Enviada em: Quinta-feira, 18 de Maio de 2000 07:08
Assunto: [Direito_Saude] PUBLICACAO DA REVISTA DO SINDICATO DOS M�DICOS DE ASO PAULO
============================================================================

 
PUBLICA��O DO SINDICATO DOS M�DICOS DE S�O PAULO DE 15.04.2000
Diagnóstico

Morte encef�lica: por que se atrasar � corre��o de um erro t�cnico?

 

Os dados revisados em recente publica��o veiculada na edi��o de Dezembro do Brazilian J Med Biol Res sugerem a possibilidade de que uma redu��o global do suprimento sang��neo a todo o enc�falo ou somente �s estruturas infratentoriais para n�veis pr�prios da penumbra isqu�mica por v�rias horas ou poucos dias pode levar ao diagn�stico incorreto de les�o irrevers�vel do enc�falo ou do tronco encef�lico (morte encef�lica - ME) em uma parcela provavelmente larga dos pacientes em coma profundo e com aus�ncia dos reflexos cef�licos. As seguintes propostas s�o apresentadas: 1) a falta de qualquer conjunto de fun��es encef�licas clinicamente detect�veis n�o assegura o diagn�stico de morte encef�lica ou de morte do tronco encef�lico; 2) o teste da apn�ia (TA) pode induzir les�o encef�lica irrevers�vel e deve ser abandonado; 3) a hipotermia moderada, a antipirese, a preven��o da hipotens�o arterial, e ocasionalmente a tromb�lise intra-arterial podem contribuir para a boa recupera��o de uma larga parcela de casos de les�o encef�lica correntemente encarados como irrevers�veis; 4) testes confirmat�rios para o diagn�stico de morte encef�lica n�o devem substituir ou retardar a administra��o de medidas terap�uticas potencialmente efetivas; 5) de forma a validarem-se os testes cofirmat�rios, pesquisas mais aprofundadas s�o necess�rias de forma a relacionar-se seus resultados com n�veis espec�ficos de suprimento sang��neo ao enc�falo. Os crit�rios atuais para o diagn�stico de morte encef�lica (ME) devem ser revisados.



Nos pacientes sob penumbra isqu�mica global, o fluxo sang��neo encef�lico (FSE) pode ser insuficiente para a sustenta��o da fun��o mediada por complexos circuitos sin�pticos (incluindo-se a consci�ncia, os reflexos cef�licos e a atividade eletrencefalogr�fica) e para a opacifica��o vascular ao exame angiogr�fico, mas ainda suficiente para a preserva��o da fun��o do hipot�lamo (o qual consome 3 vezes menos energia que o c�rtex cerebral) e da vitalidade do restante do enc�falo. Podem, dessa forma, ser recuperados pelo tratamento hipot�rmico (33�C por 12 a 24 horas), desde que n�o sejam submetidos ao teste da apn�ia, capaz de provocar colapso circulat�rio irrevers�vel secund�rio � hipercarbia. Faz-se, portanto, necess�ria a correla��o dos resultados de exames confirmat�rios (cuja aplica��o n�o deve retardar a aplica��o da hipotermia) com n�veis espec�ficos de FSE.



A defini��o da situa��o ora configurada encontra-se constrangida por diversos e profundos interesses. Alterar-se de forma radical os crit�rios diagn�sticos representaria reconhecer-se a aplica��o de crit�rios falhos e tamb�m indutores da morte por 32 anos. Adicionalmente, reconhecer-se-ia a perda de muitos milhares de vidas tamb�m por desconsidera��o do valor terap�utico da hipotermia, relegada � condi��o de simples crit�rio de exclus�o. Alguns podem encarar como irremedi�vel o dano � credibilidade dos transplantes de �rg�os vitais, pois as autoridades do direito, da �tica e das diversas correntes filos�fico-religiosas que aceitaram a redefini��o de morte como ME proposta pela medicina n�o desconsiderariam a necessidade de nova revis�o de crit�rios no futuro, em face de novos avan�os da medicina. Em particular, o car�ter de relatividade do momento da morte a tais avan�os pode ser considerado incompat�vel com a natureza perene desej�vel para a moral e o pensamento religiosos, que buscam correlacion�-lo com a ruptura definitiva da liga��o entre a alma e o corpo f�sico.



O mesmo se aplica para as decis�es tomadas no �mbito do direito que, em diversas circunst�ncias, dependem de uma defini��o est�vel, clara e definitiva de quem est� morto e quem est� vivo, al�m de como e quando ocorreu a morte. Por exemplo, criminosos condenados por agress�es que resultaram na ME de suas v�timas poderiam pleitear a redu��o de suas penas, alegando que seu crime deva ser desqualificado como homic�dio, por n�o se poder excluir a possibilidade de que o desligamento do respirador, tenha sido a causa determinante da morte. Situa��es similares podem desencadear tumultos judici�rios, induzindo o sistema legal a retomar a parada card�aca como o momento da morte, evitando-se novos per�odos ca�ticos no futuro.



Enquanto alternativas como o xenotransplante n�o forem viabilizadas tecnicamente, a antevis�o desses acontecimentos pode determinar inflex�vel resist�ncia � discuss�o cient�fica aberta e honesta, em face do grande investimento com que hoje � favorecido o transplante de �rg�os, cujos profissionais acumulam proporcional influ�ncia pol�tica. Apesar de o TA afigurar-se como largamente vulner�vel � cr�tica �tica, pode ser encarado como essencial para o transplante de �rg�os vitais, pois seria obviamente indesej�vel que um paciente declarado como morto, sem o teste do reflexo respirat�rio, voltasse a respirar durante a retirada dos �rg�os vitais. Por outro lado, os postulantes em contr�rio estar�o arriscando-se a contribuir para a morte de uma parcela talvez larga dos pacientes em coma, se apenas repudiarem a discuss�o cient�fica, esquivando-se de refutar o argumento central dessas cr�ticas, o qual � inteiramente auto-sustent�vel:



"� imposs�vel que o FSE atinja n�veis inferiores aos necess�rios para a preserva��o da vitalidade neural sem que, previamente, n�veis mais altos, que sejam apenas insuficientes para sustenta��o das fun��es neurais especializadas (consci�ncia e reflexos cef�licos) sejam ofertados ao enc�falo".



Resultados menos expressivos tem sido obtidos com m�todos de tratamento hipot�rmico diversos daqueles relatados pelo neurocirurgi�o japon�s N. Hayashi, evidenciando que diversos fatores alteram a efici�ncia terap�utica da hipotermia. No entanto, nem esse fato nem os poss�veis efeitos colaterais justificam a sua n�o aplica��o, principalmente quando a �nica alternativa oferecida � nociva e n�o terap�utica - o TA. Enquanto se busca a optimiza��o dos resultados, de imediato deve ser disponibilizada a metodologia empregada por Hayashi, que leva � recupera��o de v�timas de TCE severo, em coma profundo e com pupilas dilatadas e arreativas, a ponto de retomarem a vida cotidiana normal. O m�todo de Hayashi tem por objetivo o controle prim�rio da temperatura intracraniana (n�o da temperatura sist�mica) seguido de preven��o e tratamento rigoroso dos insultos secund�rios graves, como hipertermia e hipotens�o arterial, capazes de anularem o benef�cio do tratamento hipot�rmico ao enc�falo.

 


Em cada ano, apenas no Brasil, milhares de jovens, v�timas de traumatismo cr�nio-encef�lico (TCE), s�o admitidos nos hospitais p�blicos brasileiros, que se encontram desprovidos de um n�mero de leitos suficiente para a demanda por neuroprote��o intensiva, permitindo-se que mesmo casos recuper�veis pelos m�todos tradicionais evoluam para uma situa��o irrevers�vel nos corredores das salas de primeiros socorros. Paradoxalmente, investe-se largas somas no transplante de �rg�os vitais, alocando-se parte do n�mero j� restrito de leitos de UTI para a sustenta��o cardiovascular do potencial doador at� sua qualifica��o atrav�s dos exames pr�-operat�rios. A perda dessas vidas relega por muitos anos ao abandono e � dor aqueles que os amam e, muitas vezes, que deles dependem para o seu sustento, educa��o e forma��o profissional.



Nada poder� provocar maior dano � reputa��o da atividade m�dica do que a subtra��o da discuss�o honesta do que respeita ao bem maior do cidad�o - a vida. Portanto, ao m�dico consciente cabe, como alternativa �nica, defender a vida dos pacientes em coma, ainda recuper�veis, acima de quaisquer interesses, de forma transparente, inequ�voca e desassombrada, auxiliando, sempre que poss�vel, a dissemina��o da discuss�o em torno do assunto para o alcance imediato da verdade. Ao mesmo tempo, deve ser enfatizado o esclarecimento do p�blico em rela��o � necessidade do tratamento cont�nuo de dist�rbios tais como a hipertens�o arterial (que afeta 16 milh�es de brasileiros, e se constitui na maior causa de les�o renal no Brasil), de forma a reduzir-se a necessidade de transplantes. O texto para discuss�o desse assunto, com a necess�ria bibliografia encontra-se dispon�vel no:

Brazilian Journal of Medical and Biological Research, ano 1999 (dezembro), vol 32, fasc�culo 12, p�ginas 1479-1487, que tamb�m pode ser obtido livremente atrav�s da rede mundial de computadores no seguinte endere�o eletr�nico:

http://www.epub.org.br/bjmbr/year1999/v32n12/3633c.htm

Cartas de apoio de especialistas internacionais em ME (incluindo-se entre eles, Alan Shewmon, membro da Comiss�o Organizadora do III Congresso Internacional sobre Coma e Morte, que ocorreu de 22 a 25 de fevereiro de 2000, e James Bernat, Presidente da Comiss�o de �tica da Academia Americana de Neurologia) podem tamb�m ser alcan�adas atrav�s da rede mundial de computadores:

http://www.epm.br/neuro/opinioes.htm

C�cero G. Coimbra
M�dico neurologista e orientador da resid�ncia m�dica, HSPM
Professor Livre-Docente, pesquisador e orientador da p�s-gradua��o em neurologia e neuroci�ncia, Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, UNIFESP
Email:
[EMAIL PROTECTED]   

/////////////////////////////////////////////////////////////////////

 

 
==============================
Saiba mais sobre morte encef�lica em:
 
===================================
===================================

 

-----------------------------------
Endere�os da lista:
Para entrar: [EMAIL PROTECTED]
Para sair: [EMAIL PROTECTED]
-----------------------------------

Grupos.com.br
p�gina do grupo diret�rio de grupos diret�rio de pessoas cancelar assinatura

header_diagnostico.gif

Responder a