Escrevi pequenos comentários para o espaço "Opinião do Leitor" no siste da
livraria Cultura para livros que li e considero importantes. Divido aqui com
vocês:
O Jogo das Contas de Vidro - Hermann Hesse - Record ou BestBolso - 52,90 ou
19,90
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=387754&sid=002037717121480619061811&k5=47403B8&uid=
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2211279&sid=002037717121480619061811&k5=1C517DBB&uid=
O livro conta a vida de José Servo, desde criança quando foi selecionado para
estudar nas escolas de elite até se tornar o mestre do jogo de avelórios. O tal
jogo não é apenas um pretexto para a história e nem é pura invenção, é algo
visivelmente presente na história da filosofia e das religiões. Está em
Pitágoras, Platão, Cusa, Hegel... e mesmo nas ciências: Ludwig von Bertalanffy,
criador da teoria geral dos sistemas, reconhece em O Jogo das Contas de Vidro
um antecessor literário de sua teoria (vide o livro Teoria Geral dos Sistemas).
O modo como o autor apresenta o caráter de José Servo, sua mistura de ousadia e
timidez, sua servidão e sua liberdade é algo belíssimo. O livro fala sobre a
formação espiritual, da busca da plenitude, da busca pela quietude espiritual.
O livro é dito futurista, embora dê a impressão que a história se passe em um
mosteiro do século XIV. Inclui também algumas poesias de Jose Servo e três
textos de sua autoria. Pra mim, tratando-se de literatura, é o que de melhor se
produziu até hoje.
A Arte de Amar - Erich Fromm - Martins Fontes - 42,80
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=544493&sid=002037717121480619061811&k5=F757E21&uid=
A linguagem simples, o tratamento teórico por vezes simplório mascaram a
profundidade desta obra. Sua principal tese é simples de resumir: o amor não é
um sentimento que qualquer pode usufruir, ele está ligado ao grau de maturidade
que a pessoa adquiriu. É preciso aprender a amar. Embora possa parecer
autoajuda, as reflexões partem da psicanálise e do marxismo, mais a experiência
do autor como analista e membro da Escola de Frankfurt. Ele nos revela os
mecanismo sociais e psicológicos que impedem as pessoas de amar e que fazem com
que caiam em pseudoamores. Fala do amor romântico, do amor dos pais, do amor ao
próximo e do amor a Deus. Sem conseguir amar ao próximo, não se pode amar
verdadeiramente ninguém. Amor exige respeito, para que não vire dominação,
exige conhecimento, o amor é filho da compreensão, exige cuidado, ninguém
acredita no amor de uma mãe que não cuida de seus filhos, exige
responsailidade, quem ama responde pelo outro. Mostrando visões erradas a
respeito do amor, da responsabilidade e da liberdade, Fromm nos apresenta o
amor como a única coisa que pode dar sentido à separação/isolamento que
sentimos desde o nascer. Belíssimo. Recomendo a todos.
Homo Ludens - Johan Huizinga - Perspectiva - 29,00
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=73710&sid=002037717121480619061811&k5=F4DAEE1&uid=
Huizinga é provavelmente o maior teórico do jogo. Sua teoria é de onde partem
seus seguidores e os críticos. O livro primeiro define jogo, para ele
interpretar, brincar, rituais, jogos típicos, festas entre outras coisas são
consideradas jogos. Tudo aquilo que se passa dentro de um tempo e espaço
definido, é tido como diferente do cotidiano, envolve inteiramente o
participante, possui regras que devem ser estritamente seguidas e é um fim em
si mesmo, não é feito em função de algo é jogo. Munido desse conceito poderoso
ele interpreta os rituais e textos dos antigos gregos e hindus mostrando que há
neles inegavelmente um aspecto lúdico. Os rituais dos selvagens é uma forma de
jogo. Depois disso ele análisa a lei e o jogo, a filosofia e o jogo, a guerra e
o jogo, a arte e o jogo, por fim a cultura e o jogo. O jogo é anterior a
cultura, tanto é que os animais jogam. Para o autor o jogo é o fundamento da
cultura, todas as manifestações mais humanas teriam nele sua fonte. O método
usado é o da análise etimológica, pois o autor é um renomado filólogo.
Jogo, Teatro e Pensamento - Richard Courtney - Perspectiva - 32,00
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=94627&sid=002037717121480619061811&k5=1D4A62D9&uid=
O livro abrange praticamente todas as abordagens teóricas elaboradas sobre os
jogos. Ele fornece resumos de cada uma delas, apresenta as críticas mais comuns
e fornece ampla bibliografia. O objetivo do autor é defender o uso do teatro na
educaão. Por isso ele fornece fundamentos teóricos. O livro aborda a
psicanálise, o psicodrama, a teoria de Piaget... Para todos aqueles que
trabalham com jogos, ou que pensam em fazer algum trabalho sobre o tema, este é
um livro muito bom como uma primeira aproximação. Dá uma visão geral sobre o
que foi escrito sobre os jogos, aprofundando tanto quanto possível cada uma das
abordagens.
Sobre a Fundamentação - Manfredo Araújo de Oliveira - EDIPUCRS - 8,60
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=295477&sid=002037717121480619061811&k5=1EAE259E&uid=
Começando da filosofia antiga, passando pelos modernos até chegar aos
contemporâneos, o autor mostra que a filosofia sempre esteve vinculada com um
projeto de fundamentação do conhecimento e de auto-fundamentação. As ciências
particulares, em útima instância partem de seus axiomas, que ficam sem
justificação. Caberia a filosofia fundamentar estes axiomas, por isso
Aritóteles diz que ela seria a ciência dos primeiros princípios, ou Fichte que
vai chamá-la de a rainha das ciências. Após apresentar este projeto,
vinculando-o com a história da filosofia, o autor chega aos filósofos
contemporâneos Apel e Hösle, apresentando a visão destes autores, qual seja, a
pragmática transcendental e o idealismo objetivo. O texto é claro, rico em
referências e de leitura agradável. Para o filósofo ou para o leigo, aqui se
encontra uma visão da filosofia entranhada na história da filosofia, bem comum
nos filósofos alemães de hoje e do passado. Para aqueles que se perguntam o que
é a filosofia?, este livrinho fornece uma resposta adequada.
Lógica e Forma de Vida - Alexandre Noronha Machado - Unisinos - 48,00
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5082730&sid=002037717121480619061811&k5=1BEE4D61&uid=
Este é um livro para o estudioso da obra de Wittgenstein. Não é uma introdução.
Apesar de ser um texto ambicioso, quer abordar as principais obras de
Wittgenstein - Tractatus Logico-Philosophicus e Investigações Filosóficas -
fazendo a ponte entre uma e outra, o texto não é superficial, é denso,
aprofundando cada aspecto das teorias de Wittgenstein em detalhes. Desconheço
autor que tenha levado suas análises sobre Wittgenstein tão a fundo. Conhecendo
bem as obras de Russel e Frege o autor mostra em detalhes a evolução do
pensamento de Wittgenstein, desde as idéias de Frege e Russel, passando pelo
caderno de notas até o Tractatus e depois as investigações. O autor dialoga com
intérpretes famosos de Wittgenstein no mundo de língua inglesa. O texto é
claro, o livro é bem organizado, no início de cada seção é listado as
principais teses apresentadas ao longo desta. Pela profundidade e alcance,
ninguém que esteja interessado em Wittgensein pode deixar de ler este livro.
Iniciação ao Silêncio - Paulo Roberto Margutti Pinto - Loyola - 41,80
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=161796&sid=002037717121480619061811&k5=1D43A1ED&uid=
Livro indicado para um primeiro contato com o Tractatus de Wittgenstein devido
a sua clareza. Mas embora possa ser usado como livro introdutório, não se trata
de uma conversa sobre a filosofia de Wittgenstein. O autor apresenta e defende
uma interpretação própria e profunda do Tractatus. Para ele o Tractatus é uma
obra de iniciação, o leitor, via clarificação da linguagem, deveria
reconstituir os passos de Wittgenstein e ao atingir o aforismo 7 do livro
passar pela mesma experiência mística que Wittgenstein parece ter experimentado
na guerra, renunciasse às tentativas de dizer o inexprimível, reconhecendo o
indizivel contido no dizer, para então ver o mundo da maneira correta, a
contemplação do silêncio místico. Para além de uma interpretação do Tractatus o
livro é também um experimento onde o autor testa um método de interpretação de
textos filosóficos desenvolvido por ele. Este método é apresentado em detalhes
e cada passo de sua aplicação é esclarecido. Acredito que essa obra é a que
melhor representa o espírito com que devemos ler o Tractatus. O autor consegue
ser objetivo, claro e profundo ao mesmo tempo.
Tractatus Logico-Philosophicus - Ludwig Wittgenstein - EDUSP - 38,00
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=151700&sid=002037717121480619061811&k5=1215E95A&uid=
Sem dúvida uma das obras filosóficas mais importantes do século XX. Essa versão
vem com uma ótima e extensa introdução ao tema (+ de 80 pags) fornecendo muito
do que é necessário para compreender o livro. Além disso é uma versão bilíngue.
O Tractatus é uma obra de difícil leitura, para um primeiro contato seria
melhor um intérprete como Iniciação ao Silêncio de Paulo Margutti ou Lógica e
Forma de Vida de Alexandre Machado, provavelmente os maiores intérpretes de
Wittgenstein no Brasil. Apesar dessa dificuldade, o livro é genial, além de que
ele pode ser uma das últimas grandes tentativas de construir um sistema
filosófico. O livro trata de problemas tanto da tradição analítica (Frege e
Russel) quanto da tradição transcendental (Kant e Schopenhauer), questões
fundamentais da filosofia de seu tempo. Nas palavras de Russel, "um livro que
nenhum filósofo sério pode se permitir ignorar".
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