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O determinismo, Efeitos contr�rios � natureza A LUTA CONTINUA" � Pareceria que a pol�mica sobre os milagres teria de terminar, uma vez definido com preciS. o conceito. Os racionalistas, seguidos pelos modernistas, haviam atacado no plano meramente te�rico, "deram murros no ar", pois nem sequer sabiam o que estariam a negar, e assim nunca se assomaram ao estudo dos fatos. Caberia esperar que cantassem vit�ria os tradicionalistas, os defensores do milagre, pois sabiam bem o que estavam defendendo e durante s�culos haviam-se debru�ado sobre o estudo dos fatos. Mas n�o foi e n�o � assim. Por dois motivos. 1) Primeiro porque o mesmo preconceito que havia arrastado a maioria dos racionalistas � crassa "ignor�ncia" de "acreditar" que o verdadeiro conceito de milagre estava expresso na defini��o esp�ria inventada por alguns deles mesmos; esse mesmo preconceito manteve grande n�mero de racionalistas na hip�crita "ignor�ncia" do verdadeiro conceito de milagre, e mant�m at� hoje os modernistas repetindo ing�nua e "magistralmente" a esp�ria defini��o. "�poca triste a nossa em que � mais dif�cil quebrar um preconceito do que desintegrar um �tomo!" (Albert Einstein). 2) E segundo, porque a outra parte dos racionalistas, os que conheciam a verdadeira no��o de milagre, afirmaram que, precisamente por conhec�-la, consideraram imposs�vel o milagre. Imposs�vel do ponto de vista da ci�ncia de observa��o, imposs�vel do ponto de vista da filosofia, imposs�vel do ponto de vista da teologia. Imposs�vel de todos os �ngulos. E tudo isso, geralmente sem nada acrescentar, continuam a repetir, de boca cheia, os modernistas. � o que passamos a analisar nesta segunda parte deste livro1. A IMUTABILIDADE DE DEUS � O fil�sofo judeu holand�s, Bento de Spinoza, passa por ser o primeiro, na segunda metade do s�culo XVII, que insistiu em que aceitar a possibilidade do milagre seria uma blasf�mia, um sacril�gio. Equivaleria a negar a imutabilidade divina. Spinoza n�o se apoiava, contra o que poderia parecer, na esp�ria defini��o de milagre: "derroga��o, suspenS. ou viola��o das leis da natureza". N�o caiu ele nesse erro, propriamente. O erro de base foi muit�ssimo maior: Spinoza caiu no absurdo pante�smo. Para ele Deus e a natureza se identificam! *** Tudo o que existe seria uma �nica subst�ncia infinita2. "Portanto as leis universais da natureza (�) se deduzem da necessidade e perfei��o da natureza divina (�) O poder da natureza (�) o mesmo poder e pot�ncia divina. E a pot�ncia divina (�) a mesm�ssima ess�ncia de Deus." Com esse absurdo pressuposto, claro que o milagre n�o seria poss�vel, porque Deus � a Natureza � n�o pode modificar-se. E assim Spinoza pretendia revisar completamente a interpreta��o da B�blia3. � � compreens�vel que com semelhantes disparates Spinoza fosse considerado ateu: "Para o pante�sta tudo � Deus. menos o pr�prio Deus!", porque estaria, como tudo, sujeito a mudan�a. E Spinoza foi expulso da Sinagoga. O PANTE�SMO � Quem aceita o absurdo pante�smo, logicamente (se � que entre esses poetas a l�gica sempre tivesse sentido!) rejeita completamente a possibilidade do milagre. Por exemplo Lao-tse, fundador do tao�smo, na China, no s�culo VI ou V a.C., identifica a Divindade (Tao) com a cont�nua a��o e livre jogo das leis e for�as da natureza. Portanto nem o homem nem algum outro ser pode de maneira nenhuma incidir sobre as for�as da natureza, porque seria perturbar a harmonia da divindade. Qualquer a��o n�o passaria de mera iluS.! � por isso que o s�bio ou m�stico no tao�smo, no budismo, no hindu�smo etc. tem de ser um inerte! Refugiam-se na inatividade e dedicam-se (?) � medita��o inativa ou oca para a compreenS. (?) de Deus. DE NOVO SPINOZA � Agora em l�gica conseq��ncia de seu absurdo pante�smo, Spinoza na sua obra principal insiste na impossibilidade do milagre. E quer que todo o mundo modifique sua forma de pensar a respeito das coisas e acontecimentos da natureza. A impossibilidade que primeiro deduzira da imutabilidade de Deus, agora a deduz do ponto de vista da natureza. D� na mesma. "Porque as coisas particulares nada mais S. que afec��es dos atributos de Deus, ou modos para diz�-lo de outra maneira."4 Estes modos ou afei��es (as coisas particulares da natureza) S. imut�veis, S. determinados, porque identificados com a ess�ncia divina. A conting�ncia, a modifica��o, o milagre est�o banidos da realidade5. O DE�SMO � A mesma nega��o da possibilidade do milagre por raz�o da imutabilidade divina, que Spinoza deduzia logicamente do seu errado pante�smo, outros a repetem, do s�culo XVIII em diante, pretendendo deduzi-la, sem l�gica, do erro diametralmente oposto: o de�smo. Os de�stas n�o identificam o Criador e as criaturas, aceitam a exist�ncia de Deus pessoal. Mas caindo no outro extremo, imaginam Deus completamente alheio ao nosso mundo. Um Deus fechado na Sua grandeza, que na realidade seria sem amor nem teria "capacidade" de ocupar-se das suas min�sculas criaturinhas, os seres humanos. Nem Revela��o b�blica, nem milagres, nem Provid�ncia. Para eles n�o h� mais religi�o que o pequeno conjunto de normas morais pr�prias de todo o g�nero humano. O de�smo nasceu na Inglaterra: Toland, Tindal, Collins. E logo se alastrou pela Europa capitaneado por Voltaire na Fran�a e Lessing na Alemanha. Voltaire no s�culo XVIII: "� imposs�vel pensar que a natureza divina trabalhe por alguns homens em particular e n�o por toda a humanidade" (o milagre particular n�o � em benef�cio de toda a humanidade?). "Na realidade o pr�prio g�nero humano � bem pouca coisa, em confronto com os seres que enchem a imensid�o, muito menos que um pequeno formigueiro (em tamanho sim, mas um s� homem, espiritual e elevado a filho de Deus!, vale mais que toda a imensa natureza material). Ora, n�o � acaso a mais absurda das loucuras imaginar que o Ser infinito subverta o jogo eterno das for�as imensas que movem todo o universo (um milagre� mesmo que seja de revitaliza��o de um morto!, causa toda essa subverS.?) a favor de tr�s ou quatro centenas de formiguinhas esparsas neste punhado de fango?"6.
SARTA DE DISPARATES � Sobre a verdade da imutabilidade divina, mal entendida, os de�stas sobrepuseram suas deturpa��es e preconceitos. Foram imediatamente endossados pelos racionalistas, ou podemos considerar os de�stas como mais uma esp�cie de racionalistas. * Continua Voltaire sua desvairada argumenta��o: "Deus n�o poderia alterar sua m�quina sen�o para faz�-la andar melhor. Ora, � claro que sendo Deus Ele fez esta imensa m�quina t�o boa quanto p�de (?). Se Ele viu alguma imperfei��o (o preconceito � t�o cego que nega as imperfei��es?) resultante da natureza da mat�ria, Ele haveria providenciado desde o come�o. Assim, Ele n�o cambiar� jamais nada" (�) "Por que Deus faria um milagre? Para chegar ao cabo de um determinado des�gnio sobre alguns seres vivos? Ele estaria dizendo ent�o: �Eu n�o consegui com a constru��o do universo, com meus decretos divinos, pelas minhas leis eternas preencher um determinado des�gnio; tenho de alterar minhas id�ias eternas, minhas leis imut�veis para tentar executar o que n�o consegui fazer com elas� ("murros no ar": s� os racionalistas dizem que o milagre � para consertar falhas). Isso seria uma confisS. de Sua debilidade, e n�o do Seu poder (�) Assim, pois, ousar atribuir a Deus milagres equivale a Lhe dizer: �V�s sois um ser d�bil e inconseq�ente�" (�) "Um milagre � a viola��o (?) das leis divinas matem�ticas, imut�veis, eternas. Isto basta para fazer compreender que um milagre � uma contradi��o em termos. Uma lei n�o pode ser ao mesmo tempo imut�vel e violada"7. * Escrevia o ex-seminarista Ren�n, no s�culo XIX: "O que n�s negamos S. as interven��es particulares de Deus, semelhantes �s de um relojoeiro que haveria feito, � verdade, um rel�gio muito bonito, mas que n�o obstante precisaria retom�-lo de vez em quando nas suas m�os para suprir a insufici�ncia da engrenagem"8. * E pouco depois, j� no nascimento do s�culo XX, P. Saintyves come�a por expor, embora um pouco ironicamente, a posi��o dos tradicionalistas: "Os te�logos, hoje ao menos e aqueles que representam a velha tradi��o escol�stica e oficial, S. realistas. Para eles, as leis S. rela��es necess�rias (�) As leis da natureza S. imperativos inelut�veis para o homem que lhes est� submetido, mas revog�veis por Deus que as imp�e". E continua, agora disparatando, contra a possibilidade do milagre: "O determinismo � assim corrigido pelo arb�trio divino (�) Este conceito � indubitavelmente impressionante e grandioso, mas � em contrapartida grotescamente antropom�rfico. Representa Deus que, � imagem do homem, procede a golpes de decretos sucessivos e inclusive contradit�rios; que constr�i, e pode corrigir Sua constru��o; cobre o campo e a montanha de flores e de frutos, e depois, repentinamente, para castigar suas criaturas, respira a tempestade e desola tudo com Seu sopro tremendo"9. *** "A finalidade do milagre � incompat�vel com Deus", dizem. � Mas de onde � que os de�stas, endossados pelos racionalistas e seguidos pelos modernistas, deduziram a finalidade do milagre? De onde tiraram que o milagre existe para corrigir defeitos da m�quina? Qual seja a finalidade, e todas as caracter�sticas, do milagre s� se pode deduzir da an�lise dos pr�prios milagres. Em toda esta cole��o deveremos nos debru�ar na an�lise dos fatos. � do estudo acurado dos pr�prios milagres que poderemos deduzir e compreender qual seja a sua finalidade. No �ltimo volume. � a partir dos fatos que se elaboram as teorias, mas racionalistas e modernistas n�o estudam os fatos supranormais ou milagrosos, supondo que n�o existem. Por teorias negam os milagres; ora, as teorias nada valem contra aos fatos. � Se o milagre fosse essa caricatura pintada pelos racionalistas e modernistas, todo pensador medianamente inteligente o consideraria incompat�vel com a sabedoria, dignidade, imutabilidade�, com todas as perfei��es divinas. Mas o milagre nada tem a ver com essa caricatura grotesca, ignorante se n�o fosse mal-intencionada. Os racionalistas e modernistas, como muito bem retrucava o excelente parapsic�logo pe. Zacchi, "d�i diz�-lo, d�o provas de uma imperdo�vel leviandade, combatendo um �milagre� que nenhum verdadeiro apologeta crist�o h� jamais sonhado em defender (�) N�o � para corrigir e retocar a m�quina do mundo, n�o � para faz�--la caminhar melhor, que Deus interv�m extraordinariamente no curso dos fen�menos. N�o � corrigir nada, nada melhorar"10. � outra a natureza e a finalidade do milagre.
PIOR QUE NO PAGANISMO � Na realidade o de�smo n�o faz mais que repetir e exagerar a ess�ncia de todas as mitologias extra-b�blicas e pr�-crist�s. Parece prov�vel que o fil�sofo por antonom�sia, Arist�teles, n�o dedicou tempo a refletir sobre o tema. Simplesmente transmite a mentalidade de alguns fil�sofos do seu tempo. Por um lado, chegaram logicamente a compreender que s� pode haver um �nico Deus (se houvesse dois, necessariamente ao menos um deles n�o seria onipotente, nem absoluto�: contraditoriamente n�o seria Deus). Mas por outro lado julgavam erradamente que n�o corresponderia � infinita e absoluta transcend�ncia de Deus que sa�sse da contempla��o de seu Ser infinito para ocupar-se das min�cias dos seres inferiores. Achavam que seria uma imperfei��o de Deus conhecer e ocupar-se das coisas imperfeitas. Os est�icos contemporizaram um pouco com a humanidade: aceitavam que a Provid�ncia Divina se ocupasse das coisas nobres, mas negavam que se estendesse �s mais humildes e baixas, e menos �s doen�as e outros males. Outros fil�sofos pag�os ainda menos profundos, como Epicuro e sua escola, pensavam grosseiramente que os inumer�veis deuses, adormecidos na paz e na moleza do Olimpo, em nada ligavam para as vicissitudes dos m�seros mortais e das coisas. *** Se dos fil�sofos passamos � mentalidade geral, os pag�os eruditos na sua religi�o, superando aos de�stas, podem �s vezes aceitar alguma coisa parecida com a Provid�ncia Divina, mas nunca nada parecido com o verdadeiro conceito judaico-crist�o de milagre. Qualquer coisa que se aproxime do milagre � "mentalidade popular", anseios da alma "naturalmente crist�" (Tertuliano), mas incompat�vel com as religi�es pag�s. � O de�smo � pag�o. Apesar de se autoproclamarem crist�os quase todos os de�stas (muitos dos racionalistas e todos os te�logos modernistas de ontem e de hoje), a realidade � que seu de�smo est� nos ant�podas do cristianismo. Cristo, depois de anunciado ao longo de toda a B�blia judaica, revela n�o s� com palavras sen�o tamb�m com a��es, constituindo um inaudito esc�ndalo para os pag�os, a Boa Nova (Evangelho) do infinito amor de Deus. Na mitologia dos gregos e romanos S. "naturais", no m�ximo "providenciais", as a��es dos deuses na Il�ada e na Odiss�ia. Palas Atena na disputa entre Aquiles e Agamenon somente colabora com as a��es que S. pr�prias de Aquiles e colabora com as dificuldades naturais pr�prias de Agamenon11. CONTRASTE COM A B�BLIA � A passagem b�blica em que Gede�o sensatamente reclama o milagre como prova ou assinatura da Revela��o divina, para n�o ser v�tima de imagin�rias revela��es subjetivas, � escolhida por B. Snell para compar�-la com a mentalidade grega: "Gede�o disse a Deus: �Se verdadeiramente queres livrar a Israel por meu interm�dio, como disseste (isto � que Gede�o quer saber!), eis que colocarei um toS. de l� na eira: se o orvalho cair somente sobre o toS., e todo o terreno estiver seco, ent�o saberei que livrar�s a Israel por minha m�o, como disseste�. E assim fez. Quando Gede�o se levantou no dia seguinte, de madrugada, torceu o toS. de l� e do orvalho dele tirou uma ta�a d��gua". "Gede�o disse ainda a Deus: �N�o te irrites comigo, se falo ainda uma vez. Permite que eu fa�a uma �ltima vez a prova do toS.: que nada fique seco sen�o apenas o toS., e toda a terra ao redor se cubra de orvalho!� E Deus fez assim essa noite. S� o toS. de l� estava seco e havia orvalho em toda a terra ao redor" (Jz 6,36-40). Comenta Bruno Snell: "Para os gregos seria chocante o modo como Gede�o faz trato com Deus (�) O favor de Deus revela-se nesse caso quebrando o curso natural das coisas (mais exatamente: intervindo Outra For�a); para Deus nada � imposs�vel. Tamb�m nas lendas gregas acontece que seus her�is pe�am um sinal vis�vel da prote��o dos deuses, mas tais sinais S. um raio, o v�o de um p�ssaro, um espirro, acontecimentos que segundo as leis da probabilidade n�o � admiss�vel que surjam no momento desejado, mas que sempre se poder� dizer que aconteceram por uma casualidade feliz (�) Na mente de um grego cl�ssico, os pr�prios deuses est�o submetidos � ordem do cosmos. E em Homero a interven��o (dos deuses) � sempre da maneira mais natural. Inclusive quando Hera (a Terra) obriga H�lios (o Sol) a afundar-se mais rapidamente no Oceano, o fato continua sendo �natural�, porque H�lios, que eles concebem como um auriga, pode por vezes fazer que seus cavalos avancem com maior rapidez"12. [continua] -
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Fernando De Matos: ICQ#26750912 [EMAIL PROTECTED] [EMAIL PROTECTED] Centro Latino-Americano de Parapsicologia - Portugal� http://www.terravista.pt/Mussulo/1287/ [EMAIL PROTECTED] ******************************************************************* |
