Luzes que se apagam e nada mais
Vidas que se acabam a sorrir
Luzes que se apagam nada mais
e o que se foi não voltará jamais...
A diferença entre falar e escrever é que a
percepção do significado das palavras ouvidas é
diferente de sua visualização na impressão em
conjunto. O som não é apenas ouvido, mas também
sentido por meio da pele que ajuda na compreensão
de seu significado. Apesar disso um sistema de
escrita é muito mais complexo do que o idioma
falado, pois representa um conjunto de signos
convencionados que concedem a possibilidade daquela escrita.
Um sistema de escrita, ou simplesmente uma
escrita, é um tipo de comunicação por símbolos
chamados de caracteres ou grafemas, usados para
registrar visualmente uma língua falada,
com finalidades múltiplas, inclusive a de
comunicação; a escrita permite registrar
mensagens para recuperação futura e admite a
formação de uma memória armazenada e iluminada.
Nesse sentido a escrita é a representação gráfica
e convencionada do idioma.É a interface da
linguagem. Tanto o idioma como a escrita são
mutáveis, mas em dias de trocas estruturais
intensas no linguagear da Internet o sistema da
escrita pode ter diferentes representações e
convenções que não se conectam mais ao todo da base fixa.
Os habitantes de uma nação estabelecem sua
comunicação por meio de sua língua. Toda
comunidade só existe com um idioma, que
atualmente somam cerca de quase sete mil línguas
articuladas. As mais faladas sendo: hindu,
espanhol, inglês, árabe, português. bengali,
russo e japonês. São idiomas falados por mais de cem milhões de pessoas.
Já os sistemas de escrita vigentes são cerca de
400 e destes 127 são de raiz latina. As outras
escritas são de raiz cirílica, árabe, indiana,
chinesa, japonesa grega e mais outras 25 origens.
Uma forma devastadora de violência é a que se
pratica passivamente ao não se preservar os
idiomas e as escritas ao se aceitar uma monogamia
cultural. Despir as minorias da sua própria
identidade falante é promover o seu
desaparecimento. A UNESCO elaborou um livro das
línguas ameaçadas, reflexo da crescente
preocupação que o problema está despertando. Os
linguistas acreditam que das 6800 línguas vivas
podem desaparecer entre 3400 e 6100, antes de
2100, o que supera a estatística de uma língua
extinta a cada duas semanas. A melhor forma de
referir esta realidade não é dizendo que as
línguas foram assassinadas. Seis mil idiomas
acabados fecharão também muitas escritas.
Das mais de três mil línguas indígenas que
existiam Brasil na época dos colonizadores, a
metade na regiões amazônicas hoje restam cerca
de 150 línguas indígenas na região. A condição
oral e escrita de uma língua é essencial para
classificar e relacionar a informação em uma dada
cultura, assim como, determinar a maneira de como
seus habitantes percebem o mundo e interagem com ele.
Ao se encerrar uma língua perde-se para sempre o
saber, os hábitos, o conhecimento de uma
cultura. Apagam as condições espirituais, os
processos e instrumentos de uma nação; as lendas
e mitos de um povo; toda a sabedoria que esta
nação teria guardado sobre a natureza e sua
interação com ela. Fecha-se uma porta sem abrir
qualquer janela. Estas são luzes que se apagam
para sempre e jamais renascerão do ponto em que foram apagadas.
O relato de, casos peculiares de fechamento de
uma língua indígena, vale contar:
O tempo era a meados do século XVI e por
volta de 1554 no Brasil das Capitanias, quando
surgiu um desentendimento entre Álvaro da Costa,
o filho do governador Geral e Dom Pero Sardinha
o bispo designado pela Coroa. O bispo criticou
publicamente o comportamento livre do jovem, bem
como a omissão de seu pai Duarte da Costa, o governador geral.
Apesar de o bispo ter grande influência por ter
sido colega de São Inácio de Loyola e professor
de teologia nas Universidades de Paris e
Salamanca o poder político falou mais forte. Dom
João III, em Portugal, ao saber do problema,
chamou o bispo de volta para se explicar. Dom
Sardinha reuniu, então, um grupo devoto para
levar a ver o Rei, explicar os acontecimentos, e
pedir para acabar com os pecados permitidos do
lado de cá do Equador. Mas Portugal sabia bem o
que acontecia por aqui e achava que a linha que
divide os hemisférios separasse também a virtude do vício.
Todavia, para felicidade de Duarte da Costa de
seu filho e do pecado o navio em que o bispo
Sardinha se encontrava naufragou no litoral de
Alagoas, sendo o bispo e todos seus acompanhantes
devorados pelos índios Caetés. Era 16 de junho de 1556.
Os comensais do bispo viviam numa população de 75
mil índios desde a ilha de Itamaracá até as
margens do rio São Francisco. Habitavam o seu
país com sua língua, seus ritos e cultura.
Depois de "consumir" o bispo os índios foram
considerados "inimigos da civilização" por uma
Carta Régia de 1537 que consagrava a ordem para
sua escravização. Em 1562, Mem de Sá, o
novo governador, determinou que os índios da
nação fossem aprisionados sem exceção. E a
nação Caeté foi extinta. Apagaram toda uma cultura em nome da civilização.
Outra caso nos chega através de Friedrich
Alexander von Humboldt, naturalista alemão,
explorador, filosofo e lingüista. Em 1804, o
explorador Humboldt voltou de sua expedição de
cinco anos a América Central e do Sul, trazendo
consigo uma transcrição de 40 palavras ditas por
um papagaio que se acreditava ser o último falante de uma língua extinta.
Sua expedição foi na região do rio Orenoco, na
Amazônia venezuelana, em região perto dos índios
Atures inimigos dos índios Maipures "Nada pode
ser mais grandioso que esta região. Uma terra de
fábulas, de visões e de fadas", escreveu o explorador.
Apesar disso, em determinado momento da viagem,
chegaram à aldeia dos índios Atures e descobriram
que ela havia sido incendiada até os seus
alicerces pelos agressivos Maipures; os restos
dos Atures já começavam a ser cobertos pela mata
da selva. Buscaram e buscaram, mas não havia sobrevivente algum.
Só encontraram, conta a história, um aturdido
papagaio de cores brilhantes que vivia entre as
ruínas e repetia uma e outra vez longos
discursos numa língua incompreensível. Era a
língua dos Atures, mas não restava mais ninguém que a entendesse.
O silencio do conhecimento é o silêncio da
informação escondida que pode ser uma terrível
desarmonia entre uma linguagem e as suas
escritas. Um silêncio da linguagem diante
dos ruídos de uma escrita que se reinventa
multiplicada nos formatos e nos diferentes
contornos de convivência escrita e falada.
Aldo de A Barreto
Language statistics & facts
http://www.vistawide.com/languages/language_statistics.htm
A nova forma de violência
http://mc.jurispro.net/contrato.htm
Sistemas de linguagem do mundo
http://www.omniglot.com/writing/definition.htm
De volta ao Orinoco, seguindo von Humboldt
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=14&id=132
também em http://avoantes.blogspot.com
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