Governo dos EUA aperfeiçoa detector de comportamento suspeito


Carlos Alberto Teixeira - O Globo



RIO - O departamento americano de segurança doméstica (DHS - Department of
Homeland Security) está testando e aperfeiçoando um sistema de detecção de
más intenções que será usado como medida preventiva antiterrorista em locais
como aeroportos e fronteiras.



Como no filme "Minority Report", em que um esquadrão perseguia futuros
criminosos antes de eles cometerem seus crimes, o novo sistema foi
inicialmente anunciado como um aparato capaz de ler mentes. O protótipo
chama-se FAST M² (Future Attribute Screening Technologies - Mobile Module)
e, na verdade, apenas interpreta sinais colhidos na pessoa sendo examinada -
parâmetros como dados biométricos e reações corporais. Trata-se de um
identificador de possíveis intenções hostis, funcionando em tempo real e
empregando sensores não invasivos.



Combinando as informações colhidas, o FAST M², também conhecido como
MALINTENT, julga se o perfil do examinado aponta para uma necessidade de
esclarecimentos adicionais. Caso positivo, a pessoa é encaminhada a um
funcionário do DHS para um questionamento primário. Se persistirem dúvidas,
ela é encaminhada a um segundo nível de perguntas, mais demorado e mais
aprofundado. O FAST M é um longo trailer metálico com interior modular,
rebocado por caminhão e cheio de equipamentos avançados de medição. As
pessoas formam filas diante das quatro portas da estrutura e, lá dentro, são
examinadas uma a uma.



A novidade, como não poderia deixar de ser, vem causando justificadas
irritação e receio nos cidadãos americanos, que consideram-na mais uma
intromissão exagerada em suas intimidades, atentando contra sua privacidade.
O sistema será usado em conjunto com sensores de metais, radiação, tóxicos e
explosivos.



Segundo o DHS, o FAST M² foi testado recentemente no estado americano de
Maryland com 144 pessoas que pensavam estar indo a uma exposição de
tecnologia.



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Discurso de Jay M. Cohen, subsecretário da Diretoria de Ciência e Tecnologia
do Departamento de Segurança Doméstica (DHS) dos EUA, em 24 de julho de
2008, em que falou sobre privacidade e "datamining":



*''Olhando da minha perspectiva, já que andei avaliando todas as 20 áreas da
Diretoria de Ciência e Tecnologia, todas as diferentes 21 disciplinas, as
duas que considero únicas são, número um, a psicologia do terrorismo -
porque os terroristas fazem o que fazem? Ou seja, eles podem ser encarados
como criminosos, como exércitos etc. Mas por que eles agem assim? Pareceu-me
claro que nenhum outro componente do governo americano estava investindo
nessa questão.*

* *

*A segunda área é a de intenções hostis e falaremos sobre isso em seguida.
Será que existem maneiras de saber quando alguém está a ponto de fazer algo
mau para nossa sociedade? [...]*

* *

*Esse estudo se chama "detecção de comportamento suspeito". O objetivo aqui
é identificar más intenções em tempo real utilizando sensores não-invasivos.
É o que chamamos de projeto FAST (Future Attribute Screening Technology). A
idéia agora é construirmos um protótipo para funcionar em tempo real. Tudo
que fazemos quando analisamos, por exemplo, segurança nos transportes é
maximizar a quantidade de informações que podemos obter numa primeira
avaliação do suspeito, de forma que cheguemos rapidamente a uma conclusão.
Depois disso, é só focarmos na segunda avaliação, que pode ser feita por
perguntas e respostas.*

* *

*Normalmente com passageiros internacionais, primeiro perguntamos, depois os
passamos pelo detector de metais. Se houver atividade suspeita, então
procedemos à avaliação secundária, que é cara, intensa e interfere na vida
do passageiro.*

* *

*Então, o que é o FAST, afinal?*

* *

*Aviação é, na maioria dos casos, um sistema de transporte fechado. Nós
estabelecemos barreiras porque acreditamos que se mantivermos pessoas e
coisas más fora da aeronave, manteremos o vôo seguro. A propósito, aeronaves
são a fixação dos terroristas que nos afligem.*

* *

*Mas quando tratamos de metrô, trens, ônibus, transporte de massa, onde há
milhares de pessoas, não podemos usar os mesmos procedimentos pois são meios
de transporte abertos. E mesmo que possamos impedir uma bomba de entrar num
metrô ou numa estação ferroviária - ainda temos milhares de quilômetros de
ferrovias inseguras.*

* *

*Como lidar com essa situação? Por exemplo, os países asiáticos, durante a
epidemia de SARS, usaram câmeras infravermelho nos passageiros. Eles não
queriam saber se era homem, mulher, alto ou baixo. Eles olhavam para o rosto
da pessoa. Se o equipamento infravermelho acusava alta temperatura na
fronte, então provavelmente a pessoa estava com febre, o que poderia ser um
precursor ou indicador de SARS. Se fosse o caso, então, a pessoa era
encaminhada para averiguação secundária - perguntas e respostas - que é o
último nível que lhes mencionei há pouco.*

* *

*Assim, se você é um terrorista, você quer chegar até o seu alvo, você pode
estar nervoso, você pode estar suando, seu rosto pode estar se resfriando
por evaporação de suor, seus batimentos cardíacos podem estar acelerados,
seus olhos podem estar brilhando, sua forma de andar pode estar alterada.
Existem microcaracterísticas faciais que podem servir como pistas, e esse é
um novo tipo de ciência que estamos aprendendo hoje.*

* *

*Você está dizendo a verdade ou está enganando? Então, a meta aqui é que,
num evento público, tal como numa partida de futebol ou numa Olimpíada,
possamos fazer averiguações não invasivas que possam nos indicar intenções
ruins de modo que possamos partir para averiguações secundárias, caso
necessário. Se for o seu caso, situações totalmente normais podem ter
acontecido com você. Um de seus pais pode ter morrido há pouco. Ou você pode
ter chegado às pressas para o evento, ou pode até ter corrido para chegar a
tempo. Ou seja, várias situações podem ter contribuído para você ter
apresentado um perfil suspeito. No segundo nível, você seria facilmente
liberado e tudo bem.*

* *

*É aí que entra o estudo de modelagem e simulação de intenções violentas,
algo que tem a ver com a coleta e a análise sistemática de informações
relacionadas ao entendimento das intenções de grupos terroristas. Como eles
se comportam e quais suas reações quando agem sozinhos? E quando estão em
grupo? O objetivo da diretoria de Ciência e Tecnologia do DHS (Department of
Homeland Security) é justamente isso - levar essas ferramentas tecnológicas
até aqueles que zelam por nossa segurança. Minha esperança é que não haja um
novo ataque, que haja paz e felicidade no mundo. Mas se ouvirmos os
especialistas em ambos os lados da questão, eles nos dirão: vai haver um
novo ataque. E os nossos inimigos querem perpetrar algo ainda maior e mais
devastador que o de 11 de setembro de 2001. A questão não é "se", mas
"quando".*

* *

*A pergunta que me faço todos os dias é se, durante meu mandado à frente
desta diretoria, terei feito todo o possível, com os recursos e ferramentas
de que disponho, e de acordo com as nossas leis e nossa cultura, para
manter-nos tão seguros quanto possível. Assim, com isso, eu termino minha
fala. Tenham um bom dia e obrigado.''*


A íntegra, em inglês, dessa fala pode ser lida em
http://tinyurl.com/fala-cohen, da página 18 à 26 do PDF.

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