Mudança de rumo na organização internacional da Internet.

As principais instituições de Internet abandonam o governo dos EUA
Publicado por admin em 14/10/13

Por Milton Müller, do Internet Governance Project*

11 de outubro de 2013 - Em Montevidéu, Uruguai, esta semana, os diretores
de todas as principais organizações da Internet -ICANN<http://www.icann.org/>,
a Força-Tarefa de Engenharia da Internet (IETF <http://www.ietf.org/>), o
Conselho de Arquitetura da Internet (IAB <http://www.iab.org/>), o
Consórcio World Wide Web (W3C <http://www.w3.org/>), a Internet Society (
ISOC <http://www.isoc.org/>), todos os cinco registradores regionais de
endereços IP da Internet (AfriNIC
<http://www.afrinic.net/>,APNIC<http://www.apnic.net/>
, ARIN <https://www.arin.net/>, LACNIC <http://www.lacnic.net/> e
RIPE/NCC<http://www.ripe.net/>)
-- voltaram suas costas ao governo dos EUA. Com unanimidade marcante, as
organizações que realmente desenvolvem e administram os padrões e recursos
da Internet iniciaram uma ruptura com o domínio dos EUA sobre a governança
da Internet que já vem de três décadas.

Um 
Comunicado<http://www.icann.org/en/news/announcements/announcement-07oct13-en.htm>
divulgado
pelo grupo defende a "aceleração da globalização das funções da ICANN e da
IANA, para chegar a um ambiente no qual todas as partes interessadas,
incluindo todos os governos, participem em pé de igualdade." Essa parte da
declaração constitui uma rejeição explícita da supervisão unilateral da
ICANN pelo Departamento de Comércio dos EUA do Comércio dos EUA através do
contrato IANA. Ela também ataca indiretamente a abordagem unilateral dos
EUA na Afirmação de
Compromissos<http://www.icann.org/en/about/agreements/aoc> --
o pacto entre os EUA e a ICANN que prevê revisões periódicas de suas
atividades pelo Comitê Assessor de Governos (GAC) e outros membros da
comunidade da ICANN. (A Afirmação foi concebida como um acordo entre a
ICANN e os EUA exclusivamente -- não teria sido difícil permitir que outros
governos a assinassem também.)

Ressaltando o alcance internacional e a determinação do grupo de ter um
impacto global, o Comunicado de Montevidéu foi divulgado em inglês,
espanhol, francês, árabe, russo e chinês. Em conversas com alguns dos
participantes da reunião de Montevidéu, ficou claro que eles estavam
pensando em novas formas de supervisão pluralista como um substituto para a
supervisão dos EUA, embora nenhum plano detalhado tenha sido apresentado.

Mas isso foi só o começo. Um dia após a declaração de Montevidéu, o
presidente e CEO da ICANN, Fadi Chehadé -- o homem aceito pelo governo dos
EUA para liderar sua instituição central da governança da Internet --
reuniu-se com a presidenta brasileira Dilma Rousseff. E nesta reunião,
Chehadé empenhou-se em uma audaciosa diplomacia privada. Ele pediu que "a
presidenta [do Brasil] leve sua liderança a um novo nivel, para assegurar
que trabalhemos juntos em torno de um novo modelo de governança no qual
todos são iguais." Um comunicado de imprensa do governo brasileiro informou
que a presidenta Dilma Rousseff propôs umareunião de
cúpula<http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-10-09/brasil-sediara-conferencia-mundial-sobre-governanca-da-internet-em-2014>
da
Internet a ser realizada em abril de 2014 no Rio de Janeiro.

Assim, o presidente da ICANN não só aliou-se a uma figura política que tem
feito fortes críticas ao governo dos EUA e ao programa de espionagem da
NSA, como articulou com ela a convocação de um encontro global para começar
a forjar um novo sistema de governança da Internet que possa ir além do
velho mundo da hegemonia dos EUA.

Não tenham dúvida: isto é importante. É a mais recente, e uma das
manifestações mais significativas das consequências das revelações de
Snowden sobre a espionagem da Internet global pela NSA. Uma coisa é quando
o governo do Brasil, um antagonista de longa data sobre o papel dos EUA na
governança da Internet, fica indignado e faz ameaças por causa das
revelações. E, claro, o regozijo de representantes da União Internacional
de Telecomunicação (UIT <http://www.itu.int/>) poderia ser esperado. Mas
isto é diferente. O Estado brasileiro está agora em aliança com os
porta-vozes de todas as instituições de Internet que constituiram-se com o
desenvolvimento da rede, os representantes do mesmo "modelo pluralista
(multistakeholder)" que os EUA se propõem a defender. Você sabe que você
cometeu um grande erro, um erro que muda sua vida, quando seus próprios
filhos o abandonam em massa.

Também notável é a disposição da presidenta do Brasil em aliar-se
abertamente às instituições internacionais de Internet. Há atores
politicamente influentes dentro do governo brasileiro, especialmente a
agência reguladora de telecomunicações, Anatel <http://www.anatel.gov.br/>,
que gostariam de trazer a zona-raiz do
DNS<http://en.wikipedia.org/wiki/DNS_root_zone> para
o âmbito da UIT, que odeiam a ICANN, e não gostam de modelos
pluriparticipativos de governança. A visão destes agentes é apoiada pelo
oligopólio transnacional das telecomunicações que controla as principais
redes do Brasil. A presidenta Dilma Rousseff tomou uma posição corajosa
contra estas forças e em favor de princípios pluralistas. Receber o CEO da
ICANN e sair do encontro com a proposta de uma reunião de cúpula foi também
um importante marco político para ela nessas disputas políticas internas.

Nós do IGP só poderíamos manifestar uma satisfação impiedosa com esse rumo
que as coisas tomaram. Temos insistido há quase dez anos que o governo dos
EUA deveria acabar com seu rol privilegiado e concluir a desestatização da
gestão do DNS. Temos argumentado que o substituto adequado para a
supervisão unilateral do Departamento de Comércio seria, não uma
"supervisão política" multilateral, mas um acordo internacional articulando
regras claras sobre o que a ICANN pode e não pode fazer, um acordo que
proteja explicitamente a liberdade de expressão e outros direitos
individuais, bem como os princípios de governança aberta da Internet.
Ouvimos todos os argumentos imagináveis sobre por que isso não tem que
acontecer: eles disseram que ninguém realmente se importava com a
governança da raiz DNS, disseram que não havia alternativa melhor, disseram
que o resto do mundo secretamente queria que os EUA fizessem isso etc etc.
Uma combinação de arrogância, complacência e pressão política interna
impediu qualquer ação.

Tivesse esse conselho sido ouvido, tivessem os EUA tentado desfazer-se de
sua supervisão unilateral por sua própria iniciativa, poderia ter exercido
algum controle sobre a transição e feito valer seus apreciados valores de
liberdade e democracia. Poderia ter assegurado, por exemplo, que uma ICANN
independente fosse sujeita a limites claros sobre a sua autoridade e a
novas formas de prestação de contas, algo muito necessário. Agora, os EUA
perderam a iniciativa, irremediavelmente. A evolução futura da governança
de nomes e números da Internet, pelo menos, não é mais para eles.

Nilton Bahlis dos Santos
Coordenador do Núcleo de Experimentação de Tecnologia Interativa (Next)
Professor Permanente do PPGICS/Icict
Professor Colaborados do PPGEBS/IOC
http://www.next.icict.fiocruz.br/wiki
Coordenador do NIT do Icict Fiocruz e Professor Permanente do PPGICS
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