Olá, Julio: Certamente há muitos "exageros" e "incompreensões" na literatura científica, em especial na literatura paraconsistentista, e mesmo na literatura cientificamente bem-informada. Mas agora, confesso, fui eu quem não entendeu *qual era afinal sua pergunta*, que você neste momento afirma inclusive já ter sido respondida!
>> Se *todas* as contradições forem de alguma forma >>aceitáveis, contudo, deixa de fazer sentido, ou de ser necessária, uma >>lógica paraconsistente >[..] >>A lógica paraconsistente >>só tem utilidade enquanto ainda é possível "fazer a diferença", e é >>justamente para estender o domínio desta possibilidade que esta lógica >>foi proposta. >[..] >>Você pode trabalhar com uma meta-linguagem clássica de ordem superior, >>ou algo perto disso, para mais ou para menos. Mas pode também tentar >>trabalhar, se realmente tiver um motivo para tanto, em uma >>meta-linguagem genuinamente não-clássica. Nem mesmo se este >>"não-clássico" significar "paraconsistente", contudo, você poderá >>aceitar *todas* as contradições --- sob o risco de se tornar >>irrelevante. > > Como eu disse, essa era exatamente minha questão! Bom, se esta era realmente "sua questão", então ela estava ancorada justamente na confusão e na impercepção da diferença essencial entre "acomodar contradições" e "aceitar todas as contradições"... Mas isto está justamente na base da proposta paraconsistentista! Quem quer que não tenha deixado a diferença clara para você (e isso pode muito bem ter sido o caso) não explicou bem em que consiste a paraconsistência. Valeu neste caso pela sua atenção e pela sua postura crítica. E que sorte a minha de ter conseguido "responder" você mesmo SEM ter compreendido exatamente o que você queria perguntar, e simplesmente formulando, como fiz acima, o mesmo alerta que eu teria feito a qualquer pessoa que estivesse tentando compreender o próprio objetivo da abordagem paraconsistentista. Parece afinal neste caso que, a despeito do que eu vinha pensando, seu problema *não* era com relação a *lógicas não-clássicas em geral* ---embora tivesse toda a pinta de ser, e você mesmo tivesse assumido em uma mensagem anterior que assim o era. Mas se você diz que já foi respondido, ótimo. A gente nunca tem certeza de ter dito a coisa que o interlocutor realmente esperava ouvir, até ouvir isto dele. E mesmo neste caso ele pode estar mentindo, como um bom caviloso. Ou dizendo uma verdade que ao mesmo tempo é falsa. :-) > Mesmo sem ser músico, não é possível perceber que o cantor desafinou? Nem sempre. Às vezes é preciso algum treino musical anterior. E algumas músicas podem dar a impressão de desafino. Pra não falar de que há a possibilidade de que você esteja ouvindo a apresentação de um joãogilbertiano, que complica estas questões. * * * Você já demonstrou preparo para discutir e disposição para discutir filosofia da lógica e o fenômeno dos portadores-de-verdade, e mostrou ser bastante cuidadoso com o uso da linguagem natural ao tratar de um tópico desta área. Na minha opinião, se aproveitar a mesma boa disposição e usar do mesmo cuidado agora para atualizar a sua opinião sobre a lógica clássica moderna ser a lógica de Frege ou Russell, ou de Aristóteles, você só terá a ganhar. Talvez já possa começar por exemplo por dar uma lida em Wittgenstein, e suas (dele) opiniões bastante não-clássicas sobre a negação e a contradição. De toda forma, a questão lançada sobre "a possibilidade de uma semântica coerente para uma meta-linguagem paraconsistente", se era esta a questão, não deixou de ser provocadora! Abraços, Joao Marcos -- http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ (in absentia, post-doc in cives vindobonensis) _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
