Taí, gostei...

2008/9/15 Joao Marcos <[EMAIL PROTECTED]>

> > A suposição de que a
> > operação de tomar o conjunto das partes representa a operação de
> > sucessor para os números cardinais infinitos é conhecida pelo nome de
> > hipótese do contínuo, e a nossa principal teoria dos conjuntos (ZFC) é
> > compatível tanto com a verdade quanto com a falsidade desta hipótese.
>
> Num certo país P, há uma certa igreja I1 cujos membros defendem
> ardorosamente a FALSIDADE da Hipótese do Contínuo.  No capítulo H do
> texto sagrado M, uma das parábolas diz:
>
> "versículo 18 - Naquele tempo, dizia o profeta G: ignorai o Nulo!
> Neste caso, entre o mais pequeno e as suas partes há sempre algo que
> não pode ser identificado com nenhum dos dois.
> versículo 19 - Como podeis querer defender que a mesma Lei não valerá
> para o mais grande, para aquele que não deixa de ser do mesmo tamanho
> que as suas partes?
> versículo 20 - Disse mais: O mesmo princípio que rege o pequeno rege o
> grande.
> versículo 21 - Um elefante não é melhor que o grão de mostarda comido
> por um camelo na entrada de uma agulha."
>
> Esta parábola é interpretada pelo clero de I1 como dizendo
> inequivocamente que para todo conjunto não-vazio C há um conjunto cuja
> cardinalidade está entre a cardinalidade de C e do conjunto das partes
> de C.  "Seja louvado G, em sua infinita sapiência."
>
> Uma outra Igreja I2 defende, ao contrário, a VERDADE ABSOLUTA da
> Hipótese do Contínuo.  O mantra S do livro sagrado L diz, como toda
> pessoa minimamente educada sabe bem:
>
> "Que todas as coleções imensas em todas as partes estejam ligadas
> entre si por princípios belos e únicos, que a construção que segue a
> multiplicação se aplique entre elas uniformemente, em todas as searas
> tocadas pela Beleza e pela Unicidade, e que os peixes e os pães cantem
> em louvor da harmonia do Sucessor."
>
> A interpretação canônica para este texto exige que, para conjuntos com
> uma cardinalidade infinita kapa, os Sucessores sejam dados exatamente
> seguindo a progressão 2^kapa, (2^kapa)^kapa, ((2^kapa)^kapa)^kapa, "e
> assim por diante".  Disputas há, claro, sobre o significado último
> desta cláusula entre aspas, e muitos artigos iluminados têm sido
> escritos pelos membros de I2 sobre a noção de se seguir regras ou, por
> assim dizer, implodi-las dentro da harmonia do Sucessor.
>
> A história da convivência secular entre os fiéis de I1 e de I2 não tem
> sido sem acidentes.  Embora as diferenças claras entre seus dogmas
> respectivos não afete claramente nenhuma das atividades cotidianas do
> país P, cujas leis magnas optaram pela laicidade relativa ao Contínuo,
> inconvenientes práticos causados pela intolerância dos membros de I2
> têm dado origem a perseguições brutais aos membros de I1, que são
> marginalizados abertamente de todas as atividades de trabalho ou lazer
> disponíveis em P.  Mais recentemente, inclusive, registros de
> agressões físicas a i-dois-ístas causadas por membros da chamada
> Juventude IUM não têm sido raros.
>
> Abertamente, os membros de I1 costumam se referir aos membros de I2
> como "ressonantes", e os membros de I2 chamam os membros de I1, a boca
> pequena, de "multi-idólatras".
>
> A situação tem se tornado mais tensa nos últimos anos, em P, com a
> proliferação do grupo filosófico dos *incardinalistas*, que defendem
> que toda a questão sobre a verdade ou a falsidade da Hipótese do
> Contínuo na melhor das hipóteses carece de sentido.  Mesmo se
> evidências se apresentarem algum dia a favor de uma das crenças, dizem
> os incardinalistas, o resultado não será mais relevante do que as
> conclusões que dele puderem se extrair.  É claro que ambos os membros
> de I1 e de I2 têm rejeitado como promíscuos e detestáveis todos e
> quaisquer incardinalistas, criticando-os duramente por não quererem
> tomar partido de uma disputa que obviamente é decisiva.  Dizem os
> fiéis de ambas as seitas, em uníssono, que é impossível imaginar
> alguém que possa viver sem uma opinião a respeito de um assunto tão
> fundamental, e daí concluem eles que os incardinalistas mentem e devem
> logicamente ser queimados, sem mais delongas.  Os fiéis exacerbados
> costumam dizer a nós, que chegamos de outros países e nos espantamos
> com o número de fogueiras que queimam nos campos, dia e noite, que é
> impossível explicar em palavras, na língua deles, a necessidade da
> intolerância.  "É assim", dizem eles.
>
> É um país muito engraçado, mas também muito perigoso de se visitar.
> JM
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