http://livroseafins.com/2009/02/26/como-organizar-uma-biblioteca-publica-segundo-umberto-eco/

O escritor italiano Umberto Eco, em seu livro Segundo Diário Mínimo, traz uma 
coletânea de crônicas, muitas delas bem-humoradíssimas.

Uma parte da reunião de textos dedica-se ao que ele chama de  “instruções de 
uso”, pequenos manuais que explicam como desempenhar miúdas e graúdas tarefas 
cotidianas, tais como:

    * Como ser um índio
    * Como apresentar um catálogo de arte
    * Como organizar uma biblioteca pública
(...)

A lista, por si só, já é digna de riso.

Separei no entanto, um grupo de instruções que pode ser de interesse aos 
leitores deste blog: como organizar uma biblioteca pública.

Embora eu saiba que absolutamente todos os meus leitores são dotados de 
inteligência acima da média, não custa lembrar que se trata de um texto 
humorístico e, mais, originado no contexto da cultura italiana que, como todos 
sabem, é bem diferente da brasileira.

Isso entendido, vamos lá…

"Como organizar uma biblioteca pública, por Umberto Eco

       1. Os catálogos devem ser divididos ao máximo: deve-se ter muito cuidado 
em separar o catálogo dos livros do das revistas, este do catálogo por assuntos 
e ainda os livros de aquisição recente dos livros de aquisição mais antiga. De 
preferência, a ortografia nos dois catálogos (aquisições antigas e recentes), 
deve ser diferente: por exemplo, nas aquisições recentes, farmacologia deve vir 
com f, e nas antigas com ph; Tcheco-Eslováquia deve vir com T nas aquisições 
recentes, e nas antigas sem T: Checo-Eslováquia.

       2. Os temas devem ser decididos pelo bibliotecário. Os livros não devem 
jamais trazer no colofão qualquer indicação acerca dos assuntos sob os quais 
devem ser classificados.

       3. As siglas devem ser instrascrevíveis e de preferência muitas, de modo 
que nunca reste a quem preencha a ficha espaço suficiente para incluir a última 
denominação, considerada irrelevante, e assim o encarregado possa sempre 
restituir-lhe a referida ficha para ser preenchida da maneira correta.

       4. O tempo entre o pedido e a entrega do livro deve ser sempre muito 
longo.

       5. Não é necessário entregar ao usuário mais de um livro de cada vez.

       6. Os livros entregues ao usuário porque foram solicitados por ficha não 
podem ser levados para a sala de consultas, isto é, a vida do consulente deve 
ser dividida em dois aspectos fundamentais: um dedicado à leitura e outro 
inteiramente votado à consulta. A biblioteca deve desencorajar a leitura 
cruzada de vários livros, porque pode provocar o estrabismo.

       7. Se possível, desaconselha-se totalmente a presença de máquinas 
fotocopiadoras; no entanto, se uma delas existir, o acesso a seu uso deve ser 
muito complexo e cansativo, o custo de cada cópia deve ser superior às 
papelarias e os limites reduzidos a duas ou três páginas copiadas por usuário.

       8. O bibliotecário deve sempre encarar o leitor como um inimigo, um 
vagabundo (senão, estaria trabalhando), um ladrão em potencial.

       9. A sala de consultas deve ser inatingível.

      10. Os empréstimos devem ser desencorajados.

      11. Os empréstimos entre bibliotecas deve ser impossível, ou pelo menos 
demandar muitos meses. O melhor, neste caso talvez seja assegurar a 
impossibilidade de vir a conhecer o que existe nas demais bibliotecas..

      12. Em consequência disso, os furtos devem ser facílimos.

      13. Os horários devem coincidir absolutamente com os horários de 
trabalho, discutidos previamente com os sindicatos: fechamento irrevogável aos 
sábados, aos domingos, às noites e na hora das refeições. O maior inimigo da 
biblioteca é o estudante que trabalha; o maior amigo é qualquer um que tenha 
uma biblioteca própria, e que portanto não tenha necessidade de vira à 
biblioteca e, ao morrer, legue a essa os livros que possuía.

      14. Não deve ser possível descansar no interior da biblioteca de modo 
algum, e em todo caso não deve ser possível descansar sequer do lado de fora da 
biblioteca sem antes ter devolvido todos os livros que se tinha pedido, de modo 
a ser obrigado a pedi-los novamente depois de tomar um café.

      15. Nunca deve ser possível reencontrar o mesmo livro no dia seguinte.

      16. Nunca deve ser possível saber quem pegou emprestado o livro que está 
faltando.

      17. De preferência, nada de banheiros.

      18. Idealmente, o usuário não deveria poder entrar na biblioteca; 
admitindo-se que entre, usufruindo obstinada e antipaticamente de um direito 
que lhe foi concedido com base nos princípios da Revolução Francesa, mas que 
ainda não foi assimilado pela sensibilidade coletiva, não deve e não deverá de 
modo algum, excetuando as rápidas travessias da sala de consulta, ter acesso à 
penetrália das estantes.

      Nota reservada: Todo o pessoal lotado nas bibliotecas públicas deve ser 
portador de defeitos físicos, porque uma das coisas que se espera de um órgão 
público é que ofereça possibilidades de emprego aos cidadãos vítimas de 
deficiências (está presentemente em estudos a extensão deste requisito também 
ao Corpo de Bombeiros). O bibliotecário ideal deve ser, antes de mais nada, 
manco, a fim de estender o tempo que transcorre entre o recebimento da ficha 
preenchida, a descida aos subterrâneos e a volta com os livros pedidos. Para os 
servidores destinados a subir em escadas para atingir as prateleiras de altura 
superior a oito metros, recomenda-se que o braço que falta seja substituído por 
uma prótese em gancho, por questões de segurança. Os funcionários totalmente 
desprovidos de membros superiores devem pegar os livros pedidos com os dentes 
(disposição que tem como finalidade impedir a entrega aos leitores de columes 
maiores que o
 formato in-oitavo)."

Sobre esse último ítem, é interessante observar que Umberto Eco escreveu um 
romance, O Nome da Rosa, em que um dos principais personagens era uma 
biblioteca - particularmente um livro - cujo responsável era um monge 
beneditino cego.

Uma evidente homenagem ao escritor argentino Jorge Luis Borges que, quando 
assumiu a direção da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, já não enxergava mais 
nada.


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