Ao colega Márcio, Procurador Geral do Estado de São Paulo,
 
 
 
    Eu e todos os colegas da advocacia pública estamos orgulhosos com a vitória judicial obtida por vc. e sua equipe, na questão da Serra do Mar. É uma decisão histórica, como disse o colega Guilherme. Há vários anos ouvia-se um zunzum a respeito dessa indenização, mas se ficava na mera denúncia. Denunciar e esbravejar costuma dar satisfação, mas, como já disse Foucault, estamos cansados desse tipo de "espetáculo". Em verdade, é preciso passar do "espetáculo" da denúncia para a humildade da ação. Você e nossos colegas souberam agir e conseguiram uma vitória judicial histórica, que extrapola seus limites meramente processuais e ingressa no terreno da cidadania.
    Há outras indenizações milionárias, espalhadas por várias fazendas públicas, produzidas por canetas judiciárias que "escorregam", qdo se trata de condenar o Estado. O ensino jurídico e boa parte da doutrina instila nas cabecinhas mais fracas um discurso liberal grotesco, em que o Poder Público é o "mal", o advogado que consegue condená-lo, um paladino da justiça. Liberar alguém de pagar imposto, vencendo os advogados "fazendários", constitui vitória da liberdade. Qualquer tratamento diferenciado para a Fazenda Pública, em matéria processual, é imediatamente chamado de privilégio, quando as causas em que o Estado é parte são defendidas por abnegados, que trabalham em condições dificílimas.
    É preciso mudar essa imagem, extraída de um liberalismo que tinha sentido em outra época, mas hoje se mostra infantil. Vc. e os colegas conseguiram, nas circunstâncias ( e toda ação é limitada às circunstâncias, toda ação pressupõe vitórias incompletas ), dar um passo na derrubada desse muro ideológico, responsável por muitas condenações absurdas das fazendas públicas. 
 

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