Gabriel
Sim, o tema é interessante, mas fique atento que não se pode discutir
as coisas, como aquelas que envolvem matematica e lógica, sem bom
conhecimento do assunto. O Prof Newton Costa costuma dizer que
discutir as coisas sabendo do que se fala é algo quase que trivial,
que "qualquer um faz". O *bacana* mesmo, segundo ele, é discutir sem
saber nada do assunto.... (e se diverte com isso). Sugiro que faça
bons cursos de lógica e se puder leia algo sobre topologia (que Lacan
usa) e fundamentos da teoria de conjuntos (aleph-zero, etc.) e lógica
paraconsistente. Bom, só isso é obra de uma vida.
Os textos de Lacan (li muito pouco porque cansam) são difíceis (na
verdade, acho-os mal escritos) e para mim são horríveis de ler. Mas o
pouco que vi me permitiu perceber alguns dos erros que ele cometeu
(que não anotei) e principalmente as barbaridades que os seus
*intérpretes* cometem, o que é mais facil perceber, porque as burradas
brotam em todo lado.
Eu faria o seguinte: deixaria a exegese de lado e leria L para ver o
que ele pretende, tirando uma possivel intepretaçao, digamos, colocar
em pratos *lógicos* o discurso analítico, arquitetando-o por meio de
uma linguagem articulada. Depois, independentemente dele, procuraria
ver se é possível cumprir essa tarefa, hercúlea. O que se pode fazer
para começar é tratar parte da linguagem do discurso analitico, feito
na linguagem natural. Richard Montague fez coisas legais com uma parte
do inglês, que ele chamou de *inglês básico*, e talvez isso ajude se
aprender algo a respeito. Para toda a linguagem natural usada no
discurso, acho que não dá (Montague, que era um gênio, não conseguiu).
Mas pode-se tomar o discurso de alguém e, sem querer transformar isso
em uma linguagem formal, que acho que não dá, procuraria detectar por
exemplo inconsistências e analisá-las. Por exemplo, quando uma pessoa
expressa inconsistências? O que é ser inconsistente em um discurso
feito em linguagem natural? (em linguagem formal podemos dar uma
definição razoavelmente precisa). Que implicações tem isso para a
pessoa? Gera conflitos? São feitas *naturalmente* ou somente
intencionalmente? Etc. etc.
Em todo caso, só para comprovar o que digo, pergunte aos lacanianos o
que é a faixa de Möbius e depois a um matemático bom (que conheça
topologia) e veja a diferença. Faça o mesmo com *infinito*, *aleph-
zero*, *lógica* e outras coisas.
Abraço.
Décio
________________________________
Decio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
deciokrause[at]gmail.com
www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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“[T]here’s much more difference (. . . ) be-
tween a human being who knows quantum
mechanics and one that doesn’t than between
one that doesn’t and the other great apes.”
(M. Gell-Mann)
Em 18/12/2009, às 20:23, Gabriel Bartolomeu escreveu:
Obrigado Decio.
Estou (apenas) no terceiro ano da graduação do curso de Psicologia.
Há dois anos estudo Lacan em um núcleo de estudos lacaniano. É
justamente pela incompletude das explicações acerca dos conceitos
que ele retira do campo lógico, e de uma aparente dedução por parte
de quem fala deles, que me interessei em tentar entender a
articulação entre psicanálise lacaniana e lógica. O que estou
tentando (com grandes dificuldades, é lógico!) fazer sozinho,
estudando matemática.
Vou ficar atento ao que você apontou e ler mais sobre esta
discussão. Já que nos meios lacanianos (pelo menos aqui) não vi
discussão (crítica) alguma acerca da lógica nos textos lacanianos.
(???) Ao que posso somar a minha ignorância em relação as críticas
existentes.
Mas, pensar em uma crítica (em certa medida) de questões da teoria
lacaniana, estando imerso nela e fazendo uso dela, parece ser muito
interessante.
Abraço.
Mais uma vez, obrigado.
2009/12/18 Decio Krause <[email protected]>
Gabriel (e Doria)
Não, eu falo sério. Desculpe, Gabriel, se me fiz entender errado,
ainda que eu tenha mesmo sido meio irônico.
Mas creio que além de buscar o que quer (talvez Andrea Loparic possa
dar indicações mais precisas), deve ler sobre isso também. Por
exemplo, acha-se na web a resenha feita por Richard Dawkins do
livro que mencionei, e que é sensacional (a resenha). Lacan tem
seus defensores contra essas críticas, mas basta ler algo dele mesmo
para você perceber que ele não sabia nada de lógica, e que essas
*defesas* visam somente aplacaar a objetividade das críticas, que me
parecem sensatas ---veja-as e conclua por si mesmo. Há um livro de
dois argentinos "Gödel para todos", não tenho a referência aqui--
trata-se se uma introduçào aos teoremas, que no entanto contém
várias falhas, mas é útil, e que traz um capítulo sobre o mal uso
da lógica em tais contextos. Eles partem de Socal e Bricmont, mas
acrescentam coisas de Lacan, como citacões dele aos teoremas (de
incompletude) de Gödel. Com o livro nas mãos, poderei dar as
indicações, mas ele está emprestado. É só ler para constatar que ele
dizia as maiores loucuras.
Isso no entanto não impede que se use lógica nesses contextos, ainda
que eu desconheça trabalhos sérios (Andrea pode dizer). No entanto,
se posso dar uma sugestão, tome cuidado nem tanto com Lacan mas com
os lacanianos. Esses, quando escrevem sobre lógica, o aleph, o nó
borromiano, a faixa de Möbius, etc. e tentam interpretar o mestre,
dão cada fora..mas cada fora..... Escrevem sobre conceitos
matemáticos e lógicos que não entendem, é óbvio. Há um tempo eu
colecionava esses artigos, mas depois cansei de tanta besteira.
Boa sorte. Quem sabe você coloque luz nisso tudo. Espero que isso
tudo te dê a necessária cautela e que você procure coisas sérias,
mas não desista.
Abraço,
Décio
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mechanics and one that doesn’t than between
one that doesn’t and the other great apes.”
(M. Gell-Mann)
Em 18/12/2009, às 19:17, Francisco Antonio Doria escreveu:
Boa!
2009/12/18 Decio Krause <[email protected]>
Gabriel
Comece lendo "Imposturas Intelectuais", de Socal e Bricmont.
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Em 18/12/2009, às 18:47, Francisco Antonio Doria escreveu:
Coitado de vosmicê...
2009/12/18 Gabriel Bartolomeu <[email protected]>
Olá,
Alguém poderia me indicar autores, livros ou artigos com discussão
que articule lógica e psicanálise lacaniana?
Obrigado.
--
Gabriel Bartolomeu
Graduando de Psicologia
PUC Minas
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Gabriel Bartolomeu
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