Darnton e Makinson: 'Livro não morreu e nem vai'

O segundo dia de debates da 8ª Festa Literária Internacional de Paraty
começou com a continuação da discussão do futuro dos livros. Novamente, o
historiador e diretor da biblioteca de Harvard Robert Darnton subiu ao palco
da Tenda dos Autores para refletir, desta vez ao lado de John Makinson, CEO
da editora Penguin Books, e da mediadora Cristiane Costa, sobre os destinos
da palavra escrita e continuar o papo sobre o ambicioso projeto de
digitalização de livros do Google, o papel do editor neste novo mercado e as
infinitas possibilidades de interação de mídias nos e-books. O aprimoramento
e a popularização destas tecnologias estaria levando o mundo dos livros uma
nova era, em que se vive a emergência da chamada quarta tela que, depois da
televisão, do computador e do celular, pertence aos tablets.

Diante de uma plateia interessada, que por várias vezes vibrou com as
opiniões expostas na palestra, Darnton foi categórico ao afirmar que vê
muito futuro à frente da literatura e que livros tradicionais e digitais
podem coexistir pacificamente.

- O rádio não matou o jornal, a TV não matou o rádio. É claro que o futuro é
digital, mas o livro não morreu e nem vai. Neste ano serão publicados 1
milhão de livros em todo mundo, só estamos passando por uma transição.

Por sua ligação com as questões de mercado, Makinson acabou sendo
questionado sobre os métodos que as editoras estrangeiras vêm buscando para
não enfrentar uma crise similar à que afetou a indústria fonográfica,
reduzindo a venda de CDs em até 70% nos últimos anos.

- Há uma grande diferença entre o mercado musical e o de livros. Com a era
digital, o consumidor viu que era possível comprar apenas uma música, mas
ninguém vai chegar em uma livraria e comprar apenas um capítulo de um livro.
As pessoas podem ter 35 mil músicas num iPod, mas não faz sentido terem 35
mil livros num e-reader - explicou o convidado, que além de publisher, é
dono de uma pequena livraria independente na Inglaterra. - Diferentemente da
indústria fonográfica, a impressão ilegal ainda não afeta as vendas de
livros.

Outro ponto importante da discussão atual sobre o processo de digitalização
de livros é o Google Books, projeto do qual Darnton é crítico ferrenho.

- Admiro o Google e acho excelente que o Google Books tenha 2 milhões de
livros em domínio público para o livre acesso, mas é inaceitável o projeto
deles de pegar os livros de bibliotecas como a de Harvard, digitalizar e
cobrar de nós o acesso a este acervo que é de pesquisa. E isso me preocupa,
é a privatização do conhecimento e um monopólio comercial - disse o
historiador, arrancando aplausos da plateia da Flip.

Para uma mesa que tratou de assuntos como a morte do livro, do autor, do
jornal e até das bibliotecas, a previsão sobre aquilo que ainda vai ser
escrito, publicado e lido foi bastante otimista. Para a dupla de
debatedores, autores e editores têm muito a ganhar com a transição literária
do papel para o meio eletrônico e as possibilidades de integração com áudio,
vídeo, realidade aumentada e hipertexto.

- Quanto mais disponível um livro está, mais ganha o autor. O editor, quando
compra os direitos sobre uma obra, recebe os direitos para publicá-los na
forma digital e física. O papel do editor não vai morrer. Pelo contrário,
tende a aumentar com o as possibilidades de integração de conteúdo. Nós, os
editores, temos que desenvolver ferramentas e capacidades para tirar
vantagem deste negócio. Temos a chance de experimentar e enriquecer o leitor
- disse Makinson.

Para Darnton, os editores ainda têm o importante papel de proteger os
direitos dos autores.

- Com a tecnologia, é fascinante perceber que os autores podem dialogar com
os leitores diretamente. Mas devemos proteger os direitos dos autores no
meio digital, eles merecem ser recompensados pela propriedade intelectual de
suas obras.

Segundo os debatedores, o e-book, que não conta com despesas de impressão,
estocagem e distribuição, ainda precisa buscar um modelo econômico viável.
Métodos como o da subscrição, semelhante o das TVs por assinatura, são
possíveis, mas não suficientes, segundo Makinson.

- Acho que há mercado para a subscrição, como no caso de uma pessoa pagar
para baixar uma coleção inteira de livros clássicos, mas não sei se esse
modelo vai se tornar regra pois as pessoas vão continuar querendo comprar
livros 'a la carte', de acordo com interesses específicos.

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FG

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