Oi, Valeria:

Parece-me mais sábio passar a palavra aos colegas, por isso serei tão
breve quanto o tempo me permite ser (ou seja, poderia ser mais breve
se tivesse mais tempo).  Respondo (ou espero responder) tão-somente o
questionamento que segue.

> Qto a:
>
>> Em ambos os trabalhos mencionados, as bem intencionadas propostas parecem
>> ter sido apresentadas de maneira independente do conteúdo atual do
>> "documento de área", e em alguns casos de maneira até inconsistente com
>> aquele documento.
>
> Agradeceria uma explicacao mais precisa de onde estamos sendo inconsistentes
> com o conteudo atual do documento de area, pois ser inconsistente nao 'e
> parte do nosso plano.
> Ser incompleto (e manter a discussao do menor tamanho possivel) e' parte do
> plano, mas ser inconsistente definitivamente nao eh.

Hummm, e o que você tem contra as inconsistências, hein? :-)

Correndo o risco de repetir um pouco o que eu disse na mensagem anterior:

Propostas de re-qualis-ficação baseadas na *percepção* de quem é ativo
na área são sempre importantes, e não devem ser ignoradas.  Qualquer
proposta deste tipo, contudo, que espere realmente mudar a realidade
das coisas terá que vir acompanhada de "justificativas" que estejam
ligadas aos *critérios* atuais registrados nos documentos de área OU
pelo menos de sugestões efetivas de como estes documentos de área
deveriam ser adaptados para dar um peso adequado àquelas dimensões que
acreditamos estarem distorcidas.  Afinal, sempre corremos o risco de
sermos vistos também como "casuístas" que só desejam defender a sua
própria área a qualquer custo (por que as nossas "sugestões de
classificação" seriam melhores do que um teórico "cálculo" feito pelos
senhores da cienciometria? --- eles se perguntarão).  Não podemos por
exemplo simplesmente ignorar o fato de que em Filosofia livros são
frequentemente mais importantes do que artigos, de que em Computação
no Brasil eventos são frequentemente mais importantes do que
periódicos, ou de que na nossa Matemática o conceito de meia-vida é
frequentemente levado em consideração antes de outras coisas.  Mas se
queremos que a Filosofia leve em consideração fatores de impacto, que
a Computação escolha coeficientes adequados para os trabalhos da área
de Teoria e para os trabalhos de "outras áreas", ou que a Matemática
suba de maneira mais ou menos artificial a classificação de alguns
periódicos, temos que estar preparados a apresentar *muito boas
justificativas* para além do nosso "sentimento de quem trabalha na
área".

Não me parece ser um jogo fácil de jogar, e eu certamente não tenho as
respostas.  Observo apenas que o lado político não deve ser
subestimado, já que as avaliações qualitativas/qualis-tativas parecem
possuir um peso desproporcional, mesmo que nem sempre sejam bem
fundamentadas.

Meu questionamento de todo modo é até um tiquinho mais amplo:
Estaremos de acordo em termos nossa "produtividade" (informalmente)
mensurada via Qualis?  Estaremos de acordo em vincular a relevância
científica de um paper, por exemplo, com o que uma certa área de
pesquisa pensa a respeito da revista em que ele apareceu?  Estaremos
de acordo em continuar dando valor maior à "pesquisa de 3o Mundo", que
ninguém viu, leu ou usou, ignorando a importância de termos pesquisa
com visibilidade e impacto internacionaIs?

* * *

O melhor em todo caso sempre é consultar diretamente as fontes.

Para os documentos de área da CAPES:

MA
http://qualis.capes.gov.br/arquivos/avaliacao/webqualis/criterios2007_2009/Criterios_Qualis_2008_01.pdf

CC
http://qualis.capes.gov.br/arquivos/avaliacao/webqualis/criterios2007_2009/Criterios_Qualis_2008_02.pdf

FI
http://qualis.capes.gov.br/arquivos/avaliacao/webqualis/criterios2007_2009/Criterios_Qualis_2008_33.pdf

INT
http://qualis.capes.gov.br/arquivos/avaliacao/webqualis/criterios2007_2009/Criterios_Qualis_2008_45.pdf

Para os critérios dos CAs do CNPq, e outras informações sobre estes mesmos CAs:

MA
http://www.cnpq.br/cas/ca-ma.htm#criterios

CC
http://www.cnpq.br/cas/ca-cc.htm#criterios

FI
http://www.cnpq.br/cas/ca-fi.htm#criterios

Não existe um CA "interdisciplinar".  Assim, mesmo que um Studia
Logica da vida seja A2 na área "interdisciplinar", para um pesquisador
de CC que esteja sendo avaliado via Qualis ele conta como B4.  Como já
foi apontado, algo não muito diferente pode ser dito a respeito do
Journal of Philosophical Logic, e assim por diante.  Supostamente a
lista de periódicos classificados em cada rodada do documento de área
inclui aqueles em que os brasileiros envolvidos em programas
brasileiros de pós-graduação stricto sensu publicaram nos últimos três
anos, e supostamente esta lista é construída sem a pretensão de
favorecer ninguém.  Sabemos contudo que isto nem sempre é assim, e que
estes números têm sido livremente manipulados ao sabor da
intelligentsia dos comitês classificadores, ao longo dos anos.  Ou
seja, temos continuamente trabalhado a partir de uma realidade que
desejamos inflar, ao invés de um projeto do que desejamos tornar
realidade.

A lógica filosófica de certa forma resolveu o problema acima, vejam
só, *politicamente*: "colocando alguém lá".  Como resultado todos
reganharam suas bolsas e ficaram felizes, e além disso vemos hoje que
há periódicos que nem são periódicos de verdade excessivamente bem
classificados pela Filosofia.  "Bom para eles", alguém poderia dizer.
Tenho minhas dúvidas.  O que é mais difícil não é entender como um
periódico pode ser simultaneamente A2 e B4, mas sim tentar entender
como um periódico A2 de uma área X se compara com um periódico A2 de
uma área Y, com X \neq Y.  Todas estas coisas devem ser relativizadas
e compreendidas com os documentos de área em mãos.

* * *

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