INTERVENGCO DE MIGUEL URBANO RODRIGUES (PORTUGAL)
NO SEMINARIO +A RESISTJNCIA @ GLOBALIZAGAO NEOLIBERAL;, INTEGRADO NO FSRUM SOCIAL
MUNDIAL
- PORTO ALEGRE, 26.01.2001

Estamos aqui reunidos em Porto Alegre neste Seminario integrado no Fsrum Social
Mundial nco apenas para debater a tematica e a necessidade da resistjncia `
Globalizagao Neoliberal, mas tambim para reflectir criativamente sobre ideias,
iniciativas e formas de luta que possam ser zteis no grande combate que a humanidade
i chamada a travar contra esse flagelo que configura cada vez mais uma ameaga `
prspria continuidade da vida no planeta que i a patria do homem.
A amplitude e a pujanga crescentes desse movimento de  resistjncia favorecem,
entretanto, pelo que ha nele de espontbneo, confusues em torno do prsprio conceito
de globalizagco que prejudicam o desenvolvimento da luta em curso .
Nunca i demais repetir que em si mesma a globalizagco, como fensmeno de
reorganizagco do espago, da economia e das relagues sociais, i um processo
inelutavel que expressa o caminhar do homem e as prodigiosas conquistas por ele
realizadas.
Aquilo que combatemos nco i essa tendjncia, mas a engrenagem e os efeitos da chamada
globalizagco neoliberal cujos objectivos sco antagsnicos aos da globalizagco da
solidariedade entre os povos, a znica que responde `s aspiragues da condigco humana.
Recordo essa evidencia porque a ideia da globalizagco i antiqumssima.  Sob figurinos
diferentes, sistemas de poder com caractermsticas muito diferenciadas foram
precursores de um mundo globalizado sob a sua hegemonia. Alexandre da Macedsnia
sonhou com o Estado universal.  Roma retomou o projecto e o Impirio Britbnico,
transcorridos quase dois milinios, respondeu no seu auge por quase metade da
produgco industrial e do comercio mundial.
A palavra globalizagco, essa sim, i recentmssima.  Um dos primeiros a usa-la foi em
1983 o economista norteamericano Theodore Levitt para designar a convergjncia dos
mercados mundiais.  O seu compatriota Kenichi Ohmae (1) retomou o vocabulo para
qualificar o processo atravis do qual as transnacionais definiam regras de um jogo
que escapava ao controlo dos Estados-nagco e tambim a recomposigco das economias
nacionais no seio de um sistema de transagues e de processos que actuam sobre a
economia mundial.
Marx e Engels ja na segunda metade do siculo XIX encaravam a globalizagco do capital
como um processo inelutavel, embora nco previssem as formas que assumiria.
Nem isso era possmvel.  A crise posterior ` primeira guerra mundial atrasou a
globalizagco neoliberal.  O keynesianismo, para salvar o capitalismo de um naufragio
iminente, recorreu a solugues que fortaleceram o papel intervencionista do Estado,
mas, a partir do inicio dos anos 70, assistimos a uma regressco galopante dessa
tendjncia.  Incentivadas pelo binsmio Thatcher-Reagan, desenvolveram-se
impetuosamente estratigias assinaladas por um predommnio cada vez maior do mercado e
um enfraquecimento do  Estado.  Com a peculiaridade contraditsria  fundamental para
a compreensco do sistema- de que nos EUA, o pais sob cuja igide e impulso se
desenvolveu a globalizagco neoliberal  o Estado continuou a agigantar-se e a sua
capacidade de intervengco se ampliou em mzltiplos campos.
Naturalmente, a implosco da URSS e o hegemonismo dos EUA tiveram um efeito enorme na
aceleragco do novo rumo da economia mundial.
No inicio dos anos 90 a ruptura da organizagco mundial da produgco, o agigantamento
das transnacionais, a expansco galopante dos fundos de pensues e o seu peso decisivo
nos mercados financeiros mudaram a vida no planeta onde o tempo passara a ser
universal e instantbneo gragas a uma revolugco informatica controlada por um punhado
de empresas.
A concentragco de poder assusta.  As 200 maiores firmas do mundo  segundo o Banco
Mundial e a Revista Fortune  representariam, em 1960, 17% do PIB mundial.  Essa
percentagem subiu para 24% em 83 e em 95 superava ja os 31%.  As 500 maiores
empresas, com ativos de 32 mil bilhues de dslares, realizaram em 96 negscios  no
valor de 11 400 bilhues obtendo lucros de 320 bilhues.  Esses lucros sco superiores
ao PIB de 43 pamses atrasados com mais de um bilhco de habitantes.  O volume de
vendas anual dessas 500 empresas equivale ao dobro do PIB de 107 pamses
subdesenvolvidos, com mais de 4,5 bilhues de habitantes, incluindo a China e a
Mndia.(2)
O jogo do dinheiro nas bolsas assume proporgues colossais.  Somente as transagues
realizadas no mercado de divisas representam diariamente 1 400 bilhues de dslares,
isto i aproximadamente 50 vezes o valor das transagues de bens ligadas a produgco.
As actuais geragues sco espectadoras e vitimas de uma subversco total do tribngulo
histsrico trabalho-produgao-emprego.  Os cinco primeiros fundos de pensues
norteamericanos gerem mais de 1 200 bilhues de dslares, ou seja o equivalente ao PIB
da Franga.
As crises, ati ao final da segunda guerra, eram cmclicas e espagadas.  Agora ha
sempre crises em perspectiva no horizonte imediato.  Acontecimentos inesperados em
remotos pamses da periferia provocam fulminantes transferencias de capitais.  A
crise na Asia Oriental, iniciada na Tailbndia, determinou por exemplo no primeiro
trimestre de 98 o repatriamento de mais de 300 bilhues de dslares para os pamses
industrializados do Centro.
As crises russa e brasileira fizeram estremecer os pamses do G-7.
Quem paga as faturas de cada uma dessas crises, autjnticos tumores da globalizagco
neoliberal, i sempre o povo dos pamses dependentes por elas atingidos.  O caso da
Coreia constitui um exemplo paradigmatico dos efeitos de cada uma delas numa
repartigco dos prejumzos e dos benefmcios.  Relatsrios do Banco Mundial e do FMI
registam com satisfagco a relativa rapidez da recuperagco da economia, no tocante `
produgco e ao PIB, daquele pais da Asia Oriental.  Omitem, porem, o fator
desnacionalizagco.  Uma parcela importante das grandes empresas coreanas foi
transferida de mcos.  Hoje pertence `s transnacionais que durante a crise as
adquiriram por pregos baixmssimos.
Um discurso retsrico e farisaico, repetido com poucas variagues, pelos governantes
do G-7 e pelos porta-vozes da OCDE, da OMC, do FMI e do Banco Mundial, reconhece a
existjncia de tensues sociais e desigualdades resultantes do funcionamento dos
mecanismos da nova economia, eufemismo que os neoclassicos utilizam para designar a
engrenagem trituradora do capitalismo actual.  I da praxe lamentar a fome, a
misiria, a ignorbncia, as epidemias, a devastagco ecolsgica, enfim os flagelos que
assolam o mundo submetido ` economia de mercado globalizada.  Chovem promessas.  Mas
os fatos estco am.  O incumprimento dessas promessas i uma realidade.  As
percentagens do PIB destinadas ` ajuda internacional aos pamses mais atrasados em
vez de se aproximar do nmvel dos compromissos assumidos i cada vez menor.
Segundo o PNUD (3) as desigualdades entre os ricos e os pobres acentuam-se de ano
para ano; a exclusco social adquire, inclusive nos pamses industrializados,
proporgues assustadoras (na UE ha 35 milhues de pessoas que vivem na pobreza).  Em
1960 o quinto mais pobre da humanidade dispunha de 3% da renda mundial; em 1994 a
parte que lhe cabia era apenas de 1,1%, quase um tergo da anterior; hoje i inferior
a 1%.  Entretanto, no ultimo quarto de siculo a renda dos mais ricos subiu de 69%
para 86% (4).
Essa distribuigco cada vez mais desigual da riqueza produzida i acompanhada de uma
redugco igualmente brutal de benefmcios sociais a que os sectores mais
desfavorecidos tinham acesso.  A supressco de conquistas sociais obtidas pelos
trabalhadores apss lutas histsricas coincidiu com a concentragco do poder econsmico.
O novo capitalismo implica um desafio `s modalidades da solidariedade nacional
interna.  Na sua pratica mostra ser incompatmvel com o funcionamento do Estado do
Bem Estar Social.  A transnacionalizagco das economias choca-se com a lsgica
redistributiva do estado nagco.  Os pamses industrializados dco o mau exemplo.  A
sazde e a educagco gratuitas deixam de ser consideradas deveres do Estado para serem
gradualmente transformadas em negscios privados lucrativos cujos mecanismos
alimentam a engrenagem dos mercados financeiros.  As contribuigues dos trabalhadores
sco hoje o combustmvel que assegura o gigantesco poder dos fundos de pensues.

PROCESSO TRANSITSRIO

I a globalizagco neoliberal uma fatalidade, ou um fim?
Contrariamente ao que sustentam os seus adeptos, nomeadamente os orgulhosos
defensores de um capitalismo cognitivo que aspira ao monopslio de um saber cada vez
mais concentrado em pequenas elites desumanizadas, o tipo de globalizagco divinizada
pelos cirebros da nova economia sera  tudo o indica  um processo transitsrio,
marcado por grandes fragilidades.
Fidel Castro colocou a questco ha dois anos em Havana, dirigindo-se a economistas de
todas as escolas, vindos de todo o mundo.  Na sua opinico tera uma duragco breve.  A
irracionalidade do processo torna-o extremamente vulneravel.
Foram  em grande parte a covardia dos intelectuais e a capitulagco mais ou menos
transparente da social democracia que criaram condigues para o desenvolvimento
galopante em escala mundial do fensmeno da globalizagco neoliberal, inseparavel de
um sistema de poder no qual a transnacionalizagco das economias cumpre um papel
fulcral.
Mas as premissas tesricas do sistema sco falsas.  A tirania dos mercados i uma
figura ficcional ideada pelos ideslogos da nova economia capitalista.  A
globalizagco, como processo resultante do progresso civilizacional, nco implica a
vassalagem dos estados, o alastramento da pobreza e do desemprego, a destruigco das
conquistas sociais e das culturas nacionais, a agressco ` natureza.
Contrariamente ao que sustenta a engrenagem mediatica controlada pelas
transnacionais da informatica, o desaparecimento do Estado nagco nco i uma exigjncia
premente da chamada aldeia global.  A margem de manobra dos estados perante o
flagelo do neoliberalismo globalizado 4i consideravel.  A questco i que se disponham
a resistir.
No seu ensaio +Alto ` OTAN;, Samir Amin analisa as circunstancias em que os governos
da Unico Europeia, com o apoio do grande capital, decidiram aceitar o prego da
vassalagem, acompanhando os EUA em perigosas agressues, inseparaveis da sua
estratigia imperial.
Integrando na crise global do capitalismo crises ocorridas em areas da periferia,
nomeadamente a do Mixico, a da Rzssia, a da Asia Oriental e a do Brasil, Samir Amin
escreveu entco +Os EUA nesta conjuntura castica retomaram a ofensiva para
simultaneamente restabelecerem a sua hegemonia global e, em fungco desta,
reorganizarem o sistema mundial em todas as suas dimensues econsmicas, polmticas e
militares;.
O envolvimento europeu em projectos norteamericanos como a agressco ao Iraque e `
Jugoslavia tem levado influentes politslogos a sustentar que essa situagco de
dependjncia da Unico Europeia se mantera por muito tempo.
Tal opinico traduz um subjectivismo transparente.
As contradigues crescentes que opuem na area econsmica os EUA ` Unico Europeia
manifestam-se tambim na area politico-militar.
Nco tera sido por acaso que no prsprio momento em que o largo permodo de expansco da
economia americana finda, abrindo-se a perspectiva de uma recessco, a UE tomou
finalmente a decisco, repetidamente adiada, de criar uma forga de intervengco rapida
de 100 mil homens  com capacidade  para intervir autonomamente em conflitos
regionais futuros.  Nco cabe aqui analisar os aspectos negativos de um eventual
renascimento do militarismo europeu.  O que me parece importante salientar i o facto
de que Washington reagiu imediatamente, identificando no projecto uma ameaga `
hegemonia ati agora exercida pela OTAN no terreno da +seguranga europeia;.  A
resposta europeia foi naturalmente ambmgua.  Mas i transparente que,
independentemente das palavras conciliatsrias, essa nova forga emerge como o embrico
de um futuro exercito europeu, numa clara demonstragco de que a UE nco esta disposta
a aceitar eternamente a presenga militar norteamericana.  Alguns analistas
salientaram nos EUA que o fim da OTAN i uma questco de tempo.  Obviamente a UE i uma
diversidade, com a peculiaridade de o Reino Unido funcionar nela em muitas situagues
como uma quinta coluna de Washington.
Mas a prspria dinbmica do neoliberalismo globalizado tende neste inicio do siculo
XXI a acentuar e nco a eliminar as contradigues existentes no bmbito da Troika que,
utilizando o G-7 e instituigues internacionais como o FMI, o Banco Mundial, a OMC e
outras, actua como se fosse um governo mundial onipotente.  Na fragil alianga da UE
e do Japco com os EUA as divergjncias, embora nco sejam expressas publicamente de
maneira explicita, aumentam, bem como a sua complexidade.  Enquanto a Europa confia
numa recuperagco da  sua moeda, o Japco continua a desenvolver com pacijncia  e
discrigco esforgos tendentes ` criagco na Asia Oriental de uma zona yen, projecto
que provoca alarme nos EUA.  A sua concretizagco poderia significar um golpe fatal
para a hegemonia mundial do dslar.
A convergjncia na Troika em torno de polmticas que agravam a desigualdade no mundo e
aprofundam o fosso existente entre os pamses desenvolvidos (menos de um quinto da
humanidade) e os atrasados nco impede a existjncia de grandes contradigues entre os
EUA e os seus aliados.  Essas contradigues nco se manifestam apenas atravis de
interesses econsmicos conflitantes.  Os sistemas de seguranga social europeus,
embora enfraquecidos, subsistem.  A sua supressco provocaria grandes explosues
sociais.  Os mecanismos redistributivos na Europa estco ainda fundamentalmente
ligados a relagues de classe herdadas do pss guerra.  Nos EUA os sindicatos e as
organizagues de massas dos trabalhadores nunca tiveram forga para impor
reivindicagues que na Europa haviam sido aceites ha muito pelo patronato.  Essa
disparidade de situagues sociais e culturais contribuiu decisivamente para as
elevadas taxas de crescimento econsmico dos EUA, mas tambim para a queda da
qualidade de vida resultante do capitalismo selvagem norteamericano.
A globalizagco neoliberal i um movimento orientado para a homogeneizagco da economia
mundial ou de partes desta.  Com a peculiaridade de ser concebido para beneficio
exclusivo de um reduzido numero de sociedades e em prejumzo da grande maioria da
humanidade.
I oportuno perguntar se estamos assistindo a uma convergjncia sistimica da economia
mundial para um modelo planetario znico baseado sobre a economia de mercado e formas
institucionais quase similares.
As respostas a essa questco fundamental sco muitas e pouco claras.
Em primeiro lugar i imprevismvel por ora o desfecho do antagonismo ja referido entre
o funcionamento do sistema de poder norteamericano e o resto do mundo, incluindo o
binsmio UE-Japco.

A AMEAGA IMPERIAL

A teorizagco norteamericana sobre o estado mmnimo desconhece a histsria.  Os estados
podem desaparecer.  As nagues subsistem quando eles sco destrumdos.  Braudel
falava-nos do motor histsrico a trjs tempos:  o tempo longo das mentalidades, o
tempo midio da economia e o tempo breve do que i polmtico.  A formula i polimica.
Mas o prsprio debate por ela suscitado coloca-nos perante uma duvida:  provoca a
globalizagco uma aceleragco do ritmo geral da historia ou apenas uma reorganizagco
dos factores que o determinam?
Estamos longe de um consenso.  Mas basta contrapormos, por exemplo, a Argentina `
multidiversidade da Mndia para sermos confrontados com a distancia que nos separa da
autentica aldeia global.  A unificagco das culturas tardara siculos, talvez
milinios, apesar da rede da Internet.
Segundo Zbignew Brzezinski os EUA sco ja a primeira sociedade global da historia e
estco criando condigues para impor uma cultura universal.
A afirmagco, entretanto, i apressada e pouco responsavel.  Em primeiro lugar uma
cultura smntese tipo Mac World, como lhe chamam, seria uma anti-cultura e portanto a
antmtese do fensmeno cultural .
Nco precisamos saltar da Amirica para a Asia para captar a tenaz resistjncia das
culturas a mudangas bruscas mesmo no bmbito da mesma sociedade.  Numa aldeia da
Alsacia quase tudo no modo de sentir a vida difere de uma  aldeia da Provenga.  No
Brasil, a nacionalidade comum nco apaga o abismo existencial entre um gazcho de
Porto Alegre e um caboclo do sertco baiano.
O funcionamento do sistema de poder dos EUA tende a gerar ilusues entre os prsprios
cirebros que contribumram para o seu agigantamento e para lhe imprimir a ambigco e
agressividade que hoje o caracterizam.
A faceta mais inquietante desse sistema i a aspiragco ` hegemonia universal e
perpetua sobre o conjunto dos povos da Terra.  Essa ambigco encontra-se formulada em
numerosos textos e, na perspectiva militar, num muito citado relatsrio secreto do
Pentagono, divulgado na edigco de 8 de margo de 1992 do New York Times.
I uma ambigco tco megalsmana que entra em choque frontal com a prspria lsgica da
globalizagco neoliberal, pois i incompatmvel com a supremacia do mercado sobre o
estado-nagao.
Retomarei a questco mais adiante.
Antes parece-me ztil chamar a atengco para o fato de o sistema de poder dos EUA, no
desenvolvimento de uma estratigia autsnoma que ignora os mercados, insistir numa
polmtica imperial que, pela sua irracionalidade, configura uma ameaga permanente `
paz mundial.
Nco quero desviar-me do nosso tema e analisar aqui o significado da polmtica de
destruigco do Iraque como Estado independente apss a guerra do Golfo.  Tambim nco
vou deter-me na polmtica que levou ` intervengco na Bssnia e ` imposigco da falsa
paz de Dayton, polmtica que teve continuidade na agressco ` Jugoslavia, usando a
OTAN como instrumento militar de um projecto mais amplo de dominagco dos EUA sobre o
conjunto dos Balccs.
Chamarei, porem, a atengco para um aspecto importantmssimo da polmtica de expansco
para o leste europeu, de que quase nco se fala no Brasil, apesar de ela constituir
hoje uma pega fundamental da estratigia imperial dos EUA.
Em Margo do ano passado participei em Belgrado de um Seminario Internacional de
solidariedade com o povo da Jugoslavia.  Durante esse evento, membros da delegagco
russa, quase todos acadimicos de prestigio, fizeram revelagues importantes que,
lamentavelmente, nco obtiveram divulgagco no estrangeiro.
Um desses intelectuais, Vassilevich Morosov, esbogou um quadro assustador do papel
que a Rzssia desempenha hoje como alvo e pega na estratigia do sistema de poder dos
EUA.
Na sua opinico a guerra do Kosovo prosseguiu na Chechenia.  E tera continuidade
noutros conflitos  que Washington tentara criar (e financiar) artificialmente no
territsrio russo, estimulando tendjncias separatistas latentes.  O objectivo i
provocar a repressco, ou seja a intervengco do exercito federal russo.  O sistema
mediatico cumprira entco o seu papel.  Pelo mundo afora a Rzssia sera acusada de
espezinhar os direitos humanos e de negar o direito ` autodeterminagco de um povo
que se bate pela liberdade.  Os intelectuais inginuos voltarco a morder o anzol.  A
Rzssia aparecera perante a +comunidade internacional;  expressco que designa cada
vez mais os EUA e os seus aliados  sentada no banco dos rius.  Segundo Morosov,
depois da Chechenia chegara a vez do Daguestco.  Posteriormente seria a Kalmuquia.
O concerto mediatico trataria de pedir solidariedade para um povo descendente dos
mongsis, oprimido pelos russos a sudoeste do delta do Volga.  O folhetim perverso
tende a repetir-se.  A grande mentira do Kosovo funcionou como escola.  Afastar a
Rzssia do Caspio e do leste do Mar Negro parece ser uma prioridade para os ideslogos
do sistema de poder dos EUA que tragam as linhas mestras da estratigia de dominagco
imperial perpetua da +nagco predestinada; para tornar a humanidade feliz.
Na foi por acaso que na minha exposigco entrei, embora superficialmente, pelo
afluente da estratigia norteamericana que visa a transformagco da Rzssia numa
potjncia perifirica de segunda classe.  Quis chamar a atengco para um confronto
muito complexo que se esboga ja no horizonte.  A componente polmtico militar do
sistema de poder dos EUA tende em tempo relativamente breve a entrar em conflito com
a estratigia do neoliberalismo globalizado, imposta pelas transnacionais e aceite
pela Troika.  Ora essa estratigia, como i do dommnio pzblico, coloca o mercado acima
dos Estados, admitindo que i do seu livre funcionamento que dependem o rumo e o
progresso da humanidade.
Para ser mais claro insisto num aspecto dessa tematica muito pouco lembrado, mas
que, a meu ver, i prioritario na reflexco sobre o processo da globalizagco
neoliberal.
Refiro-me ` complementaridade existente entre o poder imperial norteamericano e a
engrenagem financeira de um mercado que pretende funcionar com autonomia absoluta,
desconhece fronteiras e se sobrepue aos Estados.
Estamos perante  repito  uma complementaridade que carrega as sementes de futuros
conflitos de proporgues imprevismveis.  A globalizagco neoliberal nco seria aquilo
que i sem o apoio, caberia dizer o incentivo recebido dos Estados da Troika e mais
especificamente do sistema de poder dos EUA, a potjncia tutelar do moderno
capitalismo.
Nunca i demais recordar o famoso desabafo de Thomas Friedman publicado no New York
Times.  Esse destacado conselheiro de Madeleine Albright, ex-secretaria de Estado
norteamericana, nco hesitou em afirmar que  cito  aquilo de que o mundo precisa, a
globalizagco nco funcionaria se os EUA nco agissem com todo o seu poder de
superpotjncia.  E porquj?  Ele responde com cmnica franqueza:  +a mco invismvel do
mercado nunca funcionara sem o punho invismvel.  Mac Donald nco pode ser prospera
sem Mc Donell Douglas que construiu os F-15.  O punho escondido que garantiu um
mundo seguro para a tecnologia de Silicon Valley chama-se o exercito, a aviagco, a
marinha e o corpo de fuzileiros dos EUA;.
Sco mzltiplas as mensagens desta confissco arrogante.  Uma delas i dirigida aos
teslogos do mercado.  Ela lembra-lhes que devem ser realistas na sua reflexco sobre
o papel do Estado.  Sendo um fato que as polmticas neoliberais sco responsaveis por
uma drastica redugco desse papel na quase totalidade dos pamses que a elas se
submeteram nco i menos verdade que a teorizagco sobre o Estado Mmnimo,
brutalmentente aplicada no Terceiro Mundo, nco o tem sido nos principais pamses
capitalistas.  No caso paradigmatico dos EUA, o Estado agigantou-se e intervim cada
vez mais em todas as esferas da actividade humana, incluindo a econsmica.
Dialeticamente gerou-se uma situagco potencialmente conflitiva, pois a criatura  o
mercado que se arroga uma autonomia decissria praticamente ilimitada  tende a
entrar em choque com as prsprias forgas institucionais que lhe asseguraram e
asseguram o dommnio actual que exerce no mundo onde impera a globalizagco
neoliberal.
Os defensores mais ortodoxos da corrente que se autodefine como
neoclassica-neoliberal nco tomam conhecimento das desigualdades que o funcionamento
da globalizagco imperial aprofunda dramaticamente em escala mundial.  Na pratica a
exclusco social i eliminada do seu campo de visco e logicamente do seu projeto de
economia-mundo.  A sua estratigia assenta os pilares na edificagco compensatsria de
um paradigma fictmcio, cimentado em harmonias imaginarias, crescimento garantido e
equilmbrios stimos.
Estamos perante um paradigma imensamente ambicioso com pretensues cientificas e
aspiragues ` universalidade.  Uma constante nele  como salienta Remy Herrera, do
CNRS de Paris  i a apologia de um capitalismo novo visto e apresentado como o znico
concebmvel ` luz da teoria(5).  Esse sistema, suprema conquista da inteligjncia,
seria um horizonte inultrapassavel.  O norteamericano Francis Fukuyama, um hegeliano
fora de tempo, sintetizou a aspiragco e a formula num livro-slogan que correu pelo
mundo:  +O fim da histsria;.
Puro engano.  A historia continua.  Sco fantasistas os perfis de uma geografia
humana nova que traduziria o estado natural e definitivo da sociedade universal.
I muito cedo para se prever com um mmnimo de rigor que efeitos tera no rumo do
processo da globalizagco neoliberal o arrefecimento comprovado da economia
norteamericana.  Se ele evoluir, como muitos esperam, para uma recessco, as
contradigues entre o sistema de poder dos EUA e o mercado financeiro serco
agravadas.  Alan Greenspan, da Reserva Federal, nco esconde a sua preocupagco com +a
exuberante irracionalidade dos mercados;.  Stiglitz, o ex-chefe dos economistas do
Banco Mundial, exige hoje a urgente +regulamentagco dos fluxos financeiros;.  E
George Soros expressa o  desejo de um maior protagonismo dos Estados perante o
mercado, afirmando que +talvez seja ainda possmvel salvar o capitalismo do
neoliberalismo;
Mas a anarquia financeira introduzida pelo jogo do dinheiro nos mercados e as
devastagues sociais dela inseparaveis criaram uma situagco em que o criador
principia a ter medo da monstruosa criatura por ele concebida.
O enorme poder dos EUA nco esconde as suas vulnerabilidades.  Elas foram geradas
pelo sistema.  Os EUA sco o pais mais endividado do mundo.  A engrenagem da sua
economia funciona de tal maneira, prisioneira de interdependjncias tco complexas,
que bastaria por exemplo que o Japco suspendesse a compra de tmtulos do Tesouro
norteamericano e vendesse parte dos que acumulou para que os EUA caminhassem para a
faljncia.  Claro que o Japco nco tomara tal iniciativa.  Porque ela o langaria
tambim, tal como a Unico Europeia, numa crise de proporgues catastrsficas.
O exemplo serve, porem, para iluminar a fragilidade dos mecanismos da hegemonia
norteamericana.  O impirio cuja imagem de poder aparece no dslar como moeda
praticamente universal tem, afinal, pis de barro.

A CRISE GLOBAL E A ESPERANGA

Nunca como no inicio deste Terceiro Milinio a humanidade concentrou tanto saber.  Se
o usasse em beneficio de si mesma teria a possibilidade de erradicar do planeta a
fome, a misiria, a ignorbncia.  As prodigiosas conquistas da revolugco
tecno-cientmfica permitiriam, se bem utilizadas, que as sociedades humanas
evolumssem na Terra numa atmosfera de paz ,progresso e bem estar crescentes.
Mas aquele que poderia ser o melhor dos tempos apresenta-se como o mais perigoso dos
tempos.
A globalizagco neoliberal e o sistema de poder que lhe assegura o funcionamento
distanciaram-se da prspria lsgica do capitalismo classico.  Assumiram
caractermsticas de fensmenos marcados pela irracionalidade.  O novo capitalismo, a
que Yann Moulier Boutang chama capitalismo cognitivo, deixou se ser um problema da
mais valia retida e da riqueza monetaria.  Transformou-se num objectivo louco.  Em
breve se tornara incontrolavel se o mecanismo nco for quebrado.  A multiplicagco do
dinheiro como meta absoluta, a valorizagco do valor como estratigia polmtica assume
em sociedades dominadas pelo poder crescente das transnacionais um caracter quase
religioso.  Seria preciso um novo Kafka para descrever o absurdo da engrenagem em
que os homens do capital passam a ser funcionarios a servigo do dinheiro.  Nesse
sistema anti-humano os homens, como prevj o alemco Robert Kurz, terco em breve de se
vender a si mesmos como combustmvel indispensavel ao funcionamento da maquina do
novo capitalismo.
Falei de irracionalidade.  Uma irracionalidade que assume tambim uma globalidade
ameagadora.  Porque nco se manifesta apenas nos mercados financeiros.  Ela esta
presente na ideologia e no funcionamento da componente imperial da globalizagco
neoliberal ou seja no sistema de poder que tem o seu polo hegemsnico nos EUA.
O modelo de sociedade que esse sistema tenta impor na Terra nco ss i incompatmvel
com aquilo que de melhor existe na condigco humana como envolve uma ameaga concreta
` prspria continuidade da vida no planeta.
Nas ultimas dicadas foram consumidos mais recursos naturais nco renovaveis do que
nos zltimos dois mil anos.  Essa delapidagco resulta de um modelo que, invocando a
civilizagco, reflecte um espirito de barbarie.  A devastagco das florestas e a
desertificagco avangam num ritmo alarmante.  Milhares de espicies animais e vegetais
desapareceram no ultimo siculo.  O uso de pesticidas altamente tsxicos torna
improdutivos milhues de hectares de terras.  A pretexto de combater a droga os EUA
envenenam as aguas dos rios da Amazsnia colombiana.  As emanagues de disxido de
carbono estco destruindo a capa de ozono que garante a vida na Terra.  O governo dos
EUA, principal responsavel pela contaminagco progressiva da atmosfera, cede `
pressco das transnacionais e nega-se a cumprir resolugues de Cimeiras internacionais
relativas ` defesa do planeta.
A agressco ao Ambiente assume os contornos de catastrofe ecolsgica.
A grande maioria da Humanidade, entretanto, nco tem conscijncia da gravidade dos
perigos que a ameagam.
Isso porque a produgco e o controlo da informagco instantbnea estco nas mcos dos
responsaveis pela situagco criada.
A engrenagem politica-economica e militar que impue a sua vontade aos povos da Terra
e promove a difusco do seu modelo de contra-civilizagco apresenta-se como benfeitora
da humanidade.
A farsa dramatica da eleigco presidencial nos EUA permitiu na virada do siculo
iluminar uma realidade pouco conhecida:  o ventre apodrecido de um sistema de poder
que insiste em exibir-se como modelo de virtudes democraticas e defensor de valores
e princmpios que ele prsprio calca aos pis.
Um presidente sem prestigio colocado na Casa Branca no rescaldo de um processo de
contagem de votos marcado por incontaveis fraudes e pressues vai agora, dotado de
enormes poderes, dirigir um Estado que se arroga o direito de levar a guerra a
qualquer lugar do mundo em suposta defesa dos seus interesses vitais.
Esse presidente marionete, George W. Bush, sera apenas um instrumento do sistema de
poder que pela ambigco e irracionalidade constitui uma ameaga para o conjunto da
humanidade.  Mas a conscijncia da sua prspria fragilidade e mediocridade podera
torna-lo paradoxalmente mais perigoso.  Porventura nco recorreu Clinton a agressues
armadas contra povos indefesos (Bssnia, Iraque, Jugoslavia ) para desviar as
atengues de problemas internos, alguns pessoais, que o incomodavam?
Mas a historia ensina-nos que nco ha impirios eternos.  Embora a resistjncia `s
forgas polmticas e econsmicas que estco a empurrar o mundo para uma catastrofe seja
ainda descoordenada e insuficiente, ela vem crescendo de ano para ano.  I uma dupla
resistjncia dirigida simultaneamente contra a tirania do poder imperial e contra o
poder mais fluido, menos direto mas nco menos perigoso, exercido pelos mercados
financeiros erigidos em guia da humanidade submetida a religico do dinheiro.
I uma ilusco acreditar que o mundo tem um centro permanente em torno do qual vegetam
periferias cuja fungco seria servi-lo.
Por si ss, o crescimento seguro da China e da Mndia  pamses cujas opgues de
desenvolvimento nco figuram nas receitas dos tesricos da globalizagco neoliberal ,
os jxitos econsmicos desses gigantes que concentram mais de um tergo da populagco da
Terra- constituem uma advertjncia e uma esperanga.
Gerard Kebabdjian, da Universidade de Paris-8 lembra-nos oportunamente que +o fato
de muitos atores disporem, muito ou pouco, de uma parcela de poder convida ` criagco
de estruturas de cooperagco e coloca um problema de organizagco ` potjncia
hegemtnica porque a existjncia de uma instancia simplesmente coercitiva nco basta
para promover a convergjncia pretendida pelo hegemon como nos sistemas hierarquicos;
(6).
Promovendo uma forma de transnacionalidade do seu interesse no campo das relagues
econsmicas e financeiras, as potjncias da Troika e especialmente os EUA tendem a
esquecer que outras modalidades da transnacionalizagco em marcha geram
solidariedades que funcionam como frentes de resistjncia planetaria.  I o que
acontece ja relativamente `s lutas que envolvem a defesa do Ambiente, a preservagco
de Culturas ameagadas, ` recusa de polmticas racistas no terreno da imigragco e das
que privatizam a Seguridade Social e suprimem conquistas histsricas dos
trabalhadores
Tensues sociais crescentes em escala planetaria obrigam os sacerdotes do capitalismo
cognitivo a tomar, finalmente, conscijncia de que o espago criado pela globalizagco
resulta do desenvolvimento de realidades financeiras, produtivas, culturais,
ecolsgicas, alimentares, biolsgicas e outras que estco ocorrendo em escala mundial
num complexo, perigoso, mas tambim fascinante processo de interagues cujo desfecho
final i ainda uma incsgnita.
Seminarios como este, em Porto Alegre inserem-se no amplo, indispensavel, mas ainda
muito incipiente e descoordenado movimento de resistjncia contra a ameaga que
representa para o homem e para a vida a globalizagco neoliberal.
Nada, felizmente, esta decidido.  E os povos sco o sujeito social da historia.
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(1)T. Levitt, +The globalization of Markets;. Harvard Business Review, Harvard, Maio
Junho, 1983; K. Ohmae, +La Triade. Emergence dune stratigie mondiale de l
entreprise;, Flamarion, Paris, 1985
(2),(3) e (4). As estatmsticas citadas foram extramdas de um ensaio de Philippe
Hugon, de Paris X, Nanterre, publicado em +Mondialisation-Les Mots et les Choses;,
Ed Karthala, Paris, 1999
(5) O ensaio de Remy Herrera, aqui referido, foi parcialmente publicado na edigco de
Julho-Agosto de 1999 do jornal +El Economista;, de Havana, sob o titulo +Critica a
la critica del pensamiento znico en Economia Polmtica;.
(6) Gerard Kebabdjian, +Analyse iconomique et mondialisation;, Karthala, Paris 1999



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