Que é em definitivo um gentleman? É um homem livre e bem educado, existindo por
si mesmo e sabendo fazer-se respeitar. É diferente do homem de boa sociedade,
do homem de boas maneiras, mesmo do homem de honra: as maneiras, a linguagem, a
polidez não bastam. São lhes necessárias, ademais, a independência e a
dignidade. Qualquer vassalagem, qualquer servilismo, qualquer familiaridade
mesmo, com mais forte razão um ato desonroso, uma mentira, uma improbidade,
fazem perder o titulo de gentleman. – em suma, o gentleman é o tipo inglês do
homem acabado, e pode dizer-se do próprio rei que é mais ou menos gentleman. A
domesticidade sob todas as suas formas, suprime de duas maneiras o sentimento
da igualdade: porque a dependência e a vulgaridade não podem confundir-se com a
independência e educação.
O gentleman lembra o sábio dos estóicos, o tipo do que se deve ser. É
preferível que seja rendeiro e bem nascido, mas isso não é rigorosamente
indispensável: é difícil mas não impossível que ele seja comercial ou
industrial.
Se deve ganhar a sua vida, é preciso manter-se altivo, reservado, superior á
fortuna e ás circunstancia e só apresentar as suas contas como um artista ou um
médico, com uma espécie de pudor altivo, que conta com a delicadeza do próximo
e não confessa nem os seus sofrimentos, nem as suas necessidades, nem as suas
inquietações, nem nada que o constitua inferior àqueles de quem reclama a
estima e repele a comiseração. O verdadeiro gentleman é ou deve mostrar-se
acima de qualquer coação; não tem senhor e não age senão por condescendência ou
por dever. Homem algum não tem nada a ordenar-lhe, e quando obedece, é á lei
impessoal, ou á palavra dada, ou ao contrato aceito, em suma, a si mesmo que
obedece, ao que obedece justo, eqüitativo, e não a um despotismo qualquer. –
“Deus e o meu direito”, eis a sua divisa. O gentleman é decididamente o homem
livre, o homem mais forte do que as cousas, sentindo que a personalidade
suplanta
todos os atributos acessórios de fortuna, de saúde, de categoria, de poder,
etc..., e constitui o essencial, o valor intrínseco e real do indivíduo. Diz-me
quem és e dir-te-ei o que vales. Esse ideal luta felizmente contra o grosseiro
ideal, igualmente inglês, do capital, cuja formula é: quanto vale este homem?
O gentleman é o homem dono de si mesmo, que se respeita e se faz respeitar. Sua
essência é pois a soberania interior. É uma caráter que se possui, uma força
que se governa, uma liberdade que se afirma e se mostra e se regula sobre o
tipo da dignidade. Esse ideal é mais moral do que intelectual. Mas do respeito
a si mesmo derivam mil cousas, tais como o cuidado da própria pessoa, da
linguagem, das maneiras, a vigilância do corpo e da alma, o domínio dos
instintos e das paixões, a necessidade de bastar-se a si mesmo; a altivez que
não implora e não quer favor algum, o cuidado de não expor-se a nenhuma
humilhação, a mortificação alguma, não se colocando sob a dependência de nenhum
capricho humano, a preservação constante da honra e do amor próprio.(...) Há de
manter-se o gentleman irrepreensível, para não sofrer qualquer censura; para
ser tratado com respeito, estará sempre atento em conservar as distâncias, em
matizar as
atenções, em observar todas as gradações da polidez convencional, segundo a
classe, a idade, a situação das pessoas. Por isso mesmo, será
imperturbavelmente reservado e circunspecto em presença de algum desconhecido,
cujo nome e valor ignore e a quem poderia manifestar excesso ou falta de
cortesia. Ele o ignora e o evita; e se é interpelado, desvia-se: se lhe dirigem
a palavra, interrompe logo com altivez.
Sua polidez é pois não humana e geral, mas toda individual e apropriada as
pessoas.
não concordo com tudo, mas achei interessante...
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"Quelle connerrie est la guerre"
(Jacques Prévert)
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