São Paulo, domingo, 08 de novembro de 2009  
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        + Marcelo Gleiser

40 anos de internet 

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Será que a tecnologia está redefinindo quem somos? 
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Faz 40 anos que os computadores de Leonard Kleinrock, da Universidade da 
Califórnia em Los Angeles, e de Douglas Engelbart, do Instituto de Pesquisas na 
Universidade de Stanford, foram conectados por uma "linha especial" da Arpanet, 
um sistema de apenas quatro computadores que faziam parte de um projeto do 
Departamento de Defesa dos EUA.
Com o passar dos anos, o sistema exclusivo de tráfego de informação evoluiu, 
saiu dos laboratórios de cientistas para o público e hoje é conhecido como 
internet.
Não há dúvida de que a internet está transformando o mundo, de que vivemos em 
meio a uma revolução. A questão, ou uma delas, é que tipo de revolução é essa: 
será que a internet pode ser comparada, por exemplo, ao telefone ou ao carro, 
ou mesmo à imprensa de tipo móvel, que revolucionou o livro? Ou será que ela 
pertence a outra classe de tecnologia, que não só transforma a sociedade mas 
que vai além, redefinindo quem somos?
A questão é complicada, difícil até de ser formulada. O telefone e o carro 
transformaram o modo como as pessoas se comunicavam, iam ao trabalho, viajavam, 
viam o mundo. Como toda tecnologia que se torna de uso público, primeiro 
começaram pequenos, com alcance limitado: eram poucas as linhas telefônicas e 
as estradas.
Aos poucos, as coisas foram crescendo e, em meados do século 20, telefones e 
estradas estavam pelo mundo todo. Uma diferença bem importante é que a 
internet, por ser acessível por computadores, é bem mais aberta aos jovens. 
Telefones celulares também; os jovens têm a sua privacidade, o seu espaço 
virtual separado do dos pais e irmãos. A comunicação é tão fácil e rápida que 
chega a tornar o contato direto, em carne e osso, desnecessário.
Talvez seja uma preocupação dos meus leitores mais velhos, que, como eu, 
nutriam as amizades no campo real e não por meio de sites como Facebook e 
Twitter, mas será que a internet nos fará desaprender como nos relacionar 
diretamente com outros seres humanos?
Deixando esse tipo de preocupação de lado, se olharmos para a história da 
civilização, veremos que podemos contá-la como uma história da tecnologia. À 
medida que novas tecnologias foram sendo desenvolvidas, do controle do fogo e 
da rotação de terra na agricultura até a roda, o arado e os transistores e 
semicondutores usados em aparelhos eletrônicos, nossa história foi, em grande 
parte, determinada pelas nossas máquinas. Valores e interesses mudam, e visões 
de mundo se transformam de acordo com nossos instrumentos.
O Homo habilis, nosso ancestral que usou ferramentas pela primeira vez, evoluiu 
rumo ao Homo sapiens e, agora, este se transforma no Homo conectus. Será que 
nossos avanços tecnológicos são, hoje, a principal mola da nossa evolução como 
espécie? Nesse caso, será que a tecnologia está redefinindo o que significa ser 
humano?
Descontando uma grande devastação biológica, como uma epidemia de proporções 
globais ou um cataclismo climático ou ecológico, somos donos da nossa evolução: 
nossa transformação como espécie ocorre muito menos devido a mutações 
aleatórias e ao processo de seleção natural do que, por exemplo, devido a um 
maior intercâmbio racial, à melhor alimentação e aos avanços da medicina, à 
integração de tecnologias diversas com o corpo (marca-passos, órgãos e membros 
artificiais) e com a mente (drogas que mudam nossas emoções, implantes nos 
olhos e ouvidos, chips no cérebro).
A internet talvez represente uma nova fronteira, a da integração coletiva da 
humanidade a um nível sem precedentes. Se não no mundo real, ao menos no 
virtual.

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MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover 
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
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