramente, de vez em quando e
sempre.
“Usamos esses dados sobre alunos de 4ª e 8ª série do ensino fundamental
e do 3º ano do ensino médio e pudemos avaliar a variação do desempenho
nas provas de matemática e português de acordo com a classe econômica,
dividida em sete estratos”, explicou o professor do Instituto de
Computação da Unicamp.
Sem mágica
Os resultados mostraram que, na 4ª série, os estudantes de classe alta
que usaram raramente o computador para as tarefas tiveram, em média, 15
pontos a menos do que os que nunca o fizeram - tanto em português quanto
em matemática.
Dentre os mais pobres os que usaram o computador, mesmo raramente,
tiveram nota pior do que os que nunca usaram, com uma diferença média de
25 pontos em português e 15 pontos em matemática. “O resultado mais
importante, no entanto, surgiu quando os estudantes disseram sempre usar
o computador. Entre esses, não importou a classe social ou disciplina, o
desempenho foi sempre pior do que entre os que nunca usaram”, disse Wainer.
Entre os alunos da 8ª série, o quadro foi semelhante, mas houve uma
melhora na prova de português entre os alunos que usaram raramente o
computador. Em matemática, a diferença não foi significativa. “Mesmo
assim, na 8ª série os mais pobres que usaram raramente ainda se saíram
pior do que os que nunca usaram. Entre os mais ricos, os alunos que
usaram raramente estiveram um pouco melhor do que os que não usaram”,
contou.
Em matemática, para a maioria das classes sociais da 8ª série, os alunos
que usaram raramente o computador se saíram melhor do que os que nunca o
fizeram. “Por outro lado, quem usou sempre teve desempenho pior do que
os que nunca usaram, em todos os casos”, destacou Wainer. Todos os dados
passaram por teste de significância estatística, para eliminar o chamado
ruído estatístico.
Segundo Wainer, a pesquisa constata apenas estatisticamente que os
alunos que sempre usam o computador para suas tarefas têm pior
desempenho. Mas não há dados para explicar por que o uso intenso piora
as notas e por que o efeito é mais grave entre crianças de classes
sociais mais baixas.
“Só podemos especular sobre os motivos. Para conhecê-los será preciso
que outros especialistas utilizem ferramentas diferentes para realizar
estudos qualitativos. O importante é destacar que os resultados são
coerentes com outros estudos internacionais”, afirmou.
O pesquisador destaca que a avaliação de que o computador é uma
ferramenta neutra é equivocada. “Como o computador é bom para nós,
professores, por exemplo, tendemos a achar que ele é útil para todos.
Mas ele não é uma solução mágica para a educação”, disse.
Para ler o artigo Desvendando mitos: os computadores e o desempenho no
sistema escolar, de Jacques Wainer e outros, disponível na biblioteca
on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique neste link
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302007000400003&lng=en&nrm=iso&tlng=ptt
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