Olá João

Li alguns parágrafos, mas não li tudo. O artigo é interessante, sem dúvida,
mas não gostei não.

A primeira tese é uma tese de educação (pág. 31):

"First, precollege mathematics
education is still based on nineteenth-century
methodology, and it seems to me that we will not
get satisfactory outcomes until this changes"

Discordo completamente. Não sou educador matemática mas algumas observações
simples esclarecem a situação. Para aprender matemática primeiro é preciso
adquirir fluência na manipulação das noções matemáticas sem definições
precisas, depois apreender a estrutura. Não se aprende a estrutura das
frases antes de falar com fluência ou mesmo ler e escrever com fluência.

 Depois, a "college mathematics", o cálculo diferencial e integral, está em
continuidade com essa matemática interpretada, sem definições muito
precisas, a lá séc. XIX. E não dá para fazer cálculo de um modo preciso nos
primeiros anos de faculdade, com uma definição precisa de integral de
superfície, etc. A mudança na matemática da escola que propõe Quinn gera
uma situação curiosa: no colégio a matemática seria mais precisa que na
faculdade. O "momento da definição" na matemática universitária começa bem
devagar em álgebra linear e depois em análise na reta, lá pelo terceiro ano.

Ele fala da geometria, do Hilbert, etc. Desinterpretar a geometria tem os
seus propósitos, mas não dá para aprender geometria pensando que reta é
cerveja. Talvez a melhor opção para curso de geometria da universidade seja
o Euclides. Já vi professores que testaram os textos mais modernos
afirmarem isso. Para pre-college nem se fala.


Depois tem essa coisa dele (pág. 33):

"Philosophers controlled words such as “reality”,
“knowledge”, “infinite”, “meaning”, “truth”, and
even “number”, and these were interpreted in ways
unfriendly to the new mathematics."

Não entendi esse negócio de "unfriendly to the new mathematics". Me parece
que para ele todo filósofo é empirista. Mas ele continua:

"In practice mathematicians do find that their world
has meaning and at least a psychological reality"

Aparentemente Quinn pensa que os filósofos negam que a matemática tem
sentido ou mesmo que exista uma realidade psicológica!? Depois ele continua
com a sua "visão" da filosofia que eu nem vou comentar.

Mais no fim do artigo ele afirma que Hilbert perdeu oportunidades. Entre
essas oportunidades ele destaca (pág. 36):

"Hilbert had proposed a precise technical meaning
for “true”, namely, “provable from axioms that
themselves could be shown to be consistent”. But
ten years later Gödel showed that in the usual formulation
of arithmetic there are statements that
are impossible to contradict but not provable in
Hilbert’s sense. In particular, consistency of the system
could not be proved within the system. This was
seen as a refutation of Hilbert’s proposal. Ironically,
it had the same practical consequences because it
established “impossible to contradict” as the precise
mathematical meaning of “true”. "

O Quinn acha que "impossible to contradict" é a definição precisa adequada
de verdade matemática que torna o teorema de Godel uma confirmação das
propostas de Hilbert (leia o que ele escreve logo depois do trecho que eu
destaquei).
Bom a hipótese do continuo e sua negação são ambas "impossible to
cotrandict" no único sentido que posso entender isso, então a "noção de
verdade" do Quinn dá o resultado que ambas são verdadeiras.

Ele também acha que Hilbert "perdeu oportunidades" com relação ao terceiro
excluído (pág. 34):

"If he had said the following, it would have caused
an uproar:

Excluded-middle arguments are unreliable
in many areas of knowledge, but
absolutely essential in mathematics.
Indeed we might define mathematics
as the domain in which excluded-
middle arguments are valid. Instead of
debating whether or not it is true, we
should investigate the constraints it
imposes on our subject."

Se ele não confia no terceiro excluído nem em outros domínios do
conhecimento o que ele quer dizer com absolutamente essencial em
matemática? Matemática é definida, segundo Quinn, como o domínio do
terceiro excluído. Acho que isso inclui bem mais do que é normalmente
chamado de matemática.

Acho que o Quinn demonstra uma profunda incompreensão do que é filosofia e
de como ela se relaciona com a matemática e de todo o trabalho em
fundamentos da matemática que foi feito no séc. XX.

Abraço
Rodrigo







2012/1/26 Joao Marcos <[email protected]>

> PessoALL:
>
> A edição de janeiro da Notices of the AMS traz um artigo bastante
> recomendável de Frank Quinn que tem dado muito o que falar (na lista
> f.o.m., por exemplo).
>
>  "A Revolution in Mathematics?
>   What Really Happened a Century
>   Ago and Why It Matters Today"
>  http://www.ams.org/notices/201201/rtx120100031p.pdf
>
> O artigo trata da divisão clara entre "core mathematics" e
> "mathematical science", cujo alcance não teria sido de modo algum
> percebido pelos educadores matemáticos, e menos compreendido ainda
> pela "maior parte das várias escolas de filosofia", que até então
> controlavam termos como "realidade", "conhecimento", "infinito",
> "significado", "verdade" e mesmo "número" (Quinn: "to make real
> progress mathematics had to break with philosophy and, as usual in a
> divorce, there are bad feelings on both sides").  Mais importante,
> segundo Quinn, o pleno divórcio entre matemática e física, do ponto de
> vista lógico, teria ainda sido prejudicado por "tradicionalistas" como
> Poincaré e Felix Klein (e, em alguma medida, até por Hilbert e Gödel,
> que não teriam efetuado a transição completa para o ponto de vista da
> "modern core mathematics").
>
> Any rants or thoughts?
> Sugiro a leitura completa, o texto tem seus defeitos mas vale a pena.
> Joao Marcos
>
> PS: De uma maneira ou de outra, também vale a pena (re?)visitar o Klein
> Project
>  http://kleinproject.org
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