Caro Carlos,

Muito completa e bastante interessante sua resposta. Fui agora dar uma 
checada na autobiografia do Carnap.
Ele assistiu tres disciplinas com Frege ao que parece dentre elas 
Begrifschrift I e II e ninguem fazia perguntas . Ele mesmo confessa que 
so depois da I Guerra foi compreender o significado do trabalho de Frege 
para a Filosofia (ed. Schilpp. The Philosophy of Rudolph Carnap, págs 6 
e subsequentes). Diz tambem (pag. 13) "*Whereas Frege had the strongest 
influence on me in the fields of logic and semantics, in my 
philosophical thinking in general I learned most from Bertrand 
Russell*....". Confirma que sua Abriss foi baseada em PM. (pág. 14). 
Também refere a influência de PM em seu Aufbau (pág. 16).
Com respeito a PM, na parte final do Prefacio, nos agradecimentos, de 
Whitehead e Russell (ultimo parágrafo) lemos: "Detailed acknowledgements 
.... *In all questions of logical analysis, our chief debt is to Frege*. 
Where we differ from him, it is largely because the contradictions 
showed that he,..., had allowed some error to creep into his premisses; 
but apart from the contradictions , it would have been almost impossible 
to detect this error....". Isso pode servir pelo menos de indicio de que 
de fato a idéia de uma teoria dos tipos era a resposta de Russell e 
tambem de Whitehead no campo logicista de fundamentacao da matematica, 
agora supostamente corrigido dos seus problemas.

Um abraço,

WS


>
>
>     Caro Wagner,
>
>     Eu nunca estudei esse tema, mas quero fazer alguns comentários,
>     esperando que nem todo o que eu fale seja trivial ou falso.
>
>     1) Apesar de ter sido aluno de Frege, Carnap na Logische Aufbau der
>     Welt (1928), baseia-se no Principia Mathematica. Ele não só fala
>     que é
>     o mais abrangente, mas o único que tem uma teoria das relações
>     desenvolvida. Me corrijam a tradução:
>
>     
> http://books.google.com.br/books?id=Y2xZv4Yj--MC&pg=PA3&lpg=PA3&dq=%22vorarbeiten+von+Frege,+schr%C3%B6der%22&source=web&ots=CnUOwT4Oer&sig=0aqrpaClXaJjFBbkeQUB0EKHjjM&hl=pt-BR&sa=X&oi=book_result&resnum=1&ct=result#PPA4,M1
>
>     "O sistema de logística mais abrangente é o de Whitehead e Russell.
>     Ele é atualmente o único que contém uma teoria das relações
>     desenvolvida"
>
>     "Ele baseia-se no trabalho prévio de Frege, Schröder, Peano e
>     outros.
>     Ele está apresentado totalmente nos Principia Mathematica"
>
>     O problema é o seguinte: será que Carnap pensa que uma teoria das
>     relações precisa de uma teoria dos tipos? No mesmo parágrafo
>     citado,
>     ele coloca que uma síntese dessa teoria pode ser encontrada (eu acho)
>     no Abriss der Logistik do próprio Carnap (1929).
>     Ou será que Carnap considera que a Begriffsschrift não contém o que
>     hoje chamamos de lógica de primeira ordem?
>
>     Eu acho que na Logische Aufbau der Welt Carnap usa somente lógica de
>     predicados de primeira ordem, mas não tenho certeza porque li só uma
>     página desse livro ;-)
>
>     2) É bem possível que a influência que Carnap tem de Leibniz
>     tem muito
>     a ver com as aulas e a obra de Frege, que era um Leibniziano assumido.
>     Na mesma página citada, Carnap escreve:
>
>     Die Grundgedanken der Relationsthe orie geben zurück auf die
>     Leibnizschen Ideen einer "mathesis universalis" und einer "ars
>     combinatoria"; die Anwendung der Relationstheorie für den Aufbau des
>     Konstitutionssystems berühhrt sich mit der Leibnizschen Idee einer
>     "characteristica universalis" und einer "scientia generalis".
>
>     "As idéias fundamentais da teoria de relações remete-se à s
>     idéias de
>     Leibniz de uma 'mathesis universalis' e uma 'ars combinatoria'; a
>     aplicação da teoria de relações na construção do sistema
>     constitutivo
>     baseia-se na idéia de Leibniz de uma 'characteristica universalis' e
>     uma 'scientia generalis'."
>
>     3) A obra de lógica mais influente no período 1920-1933 (pelo
>     menos) é
>     Principia Mathematica (1910-1913). Em "From Frege to Gödel" está a
>     famosa carta de Russell a Frege (1902), ou seja, o jovem Russell
>     estava estudando a obra de Frege. Mas Russell ficou impressionado com
>     a escola de Peano quando f oi ao congresso de matemática de 1900. O
>     prefácio de Principia Mathematica começa assim:
>
>     The mathernatical treatment of the principles of mathematics, which is
>     the subject of the present work, has arisen from the conjunction
>     of two
>     different studies, both in the main very modern. On the one hand
>     we have
>     the work of analysts and geometers, in the way of formulating and
>     systematising
>     their axioms, and the work of Cantor and others on such matters as
>     the theory
>     of aggregates. On the other hand we have symbolic logic, which,
>     after a
>     necessary period of growth, has now, thanks to Peano and his
>     followers,
>     acquired the technical adaptability and the logical
>     comprehensiveness that are
>     essential to a mathematical instrument for dealing with what have
>     hitherto
>     been the beginnings of mathematics.
>
>     Cadê Frege?
>
>     No mesmo prefácio escrevem:
>
>     The general method which guides our handling of logic al symbols
>     is due
>     to Peano. His
>     great merit. consists not so rnuch in his definite logical discoveries
>     nor in the
>     details of his notations (excellent as both are), as in the fact
>     that he first
>     showed how symbolic logic was to be freed from its undue obsession
>     with the
>     forms of ordinary algebra, and thereby made it a suitable
>     instrument for
>     research.
>
>     Eu não sei o que é essa obsessão com as formas da álgebra
>     ordinária.
>     Mas parece ser que Russell e Whitehead não encontram nos
>     ganchinhos da
>     Bregriffsschrift um instrumento adequado para ser utilizado nas
>     demonstrações matemáticas, com poucas excepções ( |- ):
>
>     In the matter of notation, we have as far as possible followed
>     Peano, supplementing his notation, when necessary, by that of
>     Frege or by
>     that of Schröder.
>
>     Uma dívida reconhecida com Frege:
>
>     In all questions of logical analysis, our chief debt is to Frege,
>     Where we differ
>     from him, it is largely because the contradictions showed that he,
>     in common
>     with all other logicians ancient and modern, had allowed some
>     error to creep
>     into his premisses; but apart from the contradictions, it would
>     have been
>     almost impossible to detect this error.
>
>     È bem possível que a contradição das Grundgesetze der
>     Arithmetik tenha
>     abalado de tal maneira a obra de Frege, que sua contribuição tenha
>     sido desprezada pelos matemáticos.
>
>     O "método de manipular símbolos lógicos" é tomado de Peano,
>     mas "as
>     questões de análise lógica" vem de Frege. O que quer dizer?
>     Será que
>     eles adequaram o sistema dedutivo de Frege para a notação de Peano?
>     Qual seria um exemplo de este proceder?
>
>     Abraços
>
>     Carlos Gonzalez
>
>     2009/1/25 Wagner de Campos Sanz :
>     > Caro JY
>     >
>     > Parece-me interessante a revisao historica das influencias.
>     Depende do
>     > proposito. Se for so por um problema de vaidades, nao importa.
>     Se tem
>     > substancia conceitual é mais interessante.
>     > Por certo que nem toda a bagagem (nem a maior parte) vem por maos de
>     > Frege ou de uma so personalidade, quem quer que seja. Ao
>     considera-lo
>     > pai da logica contemporanea creio que o julgamento procede segundo a
>     > revolucao conceitual que foi operada, salvo juízo mais douto.
>     > Ate onde estou recordado, JvH admite em um artigo a existencia
>     de duas
>     > linhas gerais para a interpretacao das linguagens formais: como
>     cálculo
>     > ou como lingua caracteristica.
>     > No caso de Frege trata-se da segunda. Na primeira linha podemos
>     contar o
>     > desenvolvimento da algebra, creio inclusive que ele cita
>     explicitamente
>     > Schroder como exemplo.
>     > Uma linha de clivagem importante para a apreciacao das
>     relevancias do
>     > tema em questão está no que logicos de tendencias filosofias ou de
>     > tendencias matematicas consideram como sendo "a verdadeira logica".
>     > É natural que os pendores daqueles de inclinaçao filosofica
>     estejam mais
>     > interessados no que foi produzido sob o rotulo de "Logica"
>     associado a
>     > algum projeto mais amplo, em geral projetos fundacionistas (Frege,
>     > Russell, Hilbert, Brouwer, etc.). Todavia, em boa parte da
>     tradição
>     > contemporânea não vemos mais projetos dessa natureza, ou
>     ainda, seu
>     > alcance é muito mais restrito.
>     > Tarski me parece um exemplo interessante. Não entendo que o
>     trabalho
>     > dele possa ser ligado a um projeto de natureza filosofica mais
>     amplo,
>     > embora ele mesmo tivesse um tino filosofico muitissimo sofisticado.
>     > O mesmo, por exemplo, não ocorre com Carnap, esse sim tinha
>     projetos
>     > dessa natureza (começa com o positivismo lógico e se espraia
>     na unidade
>     > da ciência) embora suas realizacoe s logicas sejam bem mais
>     modestas.
>     > Com respeito ao conceito de consequencia logica, nao penso que o
>     fato de
>     > descreve-la ou conceptualiza-la em termos topologicos em 1928
>     seja o que
>     > confere importancia ou prioridade a Tarski na elucidacao do
>     conceito.
>     > Antes, sao os artigos sobre verdade nas linguagens formalizadas e o
>     > artigo sobre consequencia logica (onde em uma nota de rodape ele faz
>     > referencia explicita as tentativas de Carnap de caracterizar o mesmo
>     > conceito, alias dizendo que Carnap estava errado) esses sim
>     parecem ter
>     > tido um impacto mais amplo na comunidade de logicos (em amplo
>     sentido,
>     > pois a Teoria de Modelos seria uma das resultantes) assim como
>     na dos
>     > filosofos (ou em certa parcela destes, pelo menos).
>     > Um abraço,
>     >
>     > WS
>     >
>     >
>     > BEZIAU Jean-Yves escreveu:
>     >> Wagner
>     >>
>     >> Com estou repeti ndo: os livros da Gerladine Brady e do Ivor
>     Grattan-Guinness
>     >> estao dando uma visao bem diferente da historia da logica
>     moderna do livro do JvH.
>     >> A Geraldine Brady mostrou como o trabalho importante do
>     Löwenheim e do Skolem
>     >> foi influenciado pelo Peirce e Schröder, e nao pelo Frege.
>     >>
>     >> Sobre os polones, tem o livro do Jan Wolenski sobre a escola de
>     Lvov-Varsovia.
>     >> Ele fala que a logica moderna foi introduzida pela primeira vez
>     na polonia por Lukasiewicz
>     >> resumindo o Schröder - no famoso livro dele sobre o principio
>     de contradicao em Aristoteles.
>     >>
>     >> Tarski ficou a vida inteira muito influenciado pela algebra da
>     logica do Schröder.
>     >> A ultima obra do Tarski
>     >> Alfred Tarski & Givant, Steven, 1987. 2004, A Formalization of
>     Set Theory Without Variables, American Mathematical Society
>     >> é diretamente ligada a isso.
>     &g t;>
>     >> A nocao de consequencia de Tarski que ele comecou a desenvolver
>     a partir de 1928
>     >> (operador de consequenca) é ligada a topologia,
>     >> ele estava trabalhando com o Kuratowski naquele epoca.
>     >>
>     >> E bom lembrar tambem que o Tarski provou em 1936 que a logica
>     propositonal tipo Principia Matematica factorizada pela nocao de
>     equivalencia logica é uma algebra de Boole.
>     >>
>     >> Um abraco, JY
>     >>
>     >> -------- Mensagem original --------
>     >> Assunto: Re: [Logica-l] RE : JvH e a lenda do Frege com papai
>     da logica
>     >> moderna
>     >> Data: Sun, 25 Jan 2009 11:42:35 -0200
>     >> De: Wagner de Campos Sanz >
>     >> Para: Joao Marcos >
>     >>
>     >>
>     >>
>     >> Caro Joao, JY, e outros,
>     >>
>     >> Gostaria de ver mais pessoas que trabalham com filosofia e
>     historia da
>     >> logica manif estar sua opiniao acerca do tema.
>     >> Com respeito ao assunto, por certo que os "herois" variam
>     conforme as
>     >> personalidades e os seus gostos.
>     >> Em minha opiniao Frege merece o titulo de pai da logica
>     contemporanea,
>     >> pois ele é dele o giro conceptual que deu origem aos instrumentos
>     >> basicos da logica contemporanea.
>     >> Todavia, a obra que teve grande impacto no desenrolar dessa
>     historia
>     >> foram os Principia de Russell, o qual muitas vezes diz ter
>     recebido ou
>     >> tomado as ideias de Frege.
>     >> Do ponto de vista da criação de problemas, pesquisa e dos
>     resultados que
>     >> se seguiram dentre os mais relevantes da logica no sec. XX,
>     dificil nao
>     >> ter em conta Hilbert e seu programa fundacionista.
>     >> Todavia, me parece, o impacto de Hilbert foi maior na
>     comunidade dos
>     >> matemáticos. Vale lembrar que o proprio Hilbert atribui
>     importan cia e
>     >> paternidade a algumas ideias fundamentais com as quais
>     trabalhamos em
>     >> logica hoje em dia a Frege e a Russell.
>     >> Naturalmente em seguida veem Tarski e Godel. Como anedota,
>     segundo a
>     >> recente biografia de Tarski, ele dizia ser o lógico são mais
>     importante
>     >> do momento (daquele momento), provavelmente uma referencia nada
>     cortes a
>     >> demencia de Godel.
>     >> À aqueles que conhecem a obra de Tarski mais de perto pergunto: o
>     >> sistema que subjacente em boa parte dos artigos de Tarski, como
>     aquele
>     >> sobre consequencia logica, é necessariamente o sistema dos
>     Principia ou
>     >> pode ser outro sistema qualquer?
>     >> Abraços a todos,
>     >>
>     >> WS
>     >> _______________________________________________
>     >> Logica-l mailing list
>     >> [email protected]
>     >> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/l istinfo/logica-l
>     >>
>     >>
>     >
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