Celebrando a ciência
Marcelo Gleiser

Uma lua obscura de Saturno pode ter uma combinação de água e compostos 
orgânicos necessários para a vida. Planetas girando em torno de outras 
estrelas foram vistos com telescópios pela primeira vez. Células-tronco 
não precisam mais ser extraídas de fetos ou mesmo de cordões umbilicais.

O gigantesco acelerador de partículas, o LHC, foi ligado e funcionou, ao 
menos por um pouco. Deve entrar em funcionamento em meados de 2009. 
Mapas do cérebro por meio de ressonância magnética mostram onde fazemos 
escolhas morais e quando mentimos, uma descoberta com enormes 
conseqüências para o processo penal. E que podem ser usados para 
diagnosticar a doença de Alzheimer nos seus estágios preliminares.

Essas são algumas das novidades da ciência de 2008. A lista, claro, é 
muito mais longa. Mas acho que já é o bastante para celebrar.

Ninguém pensa muito em celebrar a ciência ou os cientistas. Acho que 
isso deveria mudar. Sei que sou suspeito para falar. Mas olhe em volta. 
Veja as dezenas de aparelhos eletrodomésticos ou de eletrônicos, seu 
carro, seu celular, GPS, notícias e futebol ao vivo via satélite, a 
rapidez das telecomunicações, o progresso da medicina, a internet, os 
mistérios do universo -dos ocultos no interior dos átomos até os confins 
do cosmo- sendo revelados de forma magnífica.

De onde vem isso tudo? Do trabalho de milhares de cientistas e 
engenheiros, de pessoas que dedicam suas vidas à busca do conhecimento e 
à melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Sem dúvida, existe o aspecto comercial da tecnologia. Também, nem toda a 
ciência é para o bem, como vemos no progresso das armas de destruição em 
massa, nas tecnologias de guerra biológica, na absurda exploração do 
planeta feita de forma irresponsável por megacorporações gananciosas. 
Mais uma vez, a lista é grande.

Mesmo assim, o fato é que nossas vidas, a sociedade moderna como um 
todo, depende inteiramente dessa infra-estrutura tecnológica. Se ela 
colapsa, se colapsam as telecomunicações, se ficamos sem energia 
elétrica, se cai a internet, voltamos a viver como vivíamos há 200 anos. 
Ficaríamos completamente paralisados. Ninguém mais sabe caçar (ou quase 
ninguém) ou viver diretamente do que a natureza produz. (Com exceção dos 
agricultores de subsistência, mas a sua produção seria ineficaz para 
manter a população global.) Imagine um mundo sem antibióticos, sem 
aviões, sem carros, sem ar-condicionado.

Após oito anos de uma administração que demonstrou desprezo pelo meio 
ambiente, de uma política internacional que inventou uma guerra 
mentirosa e que serviu apenas a alguns grupos de interesse, as coisas 
parecem que estão mudando nos EUA.

Essa semana, Obama escolheu seu secretário de ciência, o equivalente ao 
nosso ministro de ciência e tecnologia, pasta bem servida atualmente 
pelo físico Sérgio Resende.

O escolhido aqui, John Holdren, é um físico de primeira linha e, tal 
como o novo secretário de energia escolhido pelo novo presidente, um 
militante do combate ao aquecimento global. O que me deixou esperançoso 
foi o que Obama disse: "minha administração irá restaurar o princípio 
básico de que decisões governamentais devem ser baseadas na melhor 
evidência científica possível, baseadas em fatos e não distorcidas por 
ideologia política".

Belas palavras, que celebram o papel da ciência em nossas vidas e o 
perigo de corromper fatos a serviço de ideologia. Estamos vivendo um 
momento mágico. A transição começou. O planeta Terra começará a ser 
respeitado como deve pelos que causavam os maiores danos. Estava mais do 
que na hora.

Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em 
Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo". Artigo publicado 
na “Folha de SP” 28/12.


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