JORNAL DA CIÊNCIA
Segunda-feira 11 de maio 2009

Zebras e cavalos
Artigo de Marcelo Leite

“O que explica o aumento súbito da produção de ciência no país?”

Marcelo Leite é autor de "Folha Explica Darwin" (Publifolha, 2009) e do 
livro de ficção infantojuvenil "Fogo Verde" (Editora Ática, 2009), sobre 
biocombustíveis e florestas. Blog: Ciência em Dia 
(cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br). E-mail: 
[email protected]. Artigo publicado na “Folha de SP”:

Atul Gawande, médico e ensaísta americano que brilha nas páginas da 
revista "The New Yorker", conta em seu livro "Complicações" -já elogiado 
aqui- que professores de escolas médicas de seu país repetem com 
frequência um dito sobre quadrúpedes. Algo assim: "Se você ouvir um 
tropel, pense primeiro em cavalos, não em zebras".

O sábio conselho se aplica em geral à arte do diagnóstico. Diante de 
certa configuração de sintomas, o médico em formação deve cogitar 
primeiro as doenças e condições mais comuns que possam explicá-la. Mais 
ou menos o contrário do que faz o Dr. House, da imperdível série de TV.

Quando li que o Brasil tinha saltado da 15ª para a 13ª posição no 
ranking de produção científica mundial, logo pensei: deu zebra. Mesmo 
respondendo por meros 2,12% dos artigos publicados em periódicos 
científicos indexados (de primeira linha), é um avanço tão sensacional 
quanto os diagnósticos improváveis de House.

Na divulgação dos dados, o ministro da Educação, Fernando Haddad, se 
empolgou. Disse que em pouco tempo, se mantiver o ritmo, o Brasil poderá 
chegar entre os dez primeiros produtores de conhecimento científico do 
planeta.

"O indicador mostra o esforço nacional e o vigor das universidades 
federais", afirmou, puxando a sardinha para a sua brasa. Citou a 
contratação, por concurso, de 10 mil jovens doutores para dar aulas 
nessas instituições, em todos os cantos do Brasil. E prometeu 17 mil 
contratações até o final do mandato do presidente Lula.

Tomara. Não dá para não torcer pelo país nesse campo em que só tomamos 
lavadas. Não, pelo menos, diante do placar espantoso: 30.451 artigos 
publicados em 2008, contra 19.436 no ano anterior. Um crescimento de 
56%. Fantástico.

No fundo da mente, porém, ainda ressoavam alguns cascos. Talvez fossem 
cavalos. Ou quem sabe outro tipo de equino?

Aumento de 56% num único ano é muita coisa. Ainda mais numa atividade de 
transformação tão lenta quanto a pesquisa científica. O tipo do dado que 
aciona o detector de asneiras ("bullshit detector", como dizem os 
americanos) de qualquer estatístico, até de colunistas ignorantes dos 
meandros dessa disciplina cruel.

Uma hipótese plausível para ajudar a explicar o desempenho que 
entusiasmou o ministro é a de que tenha mudado a base utilizada para 
medir a produtividade científica, da Web of Science. Uma consulta a sua 
página na internet revela que a empresa proprietária (Thomson Reuters) 
investe numa política de ampliar a abrangência dos periódicos indexados, 
com a incorporação de mais de 1.200 títulos de relevância regional.

Nesse processo, o Brasil foi um dos países que mais aumentaram sua 
representação na Web of Science. De três dezenas de periódicos há dois 
anos, contava no ano passado com 103 na base de dados. Mais revistas 
científicas brasileiras acompanhadas, mais artigos nacionais. Aumentou a 
rede, não necessariamente o cardume.

A mudança da base, por outro lado, pode não explicar todo o avanço da 
produção científica brasileira, o que só seria verificável com um exame 
mais minucioso. Não invalida, tampouco, toda a excitação ministerial. A 
simples inclusão de mais revistas brasileiras no radar bibliográfico 
internacional por si própria já constitui uma boa notícia.

A tentação de torcer por uma zebra é quase irresistível, não há dúvida. 
Mas existem muito mais cavalos sobre a Terra do que pode sonhar a nossa 
vã cienciometria.
(Folha de SP, 10/5)
FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/




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