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Na trilha da luz
Transmissão transcontinental de filme em altíssima definição inaugura a
linha de fibra óptica de 10 gigabits para a internet acadêmica
Marcos de Oliveira
Edição Impressa 163 - Setembro 2009
Pesquisa FAPESP -
© Mario Ladeira/FileTeatro do Sesi: projeção de filme digital em resolução
quatro vezes maior que a TV de alta definição

As luzes do cinema e as luzes da fotônica se encontraram na apresentação
simultânea de um filme digital transmitido em superalta definição, em tempo
real, de São Paulo para San Diego, na Califórnia, Estados Unidos, e
Yokohama, no Japão. O experimento marcou a inauguração da linha de fibra
óptica com capacidade de transmissão, via internet, de 10 gigabits por
segundo (Gbps) com o exterior que passa a servir a comunidade acadêmica de
São Paulo. O evento aconteceu durante o 10º Festival Internacional de
Linguagem Eletrônica (File), nos dias 30 e 31 de julho, no teatro do Sesi,
na avenida Paulista. O filme *Enquanto a noite não chega*, com direção de
Beto Souza, é o primeiro longa-metragem produzido no Brasil originalmente em
4K, tecnologia de vídeo equivalente a quatro vezes a resolução da TV digital
de alta definição usada em todo o mundo ou 24 vezes em relação à TV aberta
tradicional. “Na tecnologia 4K não se sente falta da película do cinema”,
diz a professora Jane de Almeida, da pós-graduação em Educação, Arte e
História da Cultura, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que coordenou
o evento com o professor Eunézio Antônio de Souza, do Laboratório de
Fotônica da mesma instituição. O experimento, inédito no hemisfério Sul do
planeta, também contou com uma conferência em tempo real com projeção na
tela do teatro entre pesquisadores brasileiros do Mackenzie e do exterior,
do Centro para Pesquisa em Computação e Artes (CRCA na sigla em inglês) e
Instituto para Telecomunicações e Informação Tecnológica (Calit2) da
Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), e do Instituto de Pesquisa
para Mídia Digital e Conteúdo (DMC) da Universidade de Keio, em Tóquio.

Na transmissão, o filme e as imagens dos pesquisadores foram transformados
em fótons pelos lasers e transportados via fibras ópticas do teatro em São
Paulo até as universidades no exterior, sem passar por nenhum fio de cobre
ou semelhante. Para cada ponto foram feitas conexões de 1,5 Gbps, ida e
volta, somando 3 Gbps. “Trabalhamos no limite da tecnologia em equipamentos
ópticos e cinematográficos”, diz o professor Souza, conhecido no meio
acadêmico como Thoroh. Em arquivo digital 4K, cada frame do filme,
equivalente a um quadro de película fotográfica dos filmes tradicionais,
possui 8 milhões de pixels (4.096 x 2.160 pixels) ante 2 milhões da melhor
tecnologia televisiva atual (1.920 x 1.080), embora ainda não existam telas
comerciais ou de demonstração de TV 4K, apenas projeção. Para um filme
digital são necessários 30 *frames* por segundo. Tamanho descomunal de dados
só poderia passar por uma conexão com banda de transmissão equivalente e
muito superior aos atuais padrões comerciais. “Para transmitir o filme
usamos uma banda de 3,5 Gbps na transmissão, equivalente à capacidade de
3.500 residências conectadas à internet a 1 megabit por segundo (Mbps)”, diz
o professor Thoroh. Seu laboratório faz parte da rede KyaTera, a estrutura
de cabos de fibra óptica que interliga centros de pesquisa paulistas entre
São Paulo, Campinas e São Carlos, a 20 Gbps, dentro do Programa Tecnologia
da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (Tidia) da FAPESP. “O
evento em 4K, acontecido em julho, serviu como um exercício para a rede
KyaTera se conectar ainda este ano, de forma definitiva, a um *link*
 internacional.”

*KyaTera ampliada -* Essa rede funcio nou até agora para uso entre
pesquisadores de universidades paulistas em experimentos na área de
fotônica, protocolos de redes e aplicações de uso de equipamentos que
requerem banda larga de transmissão (*ver Pesquisa Fapesp n° 139*). “Com os
pesquisadores da rede KyaTera conectados à rede acadêmica, chamada de
internet 2 [a 1 é a comercial], eles poderão estabelecer conexões rápidas
com outros pesquisadores no mundo. Isso já é possível, como vimos com a
transmissão 4K, mas requer a intervenção de muitas pessoas para conseguir o
roteamento no caminho. A ideia é que eles possam fazer isso automaticamente
no futuro porque os pesquisadores do KyaTera deverão ser os principais
usuários desse *link *de 10 Gbps”, diz o professor Hugo Fragnito, da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do projeto
KyaTera.
A contratação e a administração de conexões com o exterior, além do
provimento de internet para universidades e centros de pesquisa paulistas,
são realizadas há 20 anos pela rede Ansp, sigla de Academic Network at São
Paulo, ou rede acadêmica do estado de São Paulo, financiada pela FAPESP. A
conexão de 10 Gbps é um acordo ampliado entre a Ansp e a Fundação Nacional
de Ciência, a NSF na sigla em inglês, dos Estados Unidos, que criaram em
2005 a Western Hemisphere Research and Education Networks-Links
Interconnecting Latin America (Whren-Lila), para prover uma conexão em
fibras ópticas entre São Paulo e Miami, inicialmente a 2,5 Gbps. O novo
canal de fibras ópticas iluminados pela luz de lasers foi alugado da Latin
American Nautilus, empresa detentora de cabos com várias fibras instalados
ao longo da costa brasileira, do Caribe e da América Central até Miami. De
lá, a transmissão segue em vias igualmente rápidas dentro do território
norte-americano ou vai para a Europa e Ásia. “A conexão de 10 Gbps vai
custar US$ 3 milhões por ano, sendo US$ 1,4 milhão da NSF e o restante da
FAPESP”, diz o professor Luís Fernandez Lopez, coordenador da rede Ansp e do
Tidia.

As transmissões via internet convencionais ou especiais como foi o caso do
filme e da videoconferência realizadas em julho saem do Brasil por um cabo
de fibras ópticas do município de Praia Grande, no litoral sul paulista, e
chegam, por via submarina próxima à costa, a Miami. Na Flórida, o cabo é
conectado ao International Exchange Point for Research e Education
Networking in Miami, chamado de Ampath, que funciona como ponto de troca de
tráfego (PTT) conhecido também como Network Access Point (NAP) entre as
redes acadêmicas e educacionais dos Estados Unidos e internacionais, que
também possuem conexões com a internet comercial. Os PTTs consistem de um ou
mais equipamentos chamados de roteadores, onde os provedores de internet se
conectam, sob a forma de acordos multilaterais, para que e-mails trocados,
por exemplo nesse caso, entre um pesquisador do Mackenzie e outro da
Universidade da Califórnia, possam ser entregues. A partir desse PTT de
Miami, a Ansp tem acordos com outras redes conectadas à Ampath, que lhe dá
acesso ao restante do mundo como a Internet2, rede de experimentos em
internet de alta velocidade formada por mais de 200 universidades, 70
empresas, 45 agências governamentais norte-americanas e 50 organizações
internacionais.

Os acordos de troca de tráfego com base em Miami também incluem acesso a
Atlantic Wave, mantida por entidades de pesquisa e educação do sudeste
norte-americano, fornecedora de acesso a 40 Gbps para as redes europeias e
federais dos Estados Unidos; a National Lambda Rail, uma rede nacional
norte-americana formada por universidades e companhias de tecnologia, que
provê infraestrutura para pesquisa e experimentação; Florida Lambda Rail, de
instituições do estado da Florida, e a Pacific Wave, que faz conexões com
redes asiáticas e da Oceania, a 10 Gbps. Outro acordo está estabelecido com
a rede Corporation for Education Network Initiatives in California (Cenic),
mantida por instituições de pesquisa do estado da Califórnia.

Com a transmissão a 10 Gbps, a Ansp começou a participar efetivamente do
Global Lambda Integrated Facility (Glif), uma organização mundial e virtual
que promove a integração de redes ou *lambdas* (os vários comprimentos de
onda emitidos pelos lasers, também chamados de cores), para suporte a
experimentos científicos, além de promover a troca de experiências entre
engenheiros de redes que trabalham nesse segmento. “A Glif é como um clube
ou consórcio, em que não é necessário pagar nenhuma taxa, para a troca de
informações entre redes acadêmicas que trabalham com 10 Gbps”, diz Lopez. A
entidade tem como participantes centros de pesquisa como o Centro Europeu de
Pesquisas Nuclea res (Cern), Internet2, Fermilab, a rede acadêmica Janet, do
Reino Unido, e a Associação Transeuropeia de redes de Pesquisa e Educação
(Terena). No Brasil, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, a RNP, ligada ao
Ministério da Ciência e Tecnologia, é que provê a estrutura de redes de
pesquisa no Brasil e funciona como provedor de internet, fora a área da
Ansp, para as universidades e demais instituições de pesquisa e educacionais
do país. A RNP, que também participou da elaboração das transmissões da
tecnologia 4K, espera para o final deste ano conexão de mais 10 Gbps para
Miami, em cabo submarino de fibras ópticas da empresa Global Crossing ligado
na cidade do Rio de Janeiro. Assim, a rede acadêmica brasileira terá uma
conexão compartilhada com o exterior de 20 Gbps para a internet.

Mas antes de uma conexão de internet da rede acadêmica sair por Santos e
chegar a Miami e a todas as redes mundiais, ela faz uma passagem obrigatória
pelo PTT de São Paulo, considerado pelo Glif, um dos 18 pontos de tráfego de
redes acadêmicas do mundo. Chamado ainda de NAP do Brasil, este ponto serve
para troca de tráfego e é administrado pela empresa Terremark, a mesma que
administra o NAP de Miami. O PTT paulista está instalado desde 2004 no
município de Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo, num acordo entre
a FAPESP – que operou o PTT acadêmico e comercial da internet brasileira de
1998 a 2004 na sua própria sede – e a empresa norte-americana.

*Ligado ao mundo -* Para fazer a transmissão do filme e da conferência foi
preciso reservar conexões sem tráfego ao longo das linhas de internet dentro
dos Estados Unidos. Foi reservada uma conexão de 10 Gbps entre Miami e Los
Angeles, na Califórnia, da C Wave, uma rede experimental da empresa Cisco
que faz parte da National Lambda Rail. De Los Angeles a San Diego foi usado
um enlace da Cenic. De lá, o sinal foi transportado até Tóquio, num cabo que
atravessa o oceano Pacífico em que opera a Rede Japonesa Gigabit II. No lado
de São Paulo, parte da rede também precisou ser preparada e reservada. Foram
utilizadas ligações entre o PTT instalado em Barueri e a USP, a 10 Gbps, e,
até o Mackenzie, utilizou-se uma rede especial de fibras da empresa
Telefônica que, por um acordo firmado em 2007 e renovado este ano, pode ser
utilizada pela rede do Tidia. “Usamos uma fibra apagada e sem utilização, o
que significa que ela não estava com o laser funcionando”, diz o professor
Thoroh. Ligar o laser na fibra e passar os 10 Gbps foi possível com o
empréstimo de equipamentos de transmissão ópticos da Universidade de São
Paulo e da empresa Foundry e lasers e amplificadores da empresa Padtec, de
Campinas, em São Paulo. Um outro acordo com a Telefônica para o evento
supriu de fibra óptica dedicada, com a mesma velocidade, a ligação do prédio
do Laboratório de Fotônica do Mackenzie até o prédio da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), onde fica o teatro.

Esse tipo de empreendimento tecnológico internacional só havia sido
realizado entre os Estados Unidos, Europa e Japão. A ideia no Brasil partiu
da professora Jane. “Na File de 2008, junto com pesquisadores da UCSD,
projetamos alguns filmes em 4K e o próximo passo seria transmitir os
filmes”, diz Jane. “Aí neste ano procurei o professor Thoroh, conhecendo o
trabalho dele na rede KyaTera, para saber sobre a possibilidade de
transmitir o filme para os Estados Unidos. E ele comprou o problema.” Os
dois foram então atrás dos equipamentos, do filme e da transmissão. “Foi um
trabalho enorme”, diz Thoroh. O projetor e as câmeras, que ainda são
vendidos sob encomenda, foram emprestados pela Sony.

Para enviar o filme, foi necessário que pesquisadores da UCSD trouxessem
para o evento dois provedores da marca Zaxel com capacidade de memória de 4
terabytes (TB) cada um. O filme tem cerca de 5 TB, equivalente a mil discos
de DVDs comuns de 4,7 gigabytes. O filme de 70 minutos é baseado no romance
*Enquanto a noite não chega*, do escritor gaúcho Josué Guimarães
(1921-1986). A narrativa é sobre um casal de idosos, Dom Eleutério e Dona
Conceição, que moram em uma cidade abandonada à espera da morte. Além deles,
apenas o coveiro permanece para poder enterrar os dois e ir embora para
outra cidade. Mas o inevitável acontece, o coveiro morre antes do casal.
“Beto Souza fez um filme com paisagens extensas e cores bucólicas. Há um
momento em que o casal nostalgicamente tenta ver um filme em película com
imagens deterioradas”, descreve Jane. “No contexto da nossa transmissão esse
tema evoca conexões imediatas com o fim do filme tradicional – que morre
tarde demais. Isso porque se fala muito sobre a demora de Hollywood em
substituir a película”, analisa. “A arte se modifica com as novas
tecnologias. Depois de 1915, o filme em película se estabilizou, mas a
tecnologia 4K pode mudar o cinema.”
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