Se T possui aritmética suficiente para representar as funções recursivo
primitivas, e se tiver um conjunto r.e. de teoremas, então T é incompleta.

T pode ser paraconsistente, ultraconsistente, neoconsistente, o que
quiserem.

2009/8/13 Joao Marcos <[email protected]>

> > O teorema de Gödel pode ser enunciado aproximadamente assim: "nao existe
> > nenhuma teoria T extendendo a teoria minima da aritmetica Q, que seja
> > simultaneamente (recursivamente) axiomatizavel, (omega)-consistente e
> > completa"
>
> Recordo antes de mais nada que os pré-requisitos para a aplicação do
> teorema, como bem lembrou o Petrucio em mensagem recente, incluem,
> mais especificamente:
>
> * * *
>
> 1. SF tem um conjunto de axiomas tal que se pode reconhecer
> mecanicamente quando uma dada expressão escrita na linguagem de SF é
> ou não um axioma;
>
> 2. SF tem um conjunto de regras de inferências tal que se pode
> reconhecer mecanicamente quando uma dada sequência de expressões
> escrita na linguagem de SF é ou não uma instância de aplicação de uma
> das regras;
>
> 3. A noção de prova utilizada em SF é finitária (ou seja, as provas
> são finitas);
>
> 4. SF só prova verdades;
>
> 5. SF prova uma porção significativa de resultados da Teoria dos Números.
>
> * * *
>
> Importante ainda é notar que, na demonstração canônica da
> incompletabilidade, pretende-se demonstrar um resultado sobre um certo
> sistema S usando essencialmente apenas os recursos expressivos e
> dedutivos deste próprio sistema S --- que deve assim ser dotado de uma
> certa capacidade de "auto-reflexão" (capacidade esta que o condena à
> incompletabilidade).
>
> > Como fica isso do ponto de vista paraconsistente? Será que é possivel
> provar
> > que existe uma teoria paraconsistente T' que seja completa,
> axiomatizavel,
> > inconsistente, mas 'paraconsistente'? Ou existe uma versao
> paraconsistente
> > do teorema de Gödel?  Isso já foi discutido em algum paper? Estou
> viajando
> > demais :-) ?
>
> Cê tá viajando não, Bruno...
>
> Se estivermos falando de um fragmento "suficientemente expressivo" da
> matemática, paraconsistente ou não, haverá por certo alguma versão do
> teorema de Gödel que poderá ser demonstrada.  No entanto, se a lógica
> e a semântica associada forem "enfraquecidas" a ponto de permitir por
> exemplo que uma certa sentença possa ser ao mesmo tempo verdadeira e
> falsa, então não deveria ser tão problemático em princípio descobrir
> que a sentença de Gödel, que afirma de si própria ser indemonstrável,
> é de fato demonstrável.  Pessoas como Graham Priest defendem
> exatamente este ponto de vista, e dizem que tais sentenças são
> exemplos de "dialetéias" (algo como "contradições reais").
>
> Claro que este ponto de vista também pode ser criticado.  Hartry
> Field, no livro recente "Saving Truth from Paradox", defende que este
> argumento mostra justamente que o sistema matemático pensado por
> Priest não é capaz de verificar sua própria correção de forma efetiva
> (contrariando os pontos 2 ou 4 da lista acima).  Ficaria fora de
> alcance assim a demonstração de "soundness" do sistema a partir de
> seus próprios recursos.
>
> * * *
>
> Por outro lado, um ponto que eu acredito NÃO ter sido explorado ainda
> devidamente está relacionado justamente à noção de
> *omega-consistência*, elucidada aqui na lista pelo Finger.  No caso da
> omega-consistência não há uma inconsistência ou contradição explícita
> envolvida, mas algo como uma contradição "em potência", e há pouco
> espaço assim para uma contribuição da paraconsistência de modo
> genérico (a definição usual de paraconsistência pode ser formulada a
> nível proposicional e abstrato, envolvendo sentenças e suas negações).
>
> Uma BOA lógica paraconsistente que explorasse os espaços para além do
> nível proposicional deveria, na minha opinião, dar conta deste tipo de
> inconsistência.  Desconheço, não obstante, qualquer trabalho que já
> tenha sido feito nesta direção.
>
>
> Joao Marcos
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