O DESCOMPASSO ENTRE A MENTE E O CORPO
John Desmond Bernal foi um dos mais eminentes
cientistas da sua geração e uma importante figura
política - o principal porta-voz de uma ciência
para todos, em sua época, no Reino Unido. Um fato
até então pouco explorado da sua carreira foi o
seu interesse na informação em ciência. Os
arquivos de Bernal em Cambridge mostram a sua
participação no desenvolvimento da área de
informação, sua organização e sua documentação.
Foi figura de proa para estabelecer um Instituto
de Informação Científica no Reino Unido
e participou na fundação do grupo que liderou
com Jason Farradane a introdução da ciência da
informação como uma nova disciplina em 1948.
Nesta data foi realizada em Londres a Royal
Society Scientific Information Conference, marco
da criação da nova área, quando cientistas de
todo o mundo e de quase todos os campos foram a
Londres com propostas para resolver os problemas
de acesso e organização da informação.
Bernal escreveu em 1929 um longo texto: The
World, the Flesh & the Devil, uma investigação
sobre os três inimigos da alma racional é o
subtítulo do documento que espanta os tais
inimigos clamando a ladainha de Santo Antonio
Eremita: das ilusões do mundo, da carne e do
demônio, dizia o santo eremita e a congregação respondia livrai-nos, Senhor.
O físico Bernal introduzia com ser artigo, do
começo do século passado, uma reflexão que será
constante neste novo século: como harmonizar uma
mente cada vez mais forte, iluminada e criativa
com a fragilidade de um corpo que se esvai com o
passar dos anos. A mente, pelas facilidades
contemporâneas, está ampliada em sua agudeza e
nas formas perceptivas de lidar com a
visualização do mundo. O corpo apesar da ajuda
das próteses supervenientes é biologicamente o mesmo.
É uma ilusão estar do mundo não se aperceber
deste descompasso do viver com um corpo antigo e
usado, mas com uma mente nova e cada vez mais
fulgurante. Assim, procurando um refúgio
corporal forte Mary Shelley em 1816, com sua
escrita, utilizou de um físico forte e
assustador, para lidar com o preconceito. A sua
história do doutor Victor Frankenstein serviu
para defendê-la do preconceito e da exclusão das
mulheres em sua época. Ela fala na voz do outro
corpo: "Terei de respeitar o homem quando ele me
despreza?" "Por toda parte vejo felicidade da
qual estou irremediavelmente excluído".
Também no mito de Prometeu o temos o Titã
corporalmente preso a um Monte, castigado pela
sua ingerência em gerar um novo ser pensante.
Conta a lenda que o Céu e Terra já estavam
criados quando Prometeu chegou à terra. Com
argila e água fez o homem à semelhança dos
deuses. Tirou das almas dos animais
características boas e más animando a
criatura. Atena, deusa da sabedoria, insuflou na
argila o espírito com sopro divino. Mas toda esta
feitura irritou Zeus que prendeu Prometeu ao
monte Cáucaso. Ao ser libertado, tendo que
cumprir sua sorte passou a usar um anel com uma
pedra retirada do Monte. Seu corpo estava para
sempre preso àquela montanha. Mas o seu conhecimento estava livre.
A natureza humana vem representando esta prisão
do corpo em contraposição a liberdade da mente há
muito tempo; uma desarmonia que demonstra que o
homem preso a seu físico temporal não poderá
imiscuir-se em todos os âmbitos como o seu poderoso e adaptável pensamento.
O padre Teilhard de Chardin escreve em 1950 que
a evolução da humanidade caminhava para um
aumento inevitável de complexidade e
sensibilidade da mente humana. A sua noosfera
pode ser vista como a esfera do pensamento humano
e seria a terceira etapa no desenvolvimento da
Terra vindo depois da biosfera que seria o contexto da vida biológica.
Segundo ele existe, a atmosfera, a geosfera e
biosfera e depois um mundo ou esfera das idéias
formadas por produtos culturais, pelo espírito,
linguagens, teorias e conhecimentos. A noosfera
esquece a condição de envelhecimento biológico ao
se aproximar da idéia de ciberespaço, um espaço
que prescinde da presença física estar
corporalmente inserida para realizar os atos
convivenciais. No ciberespaço para constituir as
obras e feitos de interação é dada ênfase na ação
da imaginação, a criação de imagens em comunhão
com os demais conviventes. Neste espaço
privilegiado entra-se com a mente e as idéias
deixando o corpo do lado de fora da interface.
A crescente complexidade da existência do homem e
sua capacidade mental tornam necessário lidar,
também, com as complicações mecânicas de uma
complexa organização sensorial e motor. Para as
partes de um corpo vivido estão sendo dadas
funções cada vez mais modernas independente de
sua condição de uso permanecer a mesma.
A mente humana deveria evoluir na companhia do
corpo humano. Mas este descompasso tem aumentado
com o acesso e distribuição do conhecimento.
Estas ligações intrincadas entre mente e corpo
indicam que os atributos fisiológicos levarão a
conseqüências psicológicas molestando o todo do
organismo. É por conta desse delicado equilíbrio
entre os fatores orgânicos e as articulações do
pensamento que o futuro vai estar cheio de pontos
perigosos e armadilhas de percurso.
Um problema quase escondido são os impulsos da
sensualidade exacerbados por todas as mídias
sugerindo um corpo aprimorado como forma de
encantar relações, o que nem sempre é possível. A
solução pode ser a sublimação como processo
consciente desviando a energia para novos
objetivos de caráter útil, mas este controle
quando contínuo poderá causar dano às condições intelectuais do corpo.
Uma parte desta sensualidade reprimida poderia
levar à criação de artefatos estéticos para uma
realização pela arte. Arte aqui entendida em seu
sentido mais amplo, como a capacidade que tem o
ser humano de colocar em prática uma idéia
valendo-se da faculdade de dominar fisicamente a
matéria. Supõe, para isso, a criações carregadas
de vivência pessoal e com a propriedade de
realizar formas sensíveis, por efeito de uma ação
exterior e com profunda realização sensorial.
Poderia assim ser atenuada a impulsividade
reprimida de um invólucro que não responda mais a
poderosos anseios do imaginário.
Algum tipo de equilíbrio terá de ser encontrado
entre as idéia e seu relacionamento
corporal. Qual será o futuro do sentimento no
homem, por exemplo? Será mais emocional ou mais
racional em um mundo cada vez mais mecanizado nas
relações de convivência privada e trabalho
corporativo. No trabalho o indivíduo racional tem
de satisfazer condições de vigor para manter o
equilíbrio com a objetividade motora de seu grupo
profissional; só isto lhe permite continuar ali
e barganhar seu esforço em um mundo de trocas.
Como a emoção irá atuar neste descompasso. O
sentimento emocional estará sob o domínio de um
estado de vigilia constante e consciente? Uma
parca vivência será a de seres humanos em estado
de supervisão permanente de seus sentimentos para
poder permanecer na convivência incorpórea das redes de coexistência digital.
O comportamento do organismo mecanizado
mesmo com suas próteses facilitadoras será um
mistério a ser revelado no futuro. A medida que
aumenta o saber acumulado o corpo tenderá a
querer ousar, porque sabendo mais irá querer
ousar mais e em tal ousando exporá a sua
fragilidade de invólucro ao risco de destruição.
Mas que fazer se essa ousadia, se essa
experimentação é uma essencialidade na sua vida ativa.
Realizar o imaginário em seus todos os seus
aspectos é uma vocação da mente, mas também é
um anseio do corpo e a bifurcação destes caminhos
gera conflitos impensáveis. Viver com um corpo
1.0 e uma mente 2.0 é uma armadilha engatilhada.
Até que se tragam novas diretrizes para esta
coabitação, entre mente e corpo, o segredo
será cada um morar em seu mundo, mas contando
com a perspicácia do saber em encontrar a
harmonia necessária ao desejo do corpo em integrar o todo do universo.
Aldo de A Barreto
- Johann Goethe escreveu um pequeno poema de 8
estrofes sobre a lenda de Prometeu, que no caso se reporta a Zeus:
"Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo,
por alguns dos meus sonhos se haverem frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"
- John Desmond Bernal escreveu The World, the
Flesh & the Devil em 1929
<http://www.santafe.edu/~shalizi/Bernal/>http://www.santafe.edu/~shalizi/Bernal/
- O Lugar do Homem na Natureza, de Pierre
Teilhard de Chardin é 1997, editado pelo Instituto Piaget
também em http://avoantes.blogspot.com/
_______________________________________________
Arquivos da Bib_virtual: http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/
Instruções para desiscrever-se por conta própria:
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/options/bib_virtual
Bib_virtual mailing list
[email protected]
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/listinfo/bib_virtual