Essa é a Explicação Tradicional — Santo Agostinho, oito séculos antes que S. Tomás, recolhe dos Santos Padres e primeiros escritores cristãos o verdadeiro conceito de milagre: seria absurdo afirmar que Deus agiria contra a natureza. Como afirma o santo, só o preconceito dos ímpios, a falta de inteligência dos débeis, e — acrescento — a ingenuidade dos teólogos modernistas saem dos trilhos: "Para a lei soberana da natureza, elevada por cima da inteligência dos ímpios e dos débeis, Deus não pode agir contra ela pois seria agir contra Si mesmo". E em outro lugar: Os milagres "dizemos que S. contra a natureza, mas não S.. Com efeito, como poderia ser contra a natureza o que é feito por vontade de Deus? (…) Portanto, o prodígio é feito não contra a natureza, senão contra aquilo que é conhecido na natureza"51.

Reta Explicação — As últimas palavras da frase original de Santo Agostinho ("contra quam est nota natura") S. de construção difícil e mesmo ambígua em latim, e ainda de muito mais difícil tradução literal. E muito freqüentemente foi mal interpretada e, portanto, indevidamente citada pelos racionalistas e modernistas.

Por todo o contexto refere-se na realidade a Outra Força, sobrenatural, agindo por cima e fora das leis da natureza: supranormal. E assim o explica Santo Agostinho em numerosas outras passagens. Por exemplo: "Quando Deus faz qualquer coisa fora do curso conhecido e habitual da natureza, chamam-se coisas grandiosas ou admiráveis", isto é, milagres52.

E, como prevendo as tergiversações dos racionalistas e modernistas, no mesmo sentido traduz e glosa até insistentemente aquela frase, completa, nada menos que o insuperável Bento XIV: De acordo com "Santo Agostinho (…), pelo costume humano se diz que é contra a natureza aquilo que é contra o usual da natureza conhecido pelos mortais (…) Disse que é contra a natureza aquilo que é contra o costume da natureza, como o compreende o conhecimento humano, etc. Deus, porém, criador e conservador de todas as coisas naturais, nada faz contra a natureza (…) D‘Ele procede todo equilíbrio, medida e ordem da natureza, etc. Mas não sem sentido dizemos que Deus faz contra a natureza alguma coisa que faz contra o que conhecemos na natureza. Porque esta chamamos natureza: o curso conhecido por nós e habitual da natureza, quando Deus faz alguma coisa contra o qual, S. chamadas coisas grandiosas e admiráveis"53. Da mesma forma — como explica Bento XIV no mesmo lugar —, só para acomodar-se ao modo humano de falar é que S. Paulo diz que "contra a natureza estás enxertado em boa oliveira" (Rm 11,24).

Após a pergunta "como poderia ser contra a natureza o que é feito pela vontade de Deus…?", pulei outras palavras de Santo Agostinho: "… sendo que a vontade do Criador soberano constitui a natureza de cada coisa criada". A frase, fora de contexto, oferece-se a ambigüidade. E claro está que os negadores do milagre, racionalistas e modernistas, a interpretaram mal:

+++ Seguindo Hume, preconceituosamente uns, ingenuamente outros, consideraram que a frase do santo e sábio bispo de Hipona significava simplesmente uma afirmação do direito do divino Legislador de modificar (?), inclusive corrigir (!?) as leis que Ele mesmo estabeleceu.

— Segundo estas interpretações erradas, a frase agostiniana ou ficaria inútil na polêmica por teoricamente evidente, ou então raiaria os limites da blasfêmia.

Na realidade o sentido na mente e contexto de Santo Agostinho é completamente diferente. Equiparam-se o milagre e qualquer outro ato criador. Ambos S. da mesma ordem, ações imediatas do poder divino.

Ora, a criação não poderia ir contra lei nenhuma, porque nada se opõe ao que não existe. Antes da criação da natureza e do estabelecimento da lei, não existe nem natureza nem lei. Da mesma maneira o milagre, para nós, parece vir depois da natureza e da lei; mas para Deus o milagre é um fenômeno imediato. O milagre está fora da natureza e da lei. Onde as coisas da natureza (ou causas segundas) não constituem ponto de partida, aí a lei e a natureza igualmente não têm nada a realizar.

Portanto, a definição de Hume e seus seguidores como sendo o milagre uma transgresS. da lei por vontade de Aquele cuja vontade faz a lei, é uma idéia extravagante, sem sentido54.

Confirmações — Partindo do ensinamento da Sagrada Escritura e da tradição judaica, um grande pensador judeu medieval, Saadia Gaon (882-942), coincide exatamente com a explicação transmitida por Santo Agostinho. Saadia muito inteligentemente prova que o milagre é uma irrupção excepcional de Deus na natureza. E insiste, também muito acertadamente, em que os milagres S. para justificar a veracidade da doutrina ensinada pelos profetas55.

*** Lamentavelmente Saadia escorrega num aspecto periférico ou menos importante. Avicena (980-1037) e outros filósofos árabes cairão e confirmarão mais adiante um erro já insistentemente difundido entre os pensadores judeus e árabes no tempo de Saadia e muito antes, influídos por premissas neoplatônicas e estóicas: pensavam que os profetas bíblicos simplesmente tinham poderes próprios, humanos, com os quais adivinhavam e inclusive podiam transformar a natureza das coisas, e tais poderes seriam erradamente considerados milagres de Iahweh. Saadia, no anseio de refutar tão pernicioso erro, que acabaria com toda base racional da Revelação Bíblica, acerta ao afirmar que os milagres S. esporádicos. Mas escorrega ao pensar que por serem esporádicos já fica provado que não S. qualidades do profeta56.

— Tudo em parapsicologia é para = à margem da psicologia, do comum. E não por isso deixam de ser naturais poderes (incontroláveis e inconscientes) do próprio homem.

*** O perfeito conceito de milagre, de Saadia, como sendo uma intervenção direta de Deus foi exagerado e generalizado entre muitos judeus. E tal exagero ou generalização era e é comum e tradicional principalmente entre os muçulmanos asharitas. O universo, todo inteiro, seria governado, instante por instante, pela ação onipotente de Deus. Não haveria lei nenhuma da natureza. Tudo na natureza seria ação contínua e direta de Deus57.

— Creio que esses pretendidos seguidores de Saadia, por não entender bem seu mestre, não souberam compreender a realidade. E certamente da mesma dificuldade surgiu o erro dos asharitas. É evidente o determinismo (relativo) da natureza, a natureza evidentemente tem suas leis. E eles não souberam conciliá-lo com a freqüente intervenção de outras forças da natureza, dos animais, dos homens e, com absoluto direito, de Deus!: determinismo relativo. E assim caíram num de dois extremos. 1) Afirmaram cegamente que nenhuma lei pode não chegar ao seu efeito: determinismo absoluto ou naturalismo absoluto. 2) Ou então caíram no ocasionalismo absoluto ou indeterminismo absoluto: negam cegamente a natureza pelo mesmo que negam todas suas leis. Toda a segunda parte deste livro, ao analisarmos os grandes (?) argumentos (?) dos racionalistas, deixará claros estes temas.

Mas naquela generalização, errada, podemos encontrar analogicamente um fundo de verdade. Todo e cada um dos acontecimentos do mundo físico seria idêntico ao que, fora do islamismo asharita e desse grupo de judeus, é chamado milagre. E tudo o que, fora dos asharitas e grupo judaico, é chamado milagre é idêntico a qualquer fenômeno da natureza. E nos dois aspectos não haveria violação de nenhuma lei, pois não haveria lei nenhuma, senão a vontade criadora e ordenadora em tudo e direta de Deus.

Já na segunda parte do século XII, Maimônides, de seu nome hebraico Moshé ben Maimon (1138-1204), ao comentar a Mishnah (coleção e síntese das opiniões dos antigos rabinos, publicada no século III pelo patriarca R. Judah, "o santo"), levará de volta os pensadores e o povo judeus ao conceito de milagre que Saadia acertadamente defendeu58. E, também como Saadia, Maimônides defende que é o milagre que faz razoável aceitarmos a Revelação: "A Religião nos fez conhecer algo que somos incapazes de conceber, e o milagre testemunha o que acreditamos"59. S. o conceito e finalidade mais profundamente bíblicos, patrísticos, tradicionais, o mesmo conceito que umas páginas acima vimos exposto por Santo Agostinho e comentado por Bento XIV.

Sem o exagero judaico e muçulmano, isso é o milagre. O milagre não nega a natureza. "O milagre está fora da natureza e da lei" (Santo Agostinho).
[continua]

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