Manuel,

O antropólogo foi Arthur Ramos, no Tratado de Antropologia dele.


2013/4/12 Manuel Doria <[email protected]>

> Subespécies ("raças") são categorias nebulosas (fuzzy), como toda categoria
> biológica. Essencialismo em categorias biológicas morreu com Charles
> Darwin. Todas têm fuzzy boundaries em algum grau.
>
> A respeito da aplicabilidade em nossa espécie, acredito que a controvérsia
> parte muito mais por motivações políticas do que científicas. Um overview
> crítico dos argumentos socio-construtivistas do conceito de raça, "Race: a
> social destruction of a biological concept" foi publicado no *Biology &
> Philosophy* pelo filósofo da biologia Neven Sesardic.
>
> http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10539-009-9193-7
>
> Para evitar conotações politicamente incorretas, disciplinas como a
> antropologia genética e biomedicina recorrem a eufemismos como "population
> clusters":
>
> http://paa2006.princeton.edu/papers/61713
>
> Dado essas ressalvas, concordo com o Teófilo Reis que esse tipo de
> "profiling" não é *necessariamente* ruim. Se ele permite otimizar o
> tratamento médico de pacientes com doenças cardiovasculares, por exemplo, é
> certamente bom.
>
> Entretanto, endosso que especificamente esse "racial profiling" feito pelo
> governo é *profundamente* nocivo porque ele parte de lobbies que possuem
> uma agenda visando desunião social, com o objetivo de polarizar diferentes
> segmentos da sociedade em narrativas revisionistas a respeito da "classe
> burguesa dominante" ao longo da história do Brasil. Categorias que eram
> invisíveis e socialmente pouco relevantes em nosso mundo nocional acabam
> tornando-se salientes e criam mentalidade desnecessária de "nós contra os
> outros".
>
> Não me recordo qual foi o antropólogo brasileiro que compilou dezenas e
> dezenas de categorias *folk* que brasileiros cultivaram por séculos para se
> auto-designar. Isso é reflexo de um tipo de integração social ímpar, onde o
> gradiente de cores e características é tão contínuo em nossa população que
> nem nossa taxonomia *folk* dá conta (o que força o governo a
> artificialmente empobrecer as categorias raciais para propósitos de censo).
>
> Esta devoção à políticas públicas de origem norte-americana - país com um
> histórico de relações étnicas e raciais completamente alienígena à nossa
> realidade - é apenas, como o João Marcos bem ressaltou, mais um exemplo de
> importação de ideologias estrangeiras descabidas por parte de nossos
> conterrâneos.
>
> Abraços.
>
>
> 2013/4/12 Teófilo Reis <[email protected]>
>
> > Caro Marcelo e caros colegas,
> >
> > Observe que os efeitos terríveis a que você se refere (e que também fazem
> > parte da história da minha família) são consequência de um uso perverso
> do
> > conceito de raça. Ser contra o conceito de raça exclusivamente por esta
> > razão é como ser contra todo e qualquer uso de aviões por causa da
> > possibilidade de usá-los como armas de guerra.
> >
> > Tentar barrar o uso do conceito não me parece uma alternativa adequada
> nem
> > necessária. Eu me concentro na tentativa de barrar os usos perversos do
> > conceito e suas consequências. No caso do formulário do Lattes, entendo
> que
> > é um bom uso do conceito, e por isso apoio totalmente a permanência da
> > questão.
> >
> > Vou me juntar ao João Marcos no sentido de não prolongar esta discussão,
> > por dois motivos: primeiro, por entender que este não é o fórum adequado
> > para esta discussão; segundo, porque estou extremamente atarefado
> tentando
> > barrar medidas como o Pimesp - não por discordar das cotas, mas por
> > discordar da forma como as estaduais paulistas tentam implementar o
> > programa de inclusão.
> >
> > Se alguém, por qualquer motivo, quiser continuar a debater este tema
> > comigo, sinta-se à vontade para me contactar por meu email pessoal.
> >
> > Abraços,
> >
> >
> > Em 11 de abril de 2013 22:08, Marcelo Finger <[email protected]>
> > escreveu:
> >
> > > Caro Teófilo.
> > >
> > > Pois é exatamente contra o uso social do conceito de raça que eu estou
> > > protestando.  Pois foi graças a este conceito social que parte de
> > > minha família foi dizimada.  E nada de bom jamais adveio daí.
> > >
> > > []s
> > >
> > > Marcelo
> > >
> > >
> > > 2013/4/11 Teófilo Reis <[email protected]>:
> > > > Caras e caros,
> > > >
> > > > A escolha do "Não desejo declarar" não é unânime, pois não vejo
> > problema
> > > > algum em responder a este tipo de questão no Lattes, nem aos
> > > recenseadores
> > > > do IBGE.
> > > >
> > > >
> > > > É importante atentar para a mensagem que aparece quando se coloca o
> > > cursor
> > > > sobre o ponto de interrogação que está ao lado do campo que pede para
> > > > informar cor ou raça: "Informação solicitada para subsidiar a adoção
> de
> > > > ações de promoção da igualdade racial, previstas na lei n. 12.288, de
> > 20
> > > de
> > > > junho de 2010." Obviamente o debate acerca da razoabilidade de tais
> > ações
> > > > afirmativas é um outro assunto, do qual não estamos nos ocupando aqui
> > (o
> > > > que me parece perfeitamente correto, uma vez que o tema foge ao
> escopo
> > > > desta lista).
> > > >
> > > > Parece-me bastante evidente que o termo raça é usado como conceito
> > > social,
> > > > e não como conceito biológico. Isto é ponto pacífico entre aqueles
> mais
> > > > familiarizados com o debate de questões raciais. Quando se fala em
> > > racismo,
> > > > por exemplo, todos entendem o significado do termo (com exceção do
> Ali
> > > > Kamel), mesmo sabendo que raças, como conceito biológico, não
> existem.
> > A
> > > > referência é a um conceito social. Este é o ponto fundamental, que
> > > > aparentemente é novidade para muita gente aqui.
> > > >
> > > > Certamente é dominante o entendimento de que a solicitação de
> > informação
> > > > acerca de raça ou cor não fere a laicidade de nossa República. Basta
> > > > lembrar que o sistema de cotas raciais (cuja implementação faz uso
> > > > frequente de autodeclaração de cor ou raça) foi julgado
> constitucional
> > > pelo
> > > > STF.
> > > >
> > > > Att.,
> > > >
> > > >
> > > > Em 11 de abril de 2013 18:59, Ana Cholodovskis
> > > > <[email protected]>escreveu:
> > > >
> > > >> Acho que a opção "Não desejo declarar" parece ser a escolha unânime.
> > > >>
> > > >> Recusei a declarar também, afinal, quais são os critérios para
> > definir a
> > > >> "raça"?
> > > >>
> > > >> Não somos todos homo sapiens ou existem subespécies que não conheço?
> > > >>
> > > >>
> > > >> Em 11 de abril de 2013 18:18, Decio Krause <[email protected]>
> > > >> escreveu:
> > > >>
> > > >> > Concordo plenamente em nos recusarmos a responder a essa
> barbaridade
> > > >> sobre
> > > >> > nossa "raça". Mas não haviam chegado à conclusão de que não há
> > raças?
> > > >> > Afinal, todos descendemos do mesmo macaquito africano.....somos
> > todos
> > > >> > afro-descendentes, mesmo os arianos, sejam lá o que sejam eles,
> > ainda
> > > que
> > > >> > eles possam não gostar disso. Ridículo.
> > > >> > D
> > > >> >
> > > >> > ________________________________
> > > >> > Décio Krause
> > > >> > Departamento de Filosofia
> > > >> > Universidade Federal de Santa Catarina
> > > >> > 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
> > > >> > deciokrause[at]gmail.com
> > > >> > www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> > > >> > ________________________________
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> >
> > > >> > Em 11/04/2013, às 14:16, Marcelo Finger escreveu:
> > > >> >
> > > >> > > Caros.
> > > >> > >
> > > >> > > Eu tb me recusei a responder.  Mas creio que a inserção desta
> > > pergunta
> > > >> > > não é uma mera cópia dos Estados Unidos, não assim tão
> > diretamente.
> > > >> > >
> > > >> > > O fato é que existem grupos bem organizados que estão
> > > consistentemente
> > > >> > > pressionando para que haja coleta deste tipo de informação.  Eu
> vi
> > > >> > > esta pressão quando era acessor de informática da Pró-reitoria
> de
> > > Pós
> > > >> > > da USP (e ainda estou na mailing list deles).  O grupo em
> questão
> > > >> > > conseguiu se articular politicamente para que o representante
> dos
> > > >> > > alunos de pós de _toda_ a USP solicitasse a inserção desta
> coleta
> > de
> > > >> > > dados (raciais e de renda familiar) no ato da matrícula que os
> > > alunos
> > > >> > > devem fazer todo semestre. O pró-reitor aceitou a solicitação
> > (acho
> > > >> > > que ela foi votada ou acatada no conselho de pós, que não viu
> > motivo
> > > >> > > para barrá-la, pois uma pergunta similar já é feita na inscrição
> > > pela
> > > >> > > FUVEST). A inserção deste formulário não tinha alta prioridade,
> > mas
> > > >> > > ele foi eventualmente implementado, é de preenchimento
> voluntário,
> > > mas
> > > >> > > já deve estar lá, todo semestre para todo aluno de pós da USP.
> > > >> > >
> > > >> > > O grupo em questão batalha fortemente pela implementação das
> cotas
> > > no
> > > >> > > USP e outro assuntos raciais, mas também por outras causas
> > > encampadas
> > > >> > > pelo PCO, PSTU e outros grupos afins.  Eu sei disso pois, como
> > > disse,
> > > >> > > permaneço na mailing list deles. A linguagem de palavras de
> ordem
> > é
> > > a
> > > >> > > mesma.
> > > >> > >
> > > >> > > Eu, tanto quanto o Julio, tenho pavor a este tipo de
> questionário.
> > > Mas
> > > >> > > as questões de raça estão sendo enfileiradas em diversas
> > discussões,
> > > >> > > quer a gente goste ou não.  Não dá pra fingir que não está
> > > acontecendo
> > > >> > > nada.
> > > >> > >
> > > >> > > []s
> > > >> > >
> > > >> > > Marcelo
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > >
> > > >> > > 2013/4/11 Walter Carnielli <[email protected]>:
> > > >> > >> Caro Júlio,
> > > >> > >>
> > > >> > >> solidarizo-me  totalmente  com você-- isso é um absurdo, e me
> > > recuso
> > > >> > >> a responder.  O próprio  Cesar Lattes era judeu sefardita
> > > (sefaradim),
> > > >> > >> mas  nunca   que escrever isso num CV, imagino. O meu   também
> > é, e
> > > >> > >> por razoes  análogas  às  do Júlio teria que
> > > >> > >> responder como  "nao-ariano"  (e sem certificacao da Gestapo!).
> > > >> > >>
> > > >> > >> Uma estupidez copiada dos  americanos:  ou  o CNPq  não sabe  o
> > >  que
> > > >> > >> fazer  com isso,  ou usarão
> > > >> > >> da  pior  maneira.
> > > >> > >>
> > > >> > >> Lembro-que quando morava nos EUA que  minha a ex-esposa,que é
> > >  morena
> > > >> > >> e  branca, teve que responder a   isso num  hospital. Também
> > armei
> > > a
> > > >> > >> pior encrenca e não  respondemos.  A  funcionária  informou
>  ela
> > > mesma
> > > >> > >> a classificaria como
> > > >> > >>  "non-arian" e  não  sei mais quê.
> > > >> > >>
> > > >> > >> Eu fui até  à gerencia e exigi que  apagassem  Não sei o que
> > >  fizeram
> > > >> > >> depois, mas  ficaram surpresos...
> > > >> > >>
> > > >> > >> Colegas, recusemo-nos a declarar mais  esta  estupidez do CV
> > > Lattes!
> > > >> > >> Desobediência  civil é a  única
> > > >> > >> arma contra  para essas  aberrações!
> > > >> > >>
> > > >> > >> Abs
> > > >> > >>
> > > >> > >> Walter
> > > >> > >>
> > > >> > >> Em 11 de abril de 2013 11:08, Julio Stern <[email protected]
> >
> > > >> > escreveu:
> > > >> > >>> Caros Redistas:
> > > >> > >>>
> > > >> > >>> Minha opiniao sobre a nova modinha recem introduzida (com
> > > >> > >>> uma desculpa pseudo-legalista), a saber, da obrigatoriedade
> > > >> > >>> de uma (auto?)-Declaracao de Cor o/ou Raca:
> > > >> > >>>
> > > >> > >>> Minha filha nasceu nos USA, quando eu fazia o Doutorado.
> > > >> > >>> No hospital me exigiram o preenchimento de um formulario
> > > >> > >>> de classificacaco racial.  Armei a maior confusao, ate ser
> > > >> > >>> dispensado dequela anomalia abjeta.
> > > >> > >>>
> > > >> > >>> No Lattes, se nao houvesse a opcao - Me Recuso a Declarar,
> > > >> > >>> eu teria preenchido - Pardo.
> > > >> > >>> Afinal, eu sou um Pardo Certificado
> > > >> > >>> Tenho o passaporte de meu tio-avo, da Alemanha Nazista,
> > > >> > >>> classificando-o como Nao-Ariano e, convenhamos, nao ha
> > > >> > >>> orgao certificador mais acreditado para questoes deste tipo
> > > >> > >>> do que a Gestapo...
> > > >> > >>>
> > > >> > >>> O caminho para o inferno esta pavimentado de boas intencoes.
> > > >> > >>> Nao importam as (sempre falaciosas) supostas vatagens
> > transientes
> > > >> > >>> que se possa enxergar para manobrar a vontade,  ou as
> > infindaveis
> > > >> > >>> variantes do argumento  --  Os Fins Justificam of Meios.
> > > >> > >>> Classificacoes raciais, e quaisquer politicas nelas baseadas,
> > > >> > >>> sao um veneno para sociedade,  e tambem para a alma.
> > > >> > >>>
> > > >> > >>> --- Julio Stern
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> > > >> > >> Prof. Dr. Walter Carnielli
> > > >> > >> Director
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> > > >> > > Marcelo Finger
> > > >> > > Department of Computer Science, Cornell University
> > > >> > >
> > > >> > > on leave from:
> > > >> > > Departament of Computer Science, IME
> > > >> > > University of Sao Paulo
> > > >> > > http://www.ime.usp.br/~mfinger
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