9º) DUAS AÇÕES DIFERENTES — Conhecemos bem a psicologia dos racionalistas e dos modernistas.

Quanto aos racionalistas, é claro que eles não visam defender a imutabilidade de Deus, nem as leis da natureza. Quando atacam os milagres, é impossível que não saibam ao menos teoricamente que Deus e natureza, leis da natureza e milagres, não se opõem, não se chocam, S. caminhos ou ações diferentes. O que os racionalistas na realidade pretendem, por má vontade ou por recalques doentios, é destruir os milagres, precisamente porque deixando-as íntegras as leis da natureza S. um sinal que ilumina o caminho para Deus às pessoas sinceras. Isso é que molesta aos racionalistas. Eles querem — por quê? — acabar até com o conceito de Deus.

Quanto aos modernistas, os antigos visavam minar o catolicismo. Os modernos… Estes não pretendem nada. S. puro eco. É impossível que não entendam no seu íntimo que se trata simplesmente de duas ações diferentes do mesmo Deus.

A dificuldade fingidamente levantada pelos primeiros modernistas protestantes com referência aos milagres bíblicos e dos primeiros anos do cristianismo já a resolvera o rvdo. Henri Bois, também então teólogo protestante e professor em Montauban: “O verdadeiro nó da questão do milagre é este: há dois modos diferentes e irredutíveis da ação divina?”15. Sim, responde ele mesmo: a ação geral que chamamos criadora e conservadora, com ela há estabelecido desde o início a ordem universal, submetida à ação do que chamamos leis da natureza. É há também as ações particulares de Deus, os milagres. A ação geral de Deus é única, uniforme, contínua, constante. As ações particulares de Deus, os milagres, S. múltiplas, diferentes, intermitentes, independentes umas das outras. Numa palavra, as leis derivam da ação geral de Deus. Os milagres S. intervenções particulares de Deus16.

10º) METODOLOGIA CIENTÍFICA — Todos os leitores isentos de preconceitos compreendem que o laboratório e a estatística matemática podem ajudar na pesquisa científica dos fenômenos da física, da química… e mesmo de alguns determinados fenômenos da parapsicologia.

Mas supõe completo desconhecimento do que é ciência ou plena ausência de espírito científico excluir da ciência a pesquisa de qualquer tipo de fatos do nosso mundo. E em conseqüência supõe o mesmo desconhecimento ou ausência exigir que se obtenham e repitam à vontade em laboratório efeitos supranormais, que dependem da vontade de uma liberdade transcendente. Mas S. fatos. Cabe à ciência estudar os fatos. Não é a realidade que tem de se acomodar ao método de estudo escolhido pelos pesquisadores, S. os pesquisadores que devem procurar o método de estudo que a realidade exigir. É evidente. Não é necessário ser grande especialista em filosofia da ciência. Basta um pouquinho de reflexão e espírito científico.

Os fatos cognoscíveis em laboratório e mensuráveis por estatística matemática não constituem toda a realidade. O mundo é muitíssimo maior que o laboratório. E todas as realidades que há no mundo S. muitíssimo mais numerosas que os fenômenos que o laboratório pode “encerrar”. A experiência humana é muitíssimo maior que o laboratório.

Em plena polêmica racionalista, quase plenamente acerta sir Oliver Lodge, apesar de viver no ambiente de exaltação da metodologia exclusivamente de laboratório: “Não é raro ouvir dizer que a ciência fez justiça dos milagres. Mas em verdade a ciência (melhor seria dizer: o laboratório, pois a ciência é muito mais ampla) nada tem a ver com isso. Por meio da experiência podemos provar a existência de fatos transcendentes às leis da natureza (os milagres). E não podemos apelar à experiência para negá-los”17.

11º) IDOLO DE DOENTES — O erro dos racionalistas ”científicos” foi maior. E se aliaram com os “liberais”, isto é, ateus e materialistas. Estes partiram do preconceito de que não existe nada que não seja matéria.

Paralelamente a afirmação racionalista da impossibilidade do milagre não saiu nem pode sair da ciência; saiu de um falso e doentio “misticismo às avessas”. Os racionalistas pretenderam aprioristicamente reduzir toda a ciência ao estudo dos fatos materiais (naturalismo).

E esse reduzido ramo da ciência foi exaltado acima de tudo, foi o “novo ídolo”, na expresS. popularizada pelo grande filósofo crítico francês Brunetière (Vincent de Paul Marie Ferdinand Brunetière, 1849-1906), que fora ele mesmo adepto do naturalismo, mas que estudando com sinceridade encontrou os milagres e converteu-se ao catolicismo.

A esse “novo ídolo”, o naturalismo, voltavam os olhos todas as pessoas que se julgassem cultas. Assim “numerosos pensadores que se acreditavam muito racionais, muito positivos, caíram em devaneios mais místicos (?) que racionais”18.

12º) NAO É OBJETO DIFERENTE — A novidade que apresentam muitos tipos de milagres não se refere aos acontecimentos como tais, eles S. o objeto habitual da ciência, senão à sucesS. desses acontecimentos. Uma altíssima febre excepcionalmente curada num instante por Deus, nos acontecimentos como tais não se diferencia da cura realizada em alguns meses por um médico com os remédios do farmacêutico. A diferença está simplesmente — e nesta aparente simplicidade está o prodígio — na instantaneidade. E daí se deduz a Outra Causa.

Porque o raciocínio conclusivo é fácil. O milagre apresenta-se em circunstâncias tais que nenhum cientista isento de preconceitos pode duvidar um instante em identificar a Outra Força, a Causa Sobrenatural. Isso é ciência, procura da realidade.

13º) “cientistas” contra a ciência — Porque as teorias só podem surgir dos fatos, não os fatos submeter-se às teorias. E os fatos demonstram o milagre.

Contra esses falsos cientistas, os racionalistas, muito lucidamente reclamava, como exemplo destacado, Alexis Carrel. Limitando-se às curas, por ser um terreno em que ele tinha autoridade suprema, pontificava aquele prêmio Nobel de medicina: “Durante o século XIX acreditar (nos milagres) desapareceu por completo. Foi geralmente admitido não só que não existem milagres, senão que não podiam existir (…) Mas levando-se em consideração os fatos observados durante os últimos cinqüenta anos (e acrescentem-se em efeito bumerangue tantos outros fatos historicamente garantidos) não pode sustentar-se esta atitude (…) Hão-se registrado importantes casos de curas milagrosas”19.

E para os modernistas há que sublinhar a crítica, inamovível sobre a posição verdadeiramente científica, lançada pelo pe. Carreño, muito documentado divulgador de um outro determinado milagre, o mais importante milagre, a Ressurreição de Cristo: “É importante demais o tema da Ressurreição para deixá-lo à mercê de uns elucubradores que, incrivelmente, com base em questionáveis métodos por eles mesmos inventados, e em nome de preconceitos mantidos com teimosia neurótica e anticientífica (…) pretendem em vão apagá--la (…) No que se refere a nossos novos doutores da lei, teremos de dizer-lhes que aos preconceitos, disquisições, vacuidades, interpretações, abstrações, sutilezas, alambicamentos, evasões, filosofismos numa palavra, que nos estiveram brindando com sua chamada ‘teologia atual’ sobre a Ressurreição (e sobre os milagres em geral), onde nos falam em nome de uma ‘mentalidade moderna’, sendo que eles não querem se inteirar das pesquisas dos últimos anos (…); e de uma ‘mentalidade científica’, sendo que eles não aparecem num laboratório nem por equivocação; nós temos contraposto fotografias, radiografias, microscopias, anatomia, cronometragens, medições, cômputos, comprovações científicas numa palavra”20.

[Continua]

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