> A suposição de que a
> operação de tomar o conjunto das partes representa a operação de
> sucessor para os números cardinais infinitos é conhecida pelo nome de
> hipótese do contínuo, e a nossa principal teoria dos conjuntos (ZFC) é
> compatível tanto com a verdade quanto com a falsidade desta hipótese.

Num certo país P, há uma certa igreja I1 cujos membros defendem
ardorosamente a FALSIDADE da Hipótese do Contínuo.  No capítulo H do
texto sagrado M, uma das parábolas diz:

"versículo 18 - Naquele tempo, dizia o profeta G: ignorai o Nulo!
Neste caso, entre o mais pequeno e as suas partes há sempre algo que
não pode ser identificado com nenhum dos dois.
versículo 19 - Como podeis querer defender que a mesma Lei não valerá
para o mais grande, para aquele que não deixa de ser do mesmo tamanho
que as suas partes?
versículo 20 - Disse mais: O mesmo princípio que rege o pequeno rege o grande.
versículo 21 - Um elefante não é melhor que o grão de mostarda comido
por um camelo na entrada de uma agulha."

Esta parábola é interpretada pelo clero de I1 como dizendo
inequivocamente que para todo conjunto não-vazio C há um conjunto cuja
cardinalidade está entre a cardinalidade de C e do conjunto das partes
de C.  "Seja louvado G, em sua infinita sapiência."

Uma outra Igreja I2 defende, ao contrário, a VERDADE ABSOLUTA da
Hipótese do Contínuo.  O mantra S do livro sagrado L diz, como toda
pessoa minimamente educada sabe bem:

"Que todas as coleções imensas em todas as partes estejam ligadas
entre si por princípios belos e únicos, que a construção que segue a
multiplicação se aplique entre elas uniformemente, em todas as searas
tocadas pela Beleza e pela Unicidade, e que os peixes e os pães cantem
em louvor da harmonia do Sucessor."

A interpretação canônica para este texto exige que, para conjuntos com
uma cardinalidade infinita kapa, os Sucessores sejam dados exatamente
seguindo a progressão 2^kapa, (2^kapa)^kapa, ((2^kapa)^kapa)^kapa, "e
assim por diante".  Disputas há, claro, sobre o significado último
desta cláusula entre aspas, e muitos artigos iluminados têm sido
escritos pelos membros de I2 sobre a noção de se seguir regras ou, por
assim dizer, implodi-las dentro da harmonia do Sucessor.

A história da convivência secular entre os fiéis de I1 e de I2 não tem
sido sem acidentes.  Embora as diferenças claras entre seus dogmas
respectivos não afete claramente nenhuma das atividades cotidianas do
país P, cujas leis magnas optaram pela laicidade relativa ao Contínuo,
inconvenientes práticos causados pela intolerância dos membros de I2
têm dado origem a perseguições brutais aos membros de I1, que são
marginalizados abertamente de todas as atividades de trabalho ou lazer
disponíveis em P.  Mais recentemente, inclusive, registros de
agressões físicas a i-dois-ístas causadas por membros da chamada
Juventude IUM não têm sido raros.

Abertamente, os membros de I1 costumam se referir aos membros de I2
como "ressonantes", e os membros de I2 chamam os membros de I1, a boca
pequena, de "multi-idólatras".

A situação tem se tornado mais tensa nos últimos anos, em P, com a
proliferação do grupo filosófico dos *incardinalistas*, que defendem
que toda a questão sobre a verdade ou a falsidade da Hipótese do
Contínuo na melhor das hipóteses carece de sentido.  Mesmo se
evidências se apresentarem algum dia a favor de uma das crenças, dizem
os incardinalistas, o resultado não será mais relevante do que as
conclusões que dele puderem se extrair.  É claro que ambos os membros
de I1 e de I2 têm rejeitado como promíscuos e detestáveis todos e
quaisquer incardinalistas, criticando-os duramente por não quererem
tomar partido de uma disputa que obviamente é decisiva.  Dizem os
fiéis de ambas as seitas, em uníssono, que é impossível imaginar
alguém que possa viver sem uma opinião a respeito de um assunto tão
fundamental, e daí concluem eles que os incardinalistas mentem e devem
logicamente ser queimados, sem mais delongas.  Os fiéis exacerbados
costumam dizer a nós, que chegamos de outros países e nos espantamos
com o número de fogueiras que queimam nos campos, dia e noite, que é
impossível explicar em palavras, na língua deles, a necessidade da
intolerância.  "É assim", dizem eles.

É um país muito engraçado, mas também muito perigoso de se visitar.
JM
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