Flip 2010: A batalha dos novos e-books contra o velho papel


“O futuro aponta para o mundo digital, mas os e-books não vão matar os
livros de papel”. Esta é a conclusão do historiador americano Robert
Darnton, diretor da biblioteca de Harvard, depois das duas aguardadas mesas
que debateram o futuro do livro durante a 8 edição da Festa Literária
Internacional de Paraty. O assunto está em alta em tempos de popularização
de Kindles e iPads e do anúncio do lançamento, no próximo dia 10, do
Positivo Alfa, o primeiro e-reader fabricado no Brasil, que vai custar em
torno de R$ 700 e terá capacidade para mais de 1.500 livros.

A primeira discussão, que encerrou a programação de quinta-feira, juntou
Darnton ao historiador inglês Peter Burke. Já a segunda, na manhã de sexta,
trouxe novamente Darnton aos holofotes, desta vez ao lado de John Makinson,
CEO da Penguin Books, que acaba de entrar no mercado brasileiro em parceria
com a Companhia das Letras.

Longe de demonizar os aparelhinhos eletrônicos que, pouco a pouco, dão nova
dimensão ao ato de ler e comprar livros, todos os debatedores ressaltaram as
vantagens dos e-books. Eles também alertaram para a importância de autores,
editoras e livrarias se adaptarem a este novo mundo e frisaram as
oportunidades de integração multimídia que os leitores digitais oferecem, já
difundidas nos EUA e Europa, mas ainda não no Brasil.

— Os editores brasileiros vão demorar a ter condições de investir nisso, mas
estamos trabalhando em alguns projetos para compreender como o mecanismo
funciona — explica Luiz Schwarcz, dono da Companhia das Letras, uma das
primeiras a comercializar e-books no país.

Tantas pesquisas buscam o formato ideal para a publicação eletrônica que ele
ainda parece distante de ser encontrado. Enquanto Burke diz acreditar que
livros curtos terão mais destaque em leitores digitais (“Não consigo
visualizar ninguém lendo as mil páginas de ‘Guerra e paz’ num Kindle”),
Darnton destinou à ferramenta um ambicioso projeto em que pretende anexar
mais de 50 mil documentos relativos à sua pesquisa, dando ao leitor a opção
de se aprofundar em um tema ou lê-lo apenas superficialmente.

Com a discussão da morte do livro, a possível extinção das livrarias entrou
em pauta devido ao crescimento das compras on-line e da concorrência de
gigantes como a Amazon, que vendem tantos livros físicos quanto virtuais.
Makinson lembra que os livreiros têm um importante papel de orientação do
consumidor em meio à infinidade de opções oferecidas. Já Rui Campos, dono da
rede de livrarias Travessa, aposta no fetiche do livro como fator de
longevidade do comércio real:

— A demanda não acabará.

Schwarcz concorda, mas também ressalta a mudança de posicionamento e
estratégias das lojas físicas.

— Estamos vivendo um momento de esplendor das livrarias, que representam
mais do que pontos de vendas de livro, são pontos de encontro, verdadeiros
polos culturais — avalia.

Último debatedor de ontem, o romancista britânico Salman Rushdie mencionou
ainda vantagens do livro de papel sobre as edições digitais:

— O livro não precisa de bateria. Se você derruba Coca-cola num PC, ele
morre. Se você derruba num livro, ele retém as informações.

Jorge Oakim, dono da Intrínseca, às voltas com a digitalização do catálogo,
acredita que, independentemente do formato e do local de compra, o leitor
tende a aderir aos e-books.

— Brasileiros gostam de tecnologia. Como os preços dos e-readers tendem a
baixar, ao passo que eles serão aprimorados, os e-books devem se tornar
populares aqui.


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FG

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