Fator de impacto: o fetiche do cientista

21/05/13 - 15:56
POR RAFAEL GARCIA

Capas de algumas das revistas científicas indexadas com maior fator de
impacto (Imagem: reprodução)
POUCA COISA NO MUNDO é mais imprecisa do que a cientometria, a ciência que
usa números para medir a qualidade da ciência. Essa disciplina tem seu
mérito e sua utilidade, mas é vítima de uma ironia da condição humana:
estudos científicos são trabalhos que buscam construir conhecimento com a
maior objetividade possível, mas só podem ser avaliados com justiça quando
alguém tem paciência para analisá-los um por um, subjetivamente, sem apelar
demais para os números da cientometria.

Apesar de essa afirmação soar paradoxal, a maioria dos cientistas tende a
concordar com ela. Os abusos cometidos contra esse princípio, porém, são
tão comuns que motivaram agora uma campanha ética na comunidade acadêmica.
Um grupo de pesquisadores está querendo acabar com o uso indiscriminado do
chamado fator de impacto, o índice cientométrico considerado por muitos a
medida da qualidade de uma revista científica.

Num manifesto batizado de DORA (Declaração sobre Avaliação de Pesquisas,
acrônimo em inglês), lançado em San Francisco, um grupo de cientistas pede
que o fator de impacto das revistas em que estudos são publicados deixe de
ser usado em decisões importantes. O documento pede que esse índice seja
ignorado em decisões sobre contratação, premiação, promoção e financiamento
de cientistas.

Para entender o problema em torno do fator de impacto, é preciso conhecer
um pouco melhor a dinâmica das referências que cientistas fazem uns aos
outros em trabalhos científicos. A base da cientometria está na análise das
redes de citações —as menções que um estudo faz a outros estudos. Trabalhos
mais importantes tendem a ser mais citados que trabalhos irrelevantes, e
toda a lógica da cientometria se constrói em cima disso. O que ela nem
sempre leva em conta, porém, é que cientistas sabem como alavancar
artificialmente as citações a seus próprios trabalhos.

Um pesquisador pode pedir a um colega que o cite para depois retribuir o
favor. E se um cientista fatiar o resultado de uma pesquisa em vários
estudos (em vez de publicar tudo num único trabalho mais completo), pode
vir a receber mais citações. Usando essas táticas de mérito duvidoso, um
pesquisador pode turbinar sua produtividade e sua aparente influência
quando estas forem estimadas partir do número de citações por estudo
publicado.

Há alguns métodos estatísticos para impedir que distorções apareçam, mas a
eficácia de cada um depende muito da área da ciência à qual é aplicado.
Algo que costuma ser aceito como um selo de qualidade de um estudo, porém,
é o fator de impacto da revista em que o trabalho é publicado. O fator de
impacto é medido pelo número total de citações que uma revista recebe em
dois anos dividido pelo número total de artigos publicados no período.

A aceitação em um revista de alto impacto é encarada com um cartão de
visitas de gala para um estudo. A disputa para entrar nessas publicações é
acirrada, e os comitês que analisam os artigos submetidos costumam ser
muito rigorosos. Cientistas com muitos trabalhos publicados em periódicos
como “Science” e “Nature”, por fim, acabam se cacifando para ocupar cargos
mais altos e receber verbas maiores.

Mas há uma coisa na ciência que é um segredo de polichinelo: a vasta
maioria dos estudos publicados em revistas de alto impacto, na verdade, não
é muito influente.

O “Journal of Cell Biology”, uma revista de alto impacto que se comprometeu
a adotar as medidas propostas pelo DORA, explica o problema em seu
editorial desta semana: “O fator de impacto de uma revista científica pode
ser impulsionado por apenas uns poucos artigos altamente citados, mas todos
os artigos publicados em uma dada revista, mesmo aqueles que nunca são
citados, são tidos como detentores do mesmo impacto.”

O problema em atribuir importância demais às revistas em que um pesquisador
publica seus estudos é que isso gera uma cultura de menosprezar outros
critérios de avaliação curricular. O DORA ressalta que os resultados da
pesquisa científica são muito variados e não se resumem a artigos. Uma
pesquisa pode criar bancos de dados, softwares, novos materiais e métodos
de pesquisa, além de servir para treinar novos cientistas.

Essa campanha ética começou no campo da biologia celular por ser uma área
onde o fetiche do fator de impacto é particularmente nocivo, mas isso se
estende por todas as ciências naturais. Outro problema por trás dos fatores
de impacto é que áreas da ciência muito concorridas tendem a ver a formação
de “panelinhas” de cientistas que dominam algumas das publicações mais
disputadas. Isso não é novidade, e todo pesquisador sabe disso.

Um dos problemas apontados no manifesto é que muitos estudos preferem citar
artigos de revisão no rodapé, em vez de usarem referências a descobertas
originais. Isso prejudica o mérito individual de estudos realmente
inovadores e faz com que várias revistas com a palavra “review” no nome
adquiram impacto altíssimo.

Justiça seja feita, a culpa de tudo isso não é da cientometria. O fator de
impacto foi criado para orientar bibliotecas sobre quais revistas assinar,
não para avaliar a qualidade da ciência publicada nelas. A própria Thomson
Reuters, empresa que faz o levantamento sobre fator de impacto hoje
reconhece isso em sua definição sobre o índice. E uma das recomendações
mais diretas do DORA é que revistas deixem de alardear seus fatores de
impacto em suas campanhas promocionais.

Resta saber se a campanha contra o fator de impacto vai sensibilizar a
comunidade científica. Se o movimento ficar restrito a uma meia dúzia de
pesquisadores, instituições e publicações, aqueles que aderirem podem sair
prejudicados no fim. Mas algumas grandes revistas já assinaram o manifesto,
incluindo a “Science”, que publicou um editorial sobre o assunto. A
“Nature” rejeitou o documento, alegando que há itens demais agrupados numa
declaração só, o que generaliza demais o problema. Uma demanda do DORA
claramente difícil de atender é que a Thomson Reuters abra de graça o banco
de dados que usa para calcular o fator de impacto. A “Nature” se declara
contrária a abusos no uso do fator de impacto, porém, e já reforçou o ponto
em vários editoriais.

Agências de fomento de pesquisa, como o brasileiro CNPq, têm procurado
adotar critérios mais específicos e menos cientométricos para conceder suas
“bolsas de produtividade em pesquisa”. Mas isso não impede que revisores
individuais deixem de ser seduzidos por fatores de impacto maiores.

Pessoalmente, tendo a concordar com alguns argumentos da “Nature” para não
assinar o documento. Independentemente do fator de impacto, algumas
publicações sempre terão mais prestígio que outras. E é bom que exista um
mercado onde diferentes cientistas disputem espaço por mais atenção.
Jornalistas sabem que a probabilidade de uma pesquisa importante sair na
“Science” é muito maior do que no “Australasian Journal of Applied
Nanoscience”.

Com o financiamento à ciência mundial ainda abalado pela crise, não está
claro se medidas paliativas como essa vão diminuir o clima de canibalismo e
de vale-tudo que está se instaurando em algumas áreas da ciência. Mas se
alguém tem de sair perdedor, que pelo menos as regras do jogo sejam mais
claras. O DORA tem um mérito importante nesse aspecto.

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PS. Osame Kinouchi, do blog Semciência, levanta uma questão interessante,
pertinente ao universo brasileiro das avaliações acadêmicas: “A CAPES
ranqueia os programas de pós-graduação usando o fator de impacto das
publicações do programa, o assim chamado QUALIS. Imagino que aceitar o DORA
significa rejeitar o QUALIS. Ou não?”

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