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Assunto:        Re: [Logica-l] RE : JvH e a lenda do Frege com papai da logica 
moderna
Data:   Sun, 25 Jan 2009 11:42:35 -0200
De:     Wagner de Campos Sanz <[email protected]>
Para:   Joao Marcos <[email protected]>
Referências: 
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<[email protected]>



Caro Joao, JY, e outros,

Gostaria de ver mais pessoas que trabalham com filosofia e historia da 
logica manifestar sua opiniao acerca do tema.
Com respeito ao assunto, por certo que os "herois" variam conforme as 
personalidades e os seus gostos.
Em minha opiniao Frege merece o titulo de pai da logica contemporanea, 
pois ele é dele o giro conceptual que deu origem aos instrumentos 
basicos da logica contemporanea.
Todavia, a obra que teve grande impacto no desenrolar dessa historia 
foram os Principia de Russell, o qual muitas vezes diz ter recebido ou 
tomado as ideias de Frege.
Do ponto de vista da criação de problemas, pesquisa e dos resultados que 
se seguiram dentre os mais relevantes da logica no sec. XX, dificil nao 
ter em conta Hilbert e seu programa fundacionista.
Todavia, me parece, o impacto de Hilbert foi maior na comunidade dos 
matemáticos. Vale lembrar que o proprio Hilbert atribui importancia e 
paternidade a algumas ideias fundamentais com as quais trabalhamos em 
logica hoje em dia a Frege e a Russell.
Naturalmente em seguida veem Tarski e Godel. Como anedota, segundo a 
recente biografia de Tarski, ele dizia ser o lógico são mais importante 
do momento (daquele momento), provavelmente uma referencia nada cortes a 
demencia de Godel.
À aqueles que conhecem a obra de Tarski mais de perto pergunto: o 
sistema que subjacente em boa parte dos artigos de Tarski, como aquele 
sobre consequencia logica, é necessariamente o sistema dos Principia ou 
pode ser outro sistema qualquer?
Abraços a todos,

WS



Joao Marcos escreveu:
> * * *
>
>   
>> Gödel com se sabe trabalhou a partir do livro do Hilbert e Ackerman
>> que tem pouco a ver com Frege.
>> E o Hilbert que formalizou as coisas da forma que se aproxima mais
>> de como a gente trata a logica de predicados hoje em dia
>>     
>
> Jean-Yves é um polemista nato, como muitos aqui devem saber, mas minha
> opinião pessoal, neste caso, é de que esta crítica à tendência de
> situar Frege como "pai da lógica moderna" não é NADA absurda.  Os
> conceitos de "moderno" e de "lógica moderna", evidentemente, variam o
> tempo inteiro, mas não me parece nem um pouco clara qual seria a linha
> histórica contínua que uniria Frege à "lógica matemática" ou mesmo à
> "lógica filosófica" que fazemos na contemporaneidade.  Frege parece
> ter sido pouco lido e ter tido pouquíssima influência nos
> desenvolvimentos realmente notáveis que se seguiram --- os quais
> passaram claramente por Skolem e Tarski.
>
> O recente "The Handbook of the History of Logic" talvez ajude a
> esclarecer o mito criado em torno de Frege e o "nascimento da lógica
> moderna".  O volume 3 do Handbook se chama "The Rise of Modern Logic
> I: Leibniz to Frege" (http://www.johnwoods.ca/HHL/#Vol3), e o volume
> 5, que deve ser publicado em breve, se chama "Logic from Russell to
> Church" (http://www.johnwoods.ca/HHL/#Vol5), e conterá em particular
> um artigo muito elogiado intitulado "Gödel's Logic", de Mark Van Atten
> e Juliette Kennedy.
>
> * * *
>
>   
>> Nao acho exagerado dizer que a influencia do Frege sobre Gödel foi zero.
>>     
>
> Consta, por outro lado, da (também excelente) biografia de Hilbert
> feita por Constance Reid afirma-se que Gödel e Hilbert JAMAIS se
> corresponderam, e isto se reflete de fato nos volumes IV e V de
> "Selected Correspondence" do "Collected Works" de Gödel, onde se podem
> ler contudo cartas de Gödel para Bernays, Büchi, Carnap, Church, Paul
> Cohen, Herbrand, Heyting, Robinson, Tarski, Ulam, von Neumann, Popper,
> Emil Post, Russell, Skolem, Suppes, Zermelo, obviamente Hao Wang e o
> próprio van Heijenoort, entre outras figuras.
>
> * * *
>
> Digo mais, pra finalizar: poderíamos com muito mais razão chamar
> Frege, quando muito, de "pai da filosofia analítica", a começar pela
> releitura sensacional que ele fez da epistemologia kantiana, já desde
> o Begriffschrift (que seria novamente subvertida várias décadas mais
> tarde, pelo Kripke de "Naming and Necessity", e que podemos deixar
> para discutir em outra linha de mensagens).  A este propósito
> recomendo a todos, aliás, a leitura do excelente livro "Frege, an
> introduction to the founder of modern analytic philosophy", de Anthony
> Kenny.
>
> Nada do que afirmo acima, em princípio, parece ir diretamente contra o
> que o Luiz Henrique defende em seu livro, que ainda não tive a
> oportunidade de ler.  Sem querer me meter a historiador da "lógica",
> ou da "filosofia da lógica", ainda assim me parece importante não
> confundir "lógica" com "filosofia analítica", e não super-estimar
> conexões históricas que de fato não existem, ou que são na realidade
> bem mais tênues do que alguns gostariam que fossem.
>
> * * *
>
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