Correio Braziliense
Publicação: 24/05/2010 08:12
Nahima Maciel

Digitalização de livros aumenta no mundo  No Brasil, as bibliotecas na 
internet contribuem para a democratização da informação

O livro ainda não acabou, prateleiras de bibliotecas e livrarias 
continuam abarrotadas e nem o anúncio do sedutor iPad fez caírem os 
índices da lista dos mais vendidos do New York Times. Mas há, sim, uma 
batalha travada silenciosamente na galáxia do livro impresso. Enquanto 
se discute por aí se e-books vão substituir o papel, uma indústria 
paralela se prepara para digitalizar a maior quantidade de livros 
possível e coloca em pauta a mais importante das discussões sobre a 
ligação entre tecnologia e acesso à informação. Disponibilizar o 
conhecimento na web é democratizar a informação, mas como fazê-lo? E 
nesse campo de batalha há pelo menos dois fronts bem definidos. De um 
lado está a lógica comercial, que aceita o risco de burlar os direitos 
autorais. Do outro, as instituições apegadas à ética da preservação do 
objeto e seu autor.

Nos Estados Unidos, a Google passou por cima das leis de direitos 
autorais e digitalizou 12 milhões de livros. O que não está em domínio 
público fica indisponível na web, mas permanece integralmente armazenado 
nos discos rígidos da empresa para futura comercialização. Em Paris, a 
Biblioteca Nacional da França (BNF) criou o Gallica, sistema que 
armazena, online, mais de um milhão de livros e documentos. O Brasil 
ainda engatinha nessa trilha.

O projeto mais expressivo começou a ser realizado na Universidade de São 
Paulo (USP) no ano passado. A instituição disponibilizou na web 1.200 
volumes da coleção de 40 mil títulos doada por José Mindlin em 2006. A 
biblioteca digital intitulada Brasiliana pode ser consultada por 
qualquer pessoa com acesso à internet e é um braço de projeto mais amplo 
que envolve a construção de um prédio para receber o acervo de Mindlin.

O projeto de digitalização conta com financiamento de R$ 1,8 milhão do 
Ministério da Cultura e da Fapesp. Quase nada se comparado aos 14 
milhões de euros anualmente destinados ao projeto da francesa Gallica. 
Na França, toda compra de equipamentos audiovisuais implica o pagamento 
de imposto reservado para a digitalização do acervo da BNF.

Para montar a Brasiliana, a USP conta com um scanner robótico único na 
América Latina. Dotado de braço mecânico, o equipamento tem capacidade 
para digitalizar 2.400 páginas por hora. "Mas não estamos conseguindo 
atingir essa meta porque temos livros raros, delicados. Tenho conseguido 
colocar três livros novos por dia", conta Pedro Puntoni, diretor da 
Brasiliana. A intenção é colocar online todo o acervo livre de direitos 
autorais, aqueles livros que já estão em domínio público.

Políticas sólidas
Também em São Paulo, a Mario de Andrade, maior biblioteca pública do 
país, amarga a falta de políticas sólidas para o livro na era digital. 
Entre 2000 e 2006, a instituição conseguiu disponibilizar apenas 200 
obras raras e quatro mil do acervo de 3,3 milhões de itens. "É pouco. 
Mas temos projetos para digitalizar livros raros sobre o Brasil, são 
projetos que mandamos para a Fapesp", conta a bibliotecária Joana Moreno 
de Andrade, responsável pela seção de obras raras.

No Rio de Janeiro a situação traz um alento. Desde 2006, a Biblioteca 
Nacional (BN) tem laboratório próprio e equipe de oito pessoas para 
digitalização do acervo. O financiamento vem de instituições 
estrangeiras como a Unesco, a Mellon Foundation e a brasileira Finep. "A 
digitalização tem dois objetivos: acesso e preservação", diz Angela 
Bitencourt, coordenadora da Biblioteca Digital da BN. "Visamos 
democratizar o acesso à coleção, que representa a memória documental do 
país. É uma digitalização feita com mais cuidado, a captura tem que ser 
feita em qualidade alta para que esse arquivo digital possa ser cópia 
fiel do original." No site, o usuário tem acesso a 30 mil itens, entre 
eles cinco mil áudios e oito mil imagens.

Brasília no começo

A Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE/UnB), a maior da 
cidade, não tem projetos de digitalização do acervo físico de 500 mil 
livros. "Digitalizamos apenas as dissertações ainda em formato impresso 
e a produção dos pesquisadores. Nosso acervo de livros não está 
digitalizado nem vai estar tão cedo por causa do volume e do custo, que 
é muito alto", avisa Sely Costa, diretora da instituição.

A Biblioteca do Senado Federal é a única da cidade engajada em um 
programa de digitalização. É possível consultar em rede 180 das quatro 
mil obras raras da instituição. São mapas e relatos dos séculos 18 e 17, 
documentos históricos como a Nova orbis, que narra a expedição de 
Joannes de Laet à América e foi publicado em 1633. "Nossa capacidade 
varia de acordo com a qualidade dos documentos. Obras raras têm que ter 
manuseio cuidadoso, mas fazemos de seis mil a sete mil páginas por mês e 
o projeto começou em agosto de 2009", conta o bibliotecário André Luiz 
Lopes. Já na Biblioteca Nacional Leonel Brizola, nem mesmo o acesso ao 
acervo físico está liberado para os usuários.

Curiosidades online

Biblioteca Digital do Senado
Documentos e relatos sobre a expedição Cruls, cartas trocadas entre Dom 
Pedro I e Dom João VI na época do Brasil Império.

Biblioteca Brasiliana USP
É a única biblioteca pública no Brasil cujo acervo possui cinco livros 
de Francisca Júlia, poeta paulistana do início do século 20 importante 
para a história da literatura na cidade. A Brasiliana também colocou 
online toda a poesia de Vinicius de Morais, depois de um acordo com a 
família do compositor, que liberou os direitos autorais.

Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
A coleção de mais de duas mil fotografias da imperatriz Maria Thereza 
Chirstina está disponível no site. Cada imagem vem acompanhada de fichas 
detalhadas sobre a foto.

FONTE: 
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/05/24/diversaoearte,i=194035/DIGITALIZACAO+DE+LIVROS+AUMENTA+NO+MUNDO.shtml


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