Olá, Rodrigo, e demais:

Obrigado pela(s) sensata(s) e ponderada(s) resposta(s).  Simpatizo
obviamente com o projeto de vocês, e tenho ainda mais simpatia pela
sistemática proposta do Hugo.  Concordo também com a sua observação
acerca do fato de que a comunidade de Computação tem continuado a ser
bastante omissa neste momento crucial.  Talvez porque muitos estejam
ocupados demais para reagir na velocidade que vocês necessitam?  Ou
talvez porque não acreditem que as mudanças se operem desta forma?
(Bom, não sei, a verdade é que não sou obrigado a encontrar atenuantes
para a inação dos colegas, até porque já faz tempo que tenho insistido
na necessidade de que eles se organizem politicamente para "defender o
seu lado".  Por outro lado, é mais fácil assinar do que discutir, não
é?)

Não sei mais o que poderia acrescentar que já não tenha sido dito
antes --- algo do que eu acrescentei como ressalvas à minha assinatura
à petição de vocês.  Como já disse aqui outras vezes, acredito que a
forma de atuação escolhida ---o envio de uma petição para os comitês
de MA, FI e CC da CAPES, contendo sugestões de classificação Qualis
não inteiramente justificadas/baseadas nos critérios de classificação
publicados nos documentos de área (vocês mesmos admitiram que montaram
a proposta de vocês sem uma vez sequer terem consultado estes
documentos!)--- corre o sério risco de ser ineficaz, por maior que
seja a quantidade de assinantes da petição (e não acho que haja alguém
aqui interessado em produzir uma "petição paralela").  Em particular,
no que diz respeito à coordenação de área da CC na CAPES (ou ao CA-CC
no CNPq), continuo com a impressão de que as chances são mínimas de
que quaisquer listas sejam levadas seriamente em consideração caso não
apareçam nelas justificativas individuais (baseadas em índices
bibliométricos e talvez outros comentários adicionais) para cada
periódico que se pretende classificar mais para cima ou para baixo.

Enfim, gostaria de acrescentar que continuo acreditando que boa parte
desta discussão se baseia em certas premissas equívocas e
interpretações falhas.  Reiterando:

(1) O Qualis foi proposto simplesmente para avaliar a produção de
programas de pós-graduação de cada área do conhecimento (são 27 áreas,
segundo a CAPES).  A classificação de periódicos por área foi talvez
uma consequência justamente daquilo que o Artur chama de
"compartimentação do conhecimento", mas também da intenção de premiar
as publicações produzidas "na área específica" de atuação de cada
programa de pós.  (O caso mais curioso, sem dúvida, é o da área
"Multidisciplinar", que não é nada específica e até tem tendência a
dar boas notas aos periódicos "de Lógica".)

(2) O Qualis não foi proposto em nenhum momento para a avaliação de
pesquisadores individuais (como sói acontecer no escopo dos processos
de credenciamento de docentes dos próprios Programas de Pós-Graduação
mencionados).  Assim, os critérios de julgamento de produtividade dos
48 CAs do CNPq, ou os critérios (muitas vezes obscuros, como mostram
os desinformativos pareceres técnicos de julgamento do CNPq) usados
por estes mesmos CAs para distribuir recursos de fomento para a
pesquisa, a realização de eventos, projetos, formação de alunos, etc,
em princípio não têm nada a ver com o Qualis.

Tendo em vista (1) e (2), toda a nossa discussão atual pareceria algo
de interesse unicamente para os Programas de Pós-Graduação.  Não me
parece, contudo, que haja atualmente no Brasil um programa de pós
exclusivamente dedicado à área de Lógica.  (Há quando muito áreas de
concentração da pós, como as nossas áreas de Lógica e Filosofia Formal
e de Fundamentos da Computação, na UFRN.)

Por outro lado, se o pressuposto de todos aqui é de que o item (2) na
prática "não funciona bem assim", pergunto: será que estamos mesmo de
acordo em termos a nossa produtividade individual avaliada através do
Qualis, "por área", sem que isto sequer tenha sido combinado?  Ou será
que queremos propor mudanças substanciais nesta avaliação?  Por
exemplo, do ponto de vista de pesquisadores individuais, fará sentido
propor que suas publicações contem mais ou menos pontos, na hora de
medir produtividade, de acordo com a área na qual este pesquisador
solicitou sua bolsa?  Ou será que faz mais sentido atribuir um valor
mais objetivo a suas publicações e à sua história como pesquisador, à
relevância e ao impacto de seu trabalho, independentemente da área de
pesquisa *da pessoa que está julgando este pesquisador* (membro de um
determinado CA)?  O "valor científico" de um determinado artigo pode
realmente diferir bastante de acordo com a comunidade que o mede?
(Entendi mal, ou a plataforma Lattes do CNPq já não tinha por objetivo
justamente possibilitar que a produção científica de um pesquisador
possa ser apreciada?)

Fico com a impressão, ao final, de que discussões sobre como
poderíamos "puxar os números para cima" (e nunca revisá-los para
baixo!) cederam ao encantamento do afã classificatório nacional, e
perderam de vista o significado dos números que estão sendo
discutidos.  (Sem levarmos em consideração os pontos anteriormente
apontados, parece que estamos, sim, sendo subservientes ao Comintern,
opa, aos comitês, na nossa proposta rasa de re-qualis-ficação.)  Ao
simplesmente traduzirmos em números mágicos "o que nós pensamos sobre
nós mesmos", com a nossa própria lista classificatória, será que não
seremos malvistos pelos olhos daqueles comitês cujos julgamentos
pretendem justamente maximizar a forma como eles percebem os seus
próprios trabalhos, e resolver com isso seus problemas de auto-estima,
a despeito de sua participação frequentemente irrelevante na produção
científica internacional?

De resto, sempre sem querer atrapalhar, desejo mais uma vez muito boa
sorte à iniciativa atual, que certamente é bem melhor que nada (e nada
é melhor do que a felicidade universal, logo, por transitividade...).
Joao Marcos


PS: Estou certo de que já colaborei bastante com o projeto de vocês
levantando estes questionamentos sistemáticos --- será que vocês
teriam angariado tantas assinaturas sem estas discussões? :-)


2012/3/27 Rodrigo Freire <[email protected]>:
> Caros
>
>
> Talvez alguns não tenham notado, mas não estamos propondo rebaixar a
> revista Logica Universalis no comitê de Matemática (ou em qualquer outro
> comitê). Ao contrário, estamos propondo subir do atual B5 para B2.
>
>
> Não é verdade que não levamos em consideração o feedback da lista: várias
> revistas foram modificadas, a Studia Logica é um exemplo. Na computação há
> várias outras.
>
> O que não concordamos é que devemos levar em conta índice de impacto e
> outros índices. Há um motivo simples para isso: como o grupo que elaborou a
> proposta não acredita nesses índices, para considerar os tais índices seria
> preciso jogar nossa proposta no lixo fazer outra proposta do zero. Nada
> contra outras propostas. Por outro lado, sou contra jogar nossa proposta no
> lixo porque acho que o trabalho foi bem feito. Desconheço outra proposta
> para o Qualis em andamento, por favor corrijam-me se eu estiver errado.
>
>
> Colocar todas as revistas de Lógica no mesmo pacote não parece muito sábio:
> primeiro o Qualis *separa* Matemática, Filosofia e Computação. Depois é
> óbvio, a tabela que coloquei no blog mostra e o João Marcos bem observou,
> os pesquisadores *sabem* muito bem onde publicar seus trabalhos.
> O índice de impacto, entre outras coisas, é cego para essa distinção,
> coloca tudo em um pacote só, como podemos ler da lista do Jean-Yves:
>
> http://www.dimap.ufrn.br/pipermail/logica-l/2012-March/007338.html
>
> Alguém realmente acredita que em termos de *conteúdo matemático* o Journal
> of Applied Logic é a melhor revista de Lógica? Pois isso seria adotar o
> impact factor em Lógica. Negar que as revistas de lógica tem um perfil não
> me parece sensato e não irá ajudá-las.
>
> Tive a curiosidade de olhar o perfil de publicações (segundo a minha tabela
> no blog) associado ao Journal of Applied Logic, campeão de impact factor
> entre as revistas especializadas de Lógica, conforme relatou o Jean-Yves. O
> resultado é o seguinte:
>
> SHELAH - 0 artigos no JAL
> GABBAY - 0
> BLASS - 0
> PILLAY - 0
> GUREVICH - 0
> HINTIKKA - 0
> VAN BENTHEM - 0
> SUPPES - 1
> MINTS - 0
> MUNDICI - 0
> SLAMAN - 0
> MOERDIJK - 0
> VAANANEN - 0
> FEFERMAN - 0
> FINE - 0
>
>
> Pergunta inevitável: o que acontece com os Lógicos de perfil mais
> matemático Shelah, Blass, Pillay, Gurevich, Mints, Mundici, Slaman,
> Moerdijk, Vaananen e Feferman que nunca destinaram um único dos seus pelo
> menos 669 artigos destinados a revistas especializadas de lógica ao journal
> de lógica de maior impact factor?
>
> Na elaboração da proposta, nós tomamos o caminho inverso: para nós a
> referência são os pesquisadores e as revistas é que são avaliadas. Por
> isso, concordo com o Jean-Yves: se o Hintikka não publicou no JSL, pior
> para o JSL. Tomar os pesquisadores como o padrão é incompátivel com impact
> factor, conforme o exemplo acima mostra. Os lógicos listados acima estão
> ativos e possuem trabalhos que seriam aceitos em qualquer revista de
> lógica. Contudo, eles escolheram publicar em apenas algumas revistas, de
> modo muito claro. Não dá para esconder isso. É como o João Marcos bem
> observou: os pesquisadores sabem muito bem onde publicar.
>
> Abraço
> Rodrigo

-- 
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