Tesouro brasileiro na internet
Autor: Fábio de Castro. Data: 18/6/2009.

Fonte: 
http://www.agencia.fapesp.br/materia/10650/tesouro-brasileiro-na-internet.htm#

Agência FAPESP - Foi lançado oficialmente, na última terça-feira (16/6), o 
projeto Brasiliana Digital, que disponibilizará pela internet, com acesso 
livre, a coleção de cerca de 40 mil volumes da Biblioteca Guita e José 
Mindlin, doada à Universidade de São Paulo (USP) em 2006, além de outros 
acervos da USP.

A versão inicial, que já está funcionando, oferece acesso a 3 mil documentos 
da coleção reunida por Mindlin ao longo de mais de 80 anos. O lançamento do 
projeto, realizado em conjunto com uma homenagem ao bibliófilo, ocorreu 
durante a cerimônia de abertura do seminário Livros, Leituras e Novas 
Tecnologias, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista.

"Desde que comecei a coleção, já sabia que a biblioteca não podia ser para 
sempre um patrimônio particular. Estava claro que éramos depositários e 
formadores desse conjunto, mas sem o viés da propriedade. Como toda minha 
família tem forte relação com a USP desde a década de 1930, quando entrei no 
curso de Direito da universidade recém-inaugurada, não tive dúvidas sobre a 
escolha da instituição para a qual deveria doar esse patrimônio", disse 
Mindlin.

A fase piloto de implantação do projeto conta com apoio da FAPESP, por meio 
da modalidade Auxílio a Pesquisa - Regular. Os recursos fornecidos pela 
Fundação permitiram a compra de um sistema integrado de digitalização 
robotizada de livros encadernados.

"O robô foi adquirido em janeiro e neste primeiro semestre parte da nossa 
equipe foi para os Estados Unidos receber treinamento para operá-lo. Há sete 
semanas estamos trabalhando com ele. O robô permite digitalizar cerca de 2,4 
mil páginas por hora, o que equivale a cerca de 40 livros por dia", disse 
Pedro Puntoni, professor do Departamento de História da USP e coordenador da 
Brasiliana Digital, à Agência FAPESP.

A Biblioteca Guita e José Mindlin reúne diversos tipos de livros, folhetos e 
manuscritos sobre assuntos brasileiros. "O acervo cobre áreas como 
literatura, prosa e poesia, história, relatos de viagens, crítica literária, 
ensaios, filologia, dicionários, obras de cronistas, história natural, 
botânica e zoologia. Nem tudo está em português, mas tudo diz respeito ao 
Brasil", explicou Puntoni.

Segundo ele, o projeto permitirá aliar a conservação das obras - muitas 
delas com vários séculos de existência - e a universalização do acesso a 
elas. "O governo brasileiro, em suas três esferas, tem investido muito em 
inclusão digital, que deverá aumentar imensamente a parcela da população 
brasileira com acesso à internet. A Brasiliana Digital dará acesso a esse 
acervo riquíssimo, preservando-o ao mesmo tempo", afirmou.

O historiador explicou que ainda não há previsão do tempo necessário para a 
digitalização integral do acervo doado por Mindlin. Mas, com a tecnologia de 
digitalização avançada e um sistema de gestão de informação adequado, a 
equipe está pronta para ampliar o ritmo do projeto.

"Como o prédio no qual o acervo será instalado ainda não está pronto, não 
pudemos ainda definir a dinâmica do processo. O robô, apelidado pela equipe 
de Maria Bonita, é operado por conservadores. Quando lidamos com um livro do 
século 16, por exemplo, temos que diminuir o ritmo. Estamos ainda aprendendo 
a lidar com o equipamento", disse.

O projeto recebeu da FAPESP até o momento cerca de US$ 980 mil, usados para 
a compra do robô e apoio a 15 bolsistas. Segundo Puntoni, a equipe envolvida 
com o projeto tem cerca de 30 integrantes, entre pesquisadores, 
bibliotecários, analistas e programadores.

A base do projeto Brasiliana Digital, segundo Puntoni, é o projeto 
Brasiliana USP, coordenado por István Jancsó, do Instituto de Estudos 
Brasileiros (IEB) da USP. "A Brasiliana USP é um projeto da reitoria da USP 
que permitirá o acesso para pesquisa e ensino da maior coleção de livros e 
documentos de e sobre o Brasil custodiada por uma universidade em escala 
mundial, tornando-a disponível na internet", explicou Puntoni.

Para abrigar o acervo doado por Mindlin e a nova sede do IEB, a Brasiliana 
USP está construindo um edifício com cerca de 20 mil metros quadrados no 
centro da Cidade Universitária, em São Paulo. O projeto foi desenvolvido 
pelos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com a assessoria 
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

"O contrato com a construtora prevê o prédio pronto no fim de outubro, 
incluindo toda a parte estrutural, como ar-condicionado, cadeiras do 
auditório, elevadores, etc. A partir daí será preciso trabalhar na 
instalação de equipamentos, sistemas de segurança e no acabamento. 
Acreditamos que em 2010 o novo prédio estará operacional", disse Puntoni.

A parte do prédio onde ficará o IEB, no entanto, deverá levar 
aproximadamente mais dois anos para ser finalizada. "A parte da construção 
voltada à coleção Mindlin foi privilegiada, para podermos trazer logo o 
acervo. Precisaremos ainda levantar recursos para a finalização da outra 
parte", disse.

Integração digital

Segundo Jancsó, a concepção básica do projeto Brasiliana USP parte da ideia 
de criar uma estrutura de conservação de uma parcela do patrimônio cultural 
da nação, que é a Biblioteca Guita e José Mindlin.

"A partir daí, poderemos investir na conservação do extraordinário acervo 
documental guardado pela USP. A universidade tem, em suas bibliotecas, cerca 
de 6,5 milhões de livros. Tudo isso hoje está à disposição dos interessados 
quase que exclusivamente mediante acesso presencial", disse.

A ideia do projeto, segundo Jancsó, é contribuir para a conservação de todo 
o acervo da USP por meio da constituição de um centro de formação de 
restauradores que levará o nome de Guita Mindlin - a esposa de José Mindlin, 
morta em 2006 aos 89 anos, pioneira nas ações de restauro de livros e 
documentos no Brasil.

"Por outro lado, é papel da universidade pública fazer com que a visão 
patrimonial seja superada e fazer com que esse acervo custodiado pela USP 
possa estar ao alcance, de modo universal e irrestrito, a todos os 
brasileiros interessados", afirmou.

De acordo com Jancsó, os acervos do IEB e da Biblioteca Guita e José Mindlin 
são complementares e, juntos, deverão formar a principal coleção existente 
de livros e documentos voltados aos estudos brasileiros. "A construção desse 
prédio no centro da USP resgata a ideia de que essa universidade foi criada 
para pensar o Brasil", disse.

Jancsó conta que a USP investiu R$ 15 milhões para a construção do novo 
prédio e o projeto captou mais R$ 18 milhões junto a fundações e recursos 
provenientes de mecanismos de renúncia fiscal. Já os recursos da Brasiliana 
Digital foram integralmente fornecidos pela FAPESP. "Agora, conseguimos 
autorização para captar mais R$ 11 milhoes pela lei Rouanet, para finalizar 
a obra. E vamos ter que buscar mais recursos. A obra é do tamanho do 
 projeto", destacou.

O site Brasiliana USP reúne informações sobre o projeto, sobre a Biblioteca 
Brasiliana Guita e José Mindlin e Brasiliana Digital, com destaques como o 
primeiro livro impresso no Brasil (A Relação da Entrada[...], por Antonio 
Isidoro da Fonseca), cenas da vida urbana de Jean-Baptiste Debret 
(1768-1848) e o relato do marinheiro Hans Staden (1525-1579), de 1557.

"A edição de 1557 de Marpurg é a verdadeira primeira edição da obra de Hans 
Staden. Comprei-a encadernada com mais três livros (Varthema, Federman e um 
romance de cavalaria alemão), numa encadernação de 1558. A biblioteca possui 
também uma edição pirata de Frankfurt, provavelmente do mesmo ano, que, não 
dispondo das matrizes da primeira edição, foi ilustrada com gravuras da 
viagem de Varthema ao Oriente, sem qualquer relação com o Brasil e com os 
índios", disse Mindlin.

Brasiliana Digital: www.brasiliana.usp.br/bbd.


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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
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