O parto do livro digital
Cláudio de Moura Castro

"A canibalização do livro em papel dá calafrios nas editoras,
embora as gravadoras tenham sido salvas pela venda digital"
Ilustração Atômica Studio
 
Não há razão alguma para uma pessoa possuir um computador em sua casa." Isso 
foi dito, em 1977, por K. Olsen, fundador da Digital. De fato, os computadores 
eram apenas máquinas de fazer contas, pesadas e caras. Mas, com os avanços, 
passaram também a guardar palavras. Aparece então a era dos bancos de dados. 
Tal como a enciclopédia de Diderot - que se propunha a armazenar todos os 
conhecimentos da humanidade -, tudo iria para as suas memórias. Mas não deu 
certo, pois a ambição era incompatível com a tecnologia da época. 
Os primeiros processadores de texto foram recebidos com nariz torcido pelos 
programadores. Um engenho tão nobre e poderoso, fingindo ser uma reles máquina 
de escrever? Não obstante, afora os usos comerciais e científicos, o PC virou 
máquina de guardar, arrumar e recuperar textos, pois lidamos mais com palavras 
do que com números. Como a tecnologia não parou de avançar, acelerou a migração 
de dados para as suas entranhas. Por que não os livros? O cerco foi se 
apertando, pois quase tudo já é digital. 
Para os livreiros, cruz-credo!, uma assombração. Guardaram na gaveta os 
projetos de livros digitais. Mesmo perdendo rios de dinheiro em fotocópias não 
autorizadas, a retranca persistiu. Havia lógica. Quem tinha dinheiro para ter 
computador preferia comprar o livro. Quem não tinha dinheiro para livro 
tampouco o tinha para computador. Mas o mundo não parou. Hoje os computadores 
são mais baratos é há mais universitários de poucas rendas. O enredo se parece 
com o das gravadoras de música, invadidas pela pirataria, mas salvas pelos 10 
bilhões de músicas vendidas pela Apple Store. Nos livros, a pirataria também é 
fácil. Por 10 dólares se escaneia um livro na China, e é incontrolável a venda 
de cópias digitais piratas, já instalada confortavelmente na Rússia. 
Nesse panorama lúgubre para os donos de editora, entram em cena dois gigantes 
com vasta experiência em vender pela internet. A Amazon lança o Kindle (que 
permite ler no claro, mas não no escuro), oferecendo por 10 dólares qualquer um 
dos seus 500?000 títulos digitais e mais 1,8 milhão de graça (de domínio 
público). Metade das suas vendas já é na versão digital. A Apple lançou o iPad 
(que faz mais gracinhas e permite ler no escuro, mas não no claro), vendendo 1 
milhão de unidades no primeiro mês do lançamento. Outros leitores já estão no 
mercado. É questão de tempo para pipocarem nos camelôs as cópias chinesas. E, 
já sabemos, os modelos caboclos estão por aparecer. Quem já está usando - com o 
aval dos oftalmologistas - garante que não é sacrifício ler um livro nessas 
engenhocas. As tripas do Kindle engolem mais de 1?000, substituindo vários 
caixotes de livros. 
Nesse cenário ainda indefinido, desponta uma circunstância imprevista. Com a 
crise, os estados americanos estão mal de finanças e a Califórnia quebrada, 
levando a tenebrosos cortes orçamentários. Para quem gasta 600 dólares anuais 
(por aluno) em livros didáticos, migrar para o livro digital é uma decisão 
fácil. Basta tomar os livros existentes e colocar na web. Custo zero? Quase. Um 
Kindle para cada aluno sai pela metade do custo. O governador da Califórnia é o 
exterminador do livro em papel. Texas, Flórida e Maine embarcam na mesma 
empreitada, economizando papel, permitindo atualizações frequentes e tornando o 
livro uma porta de entrada para todas as diabruras informáticas. E nós, cá 
embaixo nos trópicos? Na teoria, a solução pública é fácil, encaixa-se como uma 
luva nos livros didáticos, pode reduzir a cartelização e democratizar o acesso. 
Basta o governo comprar os direitos autorais e publicar o livro na web. Com os 
clássicos é ainda mais fácil, pois não há direitos autorais. 
No setor privado, as perplexidades abundam. Alugar o livro, como já está sendo 
feito? Não deu certo vender caro a versão digital. Vender baratinho? A 
canibalização do livro em papel dá calafrios nas editoras, embora as gravadoras 
tenham sido salvas pela venda digital. Muda a lógica da distribuição. Tiragens 
ínfimas passam a ser viáveis. O contraponto é o temível risco de pirataria. Não 
há trava que não seja divertimento para um bom hacker. Na contramão desses 
temores, Paulo Coelho se deu bem, lançando seu último livro gratuitamente na 
internet, junto com o lançamento em papel. Cava-se um túmulo para as editoras e 
livrarias? Vão-se os anéis e ficam os dedos? Ou abre-se uma caixa de Pandora 
fascinante? Só uma coisa é certa: o consumidor ganha.
 
Claudio de moura castro é economista
[email protected]
 
http://veja.abril.com.br/190510/parto-livro-digital-p-028.shtml
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