Liberdade é direito fundamental na internet

Autor: Bernard Kouchner.

Fonte: O Estado de S. Paulo. Data: 14/05/2010.

Rede tem de ser considerada espaço internacional para evitar que regimes 
repressivos invoquem princípio da soberania

Em 2015, 3,5 bilhões de pessoas - o equivalente a metade da humanidade - terão 
acesso à internet. Nunca houve tamanha revolução na liberdade de comunicação e 
na liberdade de expressão. Mas como este novo meio será utilizado? Quais serão 
as novas distorções e obstáculos inventados pelos inimigos da internet? A 
tecnologia moderna nos proporciona o melhor e o pior. Sites e blogs 
extremistas, racistas e difamatórios disseminam discursos de ódio em tempo 
real. Eles transformaram a rede numa arma de guerra e intolerância. Páginas na 
internet são atacadas e usuários da web são recrutados para complôs destrutivos 
por meio de salas de bate-papo.

Movimentos violentos estão se infiltrando nas redes sociais para divulgar sua 
propaganda e informações falsas. Para as democracias, é muito difícil 
controlá-los. Não me incluo entre os ingênuos que acreditam que uma nova 
tecnologia, não importa o quão poderosa e eficiente, leva necessariamente a um 
avanço da liberdade em todas as frentes.

Seja como for, as distorções são a exceção, e não a regra. A internet é, acima 
de tudo, o mais fantástico meio para derrubar os muros e limites que nos isolam 
uns dos outros. Para os povos oprimidos que foram privados do seu direito de 
expressão e escolher o próprio futuro, a internet proporciona um poder que vai 
além de suas mais ousadas esperanças. Em minutos, notícias e imagens gravadas 
num telefone podem ser disseminadas por todo o mundo no ciberespaço. É cada vez 
mais difícil esconder uma manifestação pública, um ato de repressão ou uma 
violação dos direitos humanos. Em países autoritários e repressivos, celulares 
e internet abriram espaço para a opinião pública e a sociedade civil. Também 
deram aos cidadãos um meio fundamental de expressão, apesar de todas as 
restrições impostas.

Entretanto, a tentação de reprimir a liberdade de expressão está sempre 
presente. O número de países que censuram a internet, que monitoram os usuários 
da rede e os castigam por suas opiniões, cresce a um ritmo alarmante. A 
internet pode ser usada contra os cidadãos. Ela pode ser uma formidável 
ferramenta para a coleta de informações sigilosas para localizar dissidentes em 
potencial. Alguns regimes já estão adquirindo tecnologia de vigilância cada vez 
mais sofisticada.

Se todos aqueles que se dizem defensores dos direitos humanos e da democracia 
se recusassem a abrir mão de seus princípios e usassem a internet para defender 
a liberdade de expressão, a ocorrência deste tipo de repressão seria muito mais 
difícil. Não me refiro à liberdade absoluta que abre as portas para todo tipo 
de abuso. Ninguém está sugerindo a promoção desta ideia. Estou me referindo a 
uma liberdade real, que tenha como base o respeito à dignidade humana e aos 
direitos do homem.

União. Nos últimos anos, instituições multilaterais, como o Conselho da Europa, 
e organizações não-governamentais, como a Repórteres Sem Fronteiras, junto com 
milhares de indivíduos de todo o mundo, mostraram-se fortemente comprometidos 
com esses temas. Isso é prova - se é que uma prova ainda era necessária- de que 
a questão não coloca o Ocidente contra o restante do mundo. Reunidos para a 
Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, 180 países reconheceram que a 
Declaração Universal dos Direitos Humanos aplica-se integralmente à internet, 
especialmente no que se refere ao Artigo 19, que estabelece a liberdade de 
expressão e a liberdade de opinião. Ainda assim, 50 países mostram-se incapazes 
de honrar o compromisso estabelecido.

Por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, na semana passada, reuni 
especialistas, líderes de ONGs, jornalistas, empresários e intelectuais. Os 
debates entre eles confirmaram minha convicção de que o rumo que desejamos 
seguir é o mais correto. Acredito que devemos criar um instrumento 
internacional para monitorar cada país no cumprimento do compromisso 
estabelecido entre os governos, responsabilizando-os quando este não for 
honrado. Acho que devemos oferecer ajuda aos dissidentes cibernéticos, que 
devem receber o mesmo tratamento dispensado às outras vítimas da repressão 
política e, numa colaboração estreita com as ONGs que trabalham com tais temas, 
demonstrar publicamente nossa solidariedade para com eles. Acho que devemos 
debater a sabedoria de se adotar um código de conduta em relação à exportação 
de tecnologias de censura à internet e de rastreamento dos usuários da rede.

Questões como estas, além de muitas outras - como a proteção dos dados 
particulares na internet e o direito de anistia digital irrestrita, defendido 
pela minha colega Nathalie Kosciusko-Morizet -, devem ser abordadas num 
contexto que reúna governos, sociedade civil e especialistas internacionais.

Há outro projeto que admiro muito. Implementá-lo será uma tarefa demorada e 
difícil, mas crucial. A ideia é conferir à internet um status legal de reflita 
sua universalidade - que a reconheça como espaço internacional, para que seja 
mais difícil que os governos repressivos usem o argumento da soberania contra 
as liberdades fundamentais.

A questão é fundamental. Acho que a batalha das ideias teve início com os 
defensores de uma internet aberta e universal de um dos lados e, do outro lado, 
aqueles que querem transformar a rede numa multiplicidade de espaços isolados 
uns dos outros para servir aos desígnios de um regime, da propaganda e de todos 
os tipos de fanatismo.

A liberdade de expressão é "o alicerce de todas as outras liberdades". Sem ela, 
não há "países livres", disse Voltaire. Este espírito universal do Iluminismo 
deve ser transmitido à nova mídia. A defesa das liberdades fundamentais e dos 
direitos humanos elementares deve ser prioritária para a governança da 
internet. Trata-se de algo que diz respeito a todos nós. 

*Ministro Francês das Relações Exteriores e fundados da ONG Médicos sem 
Fronteiras. Matéria publicada originalmente na Global Viewpoint, com tradução 
de Augusto Calil. 

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
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